quinta-feira, 23 de dezembro de 2010 3 goles

DAS CONVENÇÕES

Era uma senhora muito gorda e de pele morena e ar maternal. A caminhar vagarosamente arrastando seus chinelos. O andar desajeitado. Balançava levemente a cabeça. Atravessou o refeitório em seu silêncio habitual e enquanto passava as pessoas cochichavam umas com as outras. Riam baixo. Escondiam a voz, mas não os olhares. Uma das cozinheiras então disse para ela colocar a blusa para fora da calça, que estava muito feio. Ela respondeu que estava tudo bem. A cozinheira insistiu 'gente gordinha como nós não se veste assim, fica muito feio, parece que sua barriga tem o dobro do tamanho'. A senhora ensaiou um sorriso e prosseguiu seu caminho lento dizendo que se sentia bem daquele jeito, que não mudaria nada.

Incompreensível para ela ter de agradar aos outros em algo que ela desconhece totalmente. A calça para dentro ou para fora não mudaria em nada sua condição. Continuaria sendo a mesma pessoa que ela sempre foi. A senhora muito gorda de pele morena e ar maternal que caminha devagar arrastando os chinelos e que foi abandonada pela família desde bebê naquela instituição por ser totalmente cega.  
terça-feira, 23 de novembro de 2010 4 goles

NUM BOTECO SUJO

O suor fez seus pés deslizarem sobre os chinelos empoeirados. E agora grudentos. Sua carteira tinha ficado no banco do carro uns 10 Km dali. Sentou-se na sarjeta e contou as moedas no seu bolso. Descobriu um buraco. Sorte os cobres ainda estarem ali. Com o que tinha podia comprar uma garrafa de água ou refrigerante. O telefone celular fora de área o obrigara a pegar carona com um desconhecido até ali. Deu uma conferida, ainda sem sinal. Talvez fosse melhor perder o rumo de casa que perder-se de si mesmo ele pensou. Sempre tão certo. Tão cheio dessas certezas poderosas como cristais.  Dali ele pode ver um enorme cão malhado e de estranhos olhos claros. Um estranho vigilante sentado aos pés de uma porta enferrujada. Uma gota de suor desceu pelo seu rosto. Salgada. Levantou-se e foi na direção dele que o acompanhou com os olhos. Atravessou a porta.

Lugar apertado. Todas as mesas ocupadas. Cheiro de mofo e cerveja. Velhos de olhos amarelos como os de quem tem os rins doentes. Olhou rapidamente para o teto. Luz amarela e teias de aranha. Ninho de morcegos no forro. O senhor careca de bermuda e sandálias veio atender-lhe. Canelas brancas. Pés rachados. Pediu um refrigerante. Antes de abrir o freezer ele se serviu do tira gosto de uma mesa próxima do balcão. Reparou no vidro de salsichas em conserva. Há quanto tempo estariam ali?

Atrás do balcão havia uma porta que dava para o interior da casa. Móveis torneados. Antigos. Sofá coberto com uma capa feita de fuxicos coloridos. Uma televisão fora do ar. Uma mulher muito gorda e coberta de tatuagens dormia um sono agitado, talvez cheio de fantasmas. Os velhos olhavam o rapaz em silêncio. O homem careca abriu o frezzer, pegou primeiro uma cerveja para outro cliente e só depois o refrigerante. Pagou e saiu. O refrigerante estava quente e suas mãos ficaram com cheiro de cigarro só de tocar o balcão. Do lado de fora o guincho com o carro havia chegado e ele já podia sonhar em nunca mais voltar naquele lugar. Mas foi aí que as coisas começaram a mudar.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010 5 goles

DO QUE SE PERDEU

O rapaz caminhava pela cidade sob um sol escaldante e ser consumido pelo sol não é nada agradável.  Naquele tempo trabalhava fazendo pequenas cobranças para uma pequena, porém tradicional loja da cidade.  O dono da loja morria de medo de veículos de duas rodas. Por conta disso fazia as cobranças de ônibus, mas naquele dia resolveu ir caminhando para economizar o dinheiro.

