Euclides tomava café naquela padaria já fazia quase 3 anos. Todo esse tempo tomando o café servido por Amanda e ainda sem coragem para convidá-la para sair. Chegava pontualmente as 07:30 da manhã. Calça de pregas, camisa de tencel abotoada até em cima e cabelo duro de gel. Achegava-se junto ao balcão e retirava do bolso um bloquinho de capa puída. Tudo o que pedia era precisamente a mesma coisa todos os dias e minuciosamente anotado. Um pão que devia ter exatamente 50 gramas, duas fatias de mortadela defumada e um copo de leite quente sem espuma com café e açúcar. Enquanto aguardava o leite Euclides preparava o pão. As fatias de mortadela vinham num prato à parte. Cortava o pão lentamente e depois retirava a borda e todo o toucinho da mortadela transformando-a numa renda. Muitas vezes a tarefa demorava tanto que o leite esfriava e ele era obrigado a pedir para esquenta-lo novamente. Depois verificava se não havia espuma no leite e se tivesse pedia que Amanda fizesse outro ou retirasse a espuma. Ao terminar de comer escrevia o nome dela no prato usando os disquinhos brancos de gordura.
Como fazia sempre o mesmo pedido e levava a mesma quantidade de dinheiro a moça do caixa já separava os 20 centavos de troco, sempre duas moedas de 10 centavos amarelas, nunca das prateadas pois ele tinha horror a elas e discutia por causa disso. Preferia não levar o troco ou ficava de voltar mais tarde, nunca no outro dia, sempre mais tarde. O ritual do café da da manhã durava em torno de 3 longas horas de aborrecimentos e se arrastava há quase 3 anos de apatias.
Tantas foram as brigas por contra do peso do pão, do toucinho da mortadela, da espuma no leite e das moedas douradas, que ninguém achou estranho quando Amanda atirou leite fervente em Euclides queimando-lhe gravemente o rosto. Naquele dia serviram leite de graça para todos, com bastante espuma .