sábado, 5 de dezembro de 2009 0 goles

CAFÉ DA MANHÃ

Saiu atrasado de novo. Era a terceira vez só naquela semana. Como sabia que já tinha perdido o onibus que passava bem na esquina de casa e que o próximo ia demorar, foi para um ponto um pouco mais distante na tentativa de chegar menos atrasado no trabalho. Chegou meio ofegante, encostou-se na parede e ficou ali "viajando" enquanto aguardava, chupando uma balinha esquisita que recomendaram pra melhorar a garganta e ouvindo "Post Cards From Italy" no fone de ouvido.

Bem na esquina tinha uma padaria e foi de lá que ela saiu. Veio caminhando na sua direção como quem sabe o que quer.Tinha um rebolado perfeito, assim como todo o resto. Reparou na cintura, aquilo era de verdade? Parou bem ao seu lado. Era mais alta do que ele. Cinco, talvez dez centímetros, mas não fazia diferença, sempre se intimidava com uma mulher mais alta que ele. Mas era linda e ele não conseguia resistir e ficar sem olhar para ela. Tentava disfarçar a admiração olhando as horas ou tentando acompanhar a música com os pés, mas não dava.

Então ela tirou um toddynho da bolsa. Ele pensou: "bom, deve ser melhor do que um pastel com guaraná as 7:00 da manhã". De fato, não era o que se pode chamar de um café da manhã de campeão. Como ela mantém aquele corpão só com aquilo? Do mesmo jeito que um litro de leite dura seis meses numa caixinha de papelão sem resfriamento algum. Bateu um vento e veja só, deu uma bagunçadinha no cabelo dela que pareceu não ter gostado. Ele pelo contrário adorou. Achou-a muito graciosa com aquele cabelo. Por um instante teve um delírio romântico imaginando acordar ao lado dela e vê-la toda despenteada. Normalmente as mulheres não entendem como isso pode ser belo para um homem.

Ela pegou a caixinha e botou no meio das pernas, bem na altura dos joelhos. Para quê? Para ficar com com as duas mãos livres. Depois ela jogou a cabeça levemente para trás e prendeu os cabelos. Talvez nem tenha passado pela cabeça dela o quão aquela cena inusitada foi também sensual. Depois ela finalmente espetou o canudinho e tomou tudo de uma só vez e sem nenhum pudor jogou a caixinha vazia ali mesmo no chão, quase aos pés de quem passava.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009 0 goles

UM DIA ENTRE O CÉU E UM QUASE MAR

Eram 4 horas da manhã. A tralha já estava na D20 desde o dia anterior. Nós três saímos estrada afora com a típica esperança que todo pescador carrega na alma. Pela metade do caminho tudo ao redor foi tomado por uma névoa tão densa que parecíamos um peixinho percorrendo um copo de leite. Um pouco mais e chegamos ao Rio Grande. Em uma margem, no lado mineiro de onde tínhamos vindo, a cidade de Planura. Na margem Paulista a cidade de Colômbia. Ao pé da ponte que separa os dois estados e as duas cidades fica o rancho onde pegamos a canoa que já estava reservada fazia quase uma semana. Navegamos por cerca de meia hora até o "ponto" de pesca e no decorrer desse tempo tivemos o privilégio de ver o sol nascer por detrás das brumas que aos poucos foram desaparecendo.

Aportamos, iscamos os anzóis e começamos a pescar. Logo vieram os primeiros peixes. Por volta das 9 da manhã começou um vento forte que balançava o barco de um lado para o outro. A essa altura cada um já havia tomado uma lata de cerveja super gelada. Foi aí que começaram os problemas.

Como cresci indo pescar com meu pai ganhei gosto pela arte. Uma vontade que tinha era a de um dia ir pescar no mar. Imagine qual foi a decepção comigo mesmo ao me confrontar com o pior enjoo que já tive na vida por conta de uma marolinha daquelas. Verdade seja dita, meu estômago nunca foi dos melhores. Na minha infância nunca houve viagem com mais de 300 Km em que que não precisasse de um saco de vomito e veja bem isso, viagem de carro! Imagine se fosse de avião!

Implorei pro meu para me deixarem na margem, pois eu não aguentava mais. Nem água parava no meu estômago. Mas, como tínhamos encontrado um cardume eles não ligaram muito para mim. Cheguei a me deitar no assoalho do barco com o sol queimando meu rosto. Fiquei pior.

Foi quando por volta do meio dia uma tempestade veio se aproximando. O céu foi se pintando de chumbo e vermelho. Isso mesmo, vermelho. Uma tempestade de terra. Provavelmente ia chover barro logo logo, mas os dois estavam tão absortos que mais uma vez não me escutaram. Meu pai, até percebeu a tempestade e avisou o nosso amigo, mas ele (que era o dono do motor e estava no comando) fez que não ouviu. Somente quando os pingos da chuva começaram a cair e o manto vermelho tinha coberto a cidade de Colômbia foi que saímos de lá sendo perseguidos pela tempestade. Era incrível, mas o vento era tão forte que levantava um chuvisco que viajava um pouco acima da água e que nos molhava quando nos alcançava. Era como uma chuva que ao invés de cair corria na horizontal. Outras massas desse chuvisco rasteiro passavam por nós como vultos espantados correndo na direção da margem. Olhei para trás e acreditem, que pena eu não estar com a minha máquina, pois aquela foi a paisagem mais linda que eu já vi: o céu pintado de um salmão bem avermelhado, a água de um verde azulado tão intenso com ondas se quebrando num branco tão branco e a margem de um verde tão verde. As cores estavam tão intensas que pareciam mesmo ter sido pintadas.

Tivemos a infelicidade de não encontrar um lugar com praia e o jeito foi parar num barranco. As ondas que se quebravam na margem estavam muito grandes e começaram a jogar água dentro da canoa. A margem nesse local era em dois degraus sendo um deles na altura do nível da água. Não tínhamos outra opção a não ser colocar a canoa em terra firme ou então perderíamos tudo junto com ela. Procurei uma árvore, pedra ou qualquer coisa para amarrá-la, mas não havia nada além de grama. Decidimos trabalhar em equipe. Eu levantava o bico da canoa o mais alto que conseguia e os dois empurravam ela para a terra. A chuva caía direto no meu rosto como pedras de gelo. Tinha horas que eu pensava em desistir. A canoa na posição que estava ia se enchendo de água ainda mais rápido. Nossas coisas começaram a boiar dentro dela. Fiquei segurando-a enquanto os dois tiravam nossas coisas de dentro. Vez por outra uma onda mais forte a puxava de volta para o leito. Meus pés escorregavam e eu era levado junto. Por fim os dois tiraram o motor e o tanque de gasolina. Meu pai esvaziou a caixa térmica e tirou um pouco de água do barco. Parece até piada, mas ele tirava uma caixa e vinha uma onda e jogava duas. Foram, acho, umas duas horas de luta contra a natureza até tirarmos a canoa do rio. Meu enjôo foi embora e eu nem percebi. Almoçamos debaixo de chuva. Os celulares estavam fora de área. Lá pelas 4 da tarde foi que o vento parou e a chuva virou uma garoa bem fina. Colocamos a canoa de volta na água e os 30 minutos que havíamos gasto para chegar lá de manhã se transformaram em 2 horas remando, pois como o motor chegou a ficar debaixo dágua ele não quis mais pegar.

E eu ali, achando que já estava exausto...



 
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