A cliente da vez era uma pequena empresária, dona de outra loja só que de confecções e era casada com um deputado federal. Ainda assim era forte candidata a cliente mais enrolada do ano pela terceira ou quarta vez consecutiva. Como de costume mandou dizer que não estava. O rapaz ouviu a notícia como quem ouve uma mentira repetida prestes a virar verdade. O sol. Naquela tarde o sol parecia ainda mais quente que o de costume e ainda mais quente na volta que na ida. O rapaz resolveu se sentar no banco de uma praça debaixo da sombra refrescante de uma sibipiruna. Dali avistou uma guria que lhe pareceu simpática. Continuou ali sentado, observando o movimento com certo receio de que algum conhecido de seu patrão o visse ali todo tranqüilo em pleno horário de trabalho. Ficou a olhar alguns pombos que brigavam para comer uma casquinha de sorvete bem aos seus pés. Levantou as vistas e percebeu que a moça então mirou os olhos nele. Ela o observou por um tempo ensaiando um sorriso. Depois veio caminhando discretamente, ou melhor, timidamente em sua direção. Ela então parou na frente dele e disse:

- Oi... -hesitou um instante e por fim perguntou - Guilherme?

O rapaz ficou todo espantado. Como aquela desconhecida sabia o seu nome? Quem ela era? Tentou vasculhar as gavetas empoeiradas da memória, mas não havia tempo. Levantou-se e respondeu meio desconfiado:

- Sim, sou eu.
- Eu sou a Fernanda.

 A guria o abraçou num cumprimento cheio de afeto.

- Tudo bem com você?
- Tudo, mas... Fernanda de onde?

Ela ficou meio como alguém que acredita estar caindo numa brincadeirinha a toa e deu um risinho todo inocente.

- Sou a Fernanda! Do msn!

Ele permaneceu em silêncio apenas olhando para ela, talvez tentando encontrar a peça que faltava naquele quebra-cabeça. Aquele silêncio era capaz de deixar até uma estátua de bronze sem graça.

- Você não é o Guilherme do Santa Marta?
- Não, eu moro no Jardim Europa.

Ela ficou tão vermelha que parecia que ia morrer ali mesmo.

- Olha me desculpa, mas acho que houve um mal entendido.

A moça respirou fundo. Deve ter contado até 10 e nesse intervalo ido ao inferno e voltado.

- Tudo bem. Eu é que te peço desculpas. É que marquei com uma pessoa... - e antes de terminar a frase ela já foi se afastando e indo embora.
- Espera! - ele pediu, mas de nada adiantou. Ela se foi para nunca mais. 


* Extraído de um tempo em que a internet era discada, cara e rara. Não se baixavam músicas tão pouco vídeos. Não existiam tantas redes sociais nem tantos blogs e o mais importante: não havia foto no perfil do msn. Mas por outro lado a internet tinha certo romantismo que já não existe e nem voltará a existir.
domingo, 24 de outubro de 2010 7 goles

O GURI DO SHOPPING CENTER

O jovem casal caminhava pelo corredor que dava para o hiper mercado anexo ao shopping. As mãos dadas. Sorvete italiano. Aquela sensação de vida plena que o início dos relacionamentos carregam por natureza. Quando as incertezas cobrem-se de belas rendas e coloridas flores. Num sono polifásico, mas talvez a certeza enlouqueça mais do que as dúvidas.

De longe a moça avistou uma criança. Um menino de uns 3 anos chorava andando de um lado para o outro. As pessoas, apressadas e cegas por opção, passavam por ele como se ele não existisse. Ela não teve dúvidas: o guri só podia estar perdido. Puxou o namorado pela mão até chegarem perto da criança. Abaixou-se e começou a conversar com o menino tentando acalmá-lo. Perguntou sobre os pais dele e qual era o seu nome. Miguel ele disse entre soluços. Ela o pegou no colo e os três foram para o interior do supermercado. Procuraram o gerente que mandou anunciar pelo auto-falante. Num instante apareceu o aflito pai  do guri que com um sorriso de plena satisfação e alívio agradeceu o casal. Disse muitas coisas que o nervosismo tornou incompreensível, a não ser a explicação de que se distraíra por um segundo e o menino desaparecera. Então agradeceu mais uma vez apertando as mãos do casal desejando-lhes toda a felicidade do mundo. Depois se foi com o filho nos braços dando-lhe beijos e abraços.

O rapaz olhou para a namorada que sorria satisfeita ao ver pai e filho se distanciarem e desaparecerem em meio a multidão. Naquela hora o rapaz sentiu vergonha, porque ele assim como toda aquela gente que por ali passava, não teria tido a mesma iniciativa, mas também orgulho da namorada e teve certeza de que tinha encontrado a pessoa certa. Pelo menos por enquanto.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010 3 goles

MAIS UMA NOITE

Mais uma noite que avança. A vontade era de ter ficado em casa mofando, mas os amigos insistiram. Eles sempre insistem. Nessas horas surgiam na sua cabeça idéias que fugiam ao seu controle. Duas forças contrárias, como uma faca separando sua cabeça em duas partes. De um lado elas apareciam como um grilo falante que tentasse de alguma forma convencê-lo de que os amigos pudessem estar certos. Como não passasse de um personagem em sua cabeça logo o grilo era uma arma de auto-convencimento burro, suicida e covarde. Pensamento corrente era lembrar-se de que há quem diga que os amigos de verdade são aqueles que nos dizem o que precisamos ouvir e não aquilo que queremos. Porém, antes de se convencer desta grande verdade o outro lado bradava em alto e bom som que por mais amigo que alguém pudesse ser como poderia ter certeza do que ele precisava ouvir? Gente desta laia, assim como os grandes adivinhos, deveria ser rica e feliz. E quando dava por si já era tarde demais. Voltar agora era impossível. Reprovava-se balançando a cabeça levemente. Uma vez fora de casa seus passos já não eram seus. Eram da noite.

Conversas forçadamente animadas. A bebida matando os loucos neurônios. Farão mesmo alguma diferença? Não naquela noite e isso lhe bastava. Um pedaço de carne salgado e gorduroso desce mansamente. Saboroso. De aroma inconfundível. Carne vermelha, salgada e gordurosa... Ele poderia escrever um ensaio sobre isso ali mesmo caso não tivesse esquecido sua caneta. A caneta. Nada mais sobrara do nerd metido a intelectual. Escritor promissor. Agora um adulto seríssimo (e triste) perdido entre pilhas e pilhas de folhas com vida própria e que se movem sobre sua mesa como dunas de areia no deserto. Esquece a caneta e conforma-se com o fato de que os guardanapos seriam insuficientes para compor o volume necessário. Uma única certeza: um filósofo de boteco que se preze teoriza em guardanapos. Depois vieram os passos desajeitados na pista de dança. Um amigo oferecendo um maldito cigarro. Não basta dizer não. É preciso tomá-lo de sua mão e atirá-lo no lixo. Em sua rota de fuga dá de cara com ela: a guria que por tanto tempo ocupou seus sonhos. Um homem pode se esquecer de tudo, do que foi e do que não foi só não pode se esquecer dos seus amores, ainda que não correspondidos. Ainda assim reflete que na verdade ela seria o único motivo cabível para que ele estivesse ali. Firma as vistas. Ela está tendo aulas de pole dance? Admite torcendo o nariz: ela até que tem algum talento. Antes que pudesse engolir seu puritanismo ele tropeça numas garrafas e vai ao chão.

Acorda com a cabeça apoiada sobre as coxas dela e tendo os cabelos afagados carinhosamente. Um sorriso se abre e a noite acaba sem deixar de ser eterna.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010 1 goles

IGUALDADE AOS DESIGUAIS E SEM IMPOSIÇÕES, POR FAVOR

Já tinha até feito uma promessa para mim mesmo de não tocar nesse assunto por aqui, mas tudo bem. Algumas promessas devem ser mantidas enquanto outras nascem para serem quebradas. É que já vi e li e conversei tanto sobre isso que parece tudo saturado, porém parecer não é o mesmo que ser não é mesmo? E afinal, quando é mesmo que um assunto se esgota? Onde está o ponto final das coisas? Entre tagarelas e filósofos emudecidos como eu haverá algum consenso? O fim. De tudo talvez na morte, mas há sim muitas dúvidas quanto a isso e de certa forma são dúvidas belíssimas e aprazíveis. Talvez não para todos, mas são. Eis o ponto: não para todos.

Nesses tempos de política o desejo de se impor tomou proporções assustadoras. E ninguém parece, a meu ver, se preocupar em ter um julgamento mais profundo das coisas. A mídia nivela tudo por baixo e a gente julga as informações com mais superficialidade ainda. É preciso estar atento, pois a informação está cada vez mais veloz, porém cada vez menos real e o mundo não nos dá mais tempo para nada. Mas o pior de tudo é que ainda assim tentamos impor ao outro a nossa opinião. Normalmente é assim: é preto ou branco, macho ou fêmea, luz ou escuridão, doce ou salgado, alto ou baixo, rock ou pagode, bem ou mal. Olho pela janela em busca do caminho do meio e só o que vejo são bipolaridades comuns a uma sociedade maniqueísta, mas em pleno século XXI? Sim senhor(a)! E a política apenas torna isso mais sensível, visível aos olhos, palpável mesmo. Esse estranho desejo está em tudo. Quem nunca impôs ou cedeu num relacionamento ou nunca viu uma queda de braços de um vegetariano contra a sociedade consumidora de carne? E dá-lhe discussões sobre o casamento gay, aborto etc, etc. A sucessão presidencial tornou-se um verdadeiro concílio. Ora, o estado tem a obrigação de dar cidadania a quem quer que seja e quanto ao que é pessoal que continue pessoal. Não se pode colocar aquilo que é ruim para todos no mesmo patamar do que é uma decisão pessoal que em suma não afeta ninguém, mesmo porque são coisas que sempre existiram e vão continuar existindo, quer queira quer não.

Percebo que a vontade de impor parte de ambos os lados, tanto da maioria quanto da minoria. Não quero falar do que é certo ou é errado, quero falar do seguinte: porque respeitar nunca é bastante? Porque na cabeça das pessoas o mundo perfeito é aquele onde todos gostam e amam as mesmas coisas?

Auto-sabotagem: e cá estou eu querendo impor às pessoas que elas abram suas mentes!
quarta-feira, 22 de setembro de 2010 9 goles

DESSA VEZ O MUNDO

Então ele não resistiu e olhou mais uma vez pela janela do ônibus. Ela não estava lá. Melhor que fosse assim. Uma lembrança amarga a menos. Lembrou-se do fatídico dia em que acordou e se olhou no espelho todo espantado ao perceber que já não sabia mais quem era. Saíra para um breve passeio fora de si e quando percebeu os anos o haviam aprisionado a uma vida absurdamente perfeita e artificial. Quase como estar morto sem ter morrido. O que pode deixar um homem mais cansado e desesperançado que a sensação extrema de paz e tranqüilidade?

Sempre apegado aos pequenos detalhes, reparou nas pessoas lá fora, será que elas realmente sabem para onde estão indo? Sentiu-se melhor por acreditar não ser o único a estar perdido, saindo de lugar nenhum para chegar não se sabe onde. Fechou a cortina. Colocou os fones no ouvido e deitou o banco ao máximo.

Novos sonhos eram necessários, sempre são. Ou os sonhos te acompanham e crescem junto com você ou tem de ser trocados de vez em quando. Depois afastou o que era seu e também o que só parecia, pois já não lhe interessavam. Restaram apenas seus sentidos e uma liberdade deliciosamente perturbadora. Não haveria outro caminho? Ser devorado por um sonho é terrível pensou ele desejando nunca mais passar por tal coisa. Esse era o caminho.

Refez seus planos mentalmente, na verdade era tudo bem simples: dessa vez o plano sou eu. O jovem que sonhava em mudar o mundo estava de volta.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010 6 goles

E VOCÊ O QUE QUER GUARDAR PARA O AMANHÃ?

Toda a aventura humana, ainda que a contra gosto da grande maioria, não passa de um breve parêntese no grande ciclo das coisas. Este seria um bom motivo para se fazer o que realmente importa.  O bem de verdade é bem para todo mundo. Mas, a gente se apega facilmente ao que nos parece um bom caminho para a eternidade. Nos agarramos com todas as forças porque temos uma única certeza que é a de saber o que nunca saberemos. Então, preenchemos o vazio que nos atormenta. E pode ser uma religião, algum movimento humanitário, alguma a arte, um vício, a ciência, a filosofia, o prazer, o amor, o crime, a boemia, a luta pelas baleias ou até pelas baratas. Algo que nos faça pensar que somos mais e nos leve para a redenção, que seja aqui e agora, que seja num futuro que não se sabe ao certo como e quando vai ser. Quase sempre enclausurados  e amordaçados em  verdadeiras masmorras, porém basta uma pintura aqui, um vaso de flores acolá e pronto, está feita a tal zona de conforto. Eis o nosso quinhão.

Queremos que sorrisos, beijos ardentes, manhãs de sol, tardes com chuva, barras de chocolate e garrafas de vinho sejam para sempre. Assim como o reflexo jovem diante do espelho, o fôlego, joelhos e memórias. Queremos que a cor não esmaeça, que o cheiro não saia nunca daquela roupa esquecida e que os arranhões nas costas ou a pele sob nossas unhas permaneçam como prova perpétua de entrega ou conquista.

Eis que o nosso herói disse sim quando na verdade devia ter dito não. Mas, como saber a resposta certa sem ter tentado ao menos? Disse sim, ainda que o horizonte fosse nebuloso e controverso. Fato era que havia uma pequena fagulha, uma centelha, uma fração tão pequena e ao mesmo tempo tão rara de felicidade que ele quis perpetuá-la, ainda que envolta num emaranhado de torturas diárias. Ainda que perdida num oceano de tempestades no interior de sua alma. Ah, sua alma. Ela que só poderia suportar enquanto estivesse ébria pela paixão.

Dizem que aquilo que não é eterno é eternamente inútil. Sorte nossa que entre o ponto de vista do Criador e o nosso há um abismo intransponível.
terça-feira, 24 de agosto de 2010 6 goles

QUANDO TODOS OS AMIGOS VÃO EMBORA

Lá fora o ar seco e frio regela o espírito. Recolheu as garrafas vazias. Despediu-se dos amigos mais uma vez e desabou no sofá. E num instante o silêncio avassalador inunda o mundo. Seus olhos fixos no led vermelho da tevê desligada. Fixos no nada. Levantou-se aos trancos e barrancos e foi até o banheiro. Sequer se despiu. Na madrugada fria a água quente caindo sobre seu corpo cansado.  Na cabeça um pensamento constante. Já tinha pensando e sentido isso outras vezes. O sonho de tão distante causava-lhe medo e revolta contra o próprio coração. Sabia que mesmo quando parecia que o sonho havia adormecido ele era na verdade algo perene e isso o angustiava ainda mais. Depois de quase 30 minutos abriu os olhos. Fez um movimento circular com as mãos limpando o vapor no espelho do banheiro. Vontade de gritar para o mundo todo ouvir, mas não. Olhou-se longamente. Já foi o tempo de ter medo de entender que as coisas são como elas são. Então, é melhor que ela não saiba nunca. Ela que já é sua para sempre. Mesmo que  nunca vá saber como é o seu sorriso ao acordar toda despenteada, ou como é ouvir seu coração com o ouvido colado ao seu peito ou ouvir sua respiração ofegante bem de perto. Mesmo que nunca vá sentir qual o sabor de sua pele suada ou como seria fazer planos por longas horas preguiçosas das manhãs de domingo enquanto comem o que sobrou de uma pizza de chocolate.

Verdade que o amor verdadeiro só acontece uma vez na vida? Bom que tenha acontecido, mesmo que seja impossível?

Melhor dormir para que o tempo voe, pois amanhã os amigos voltam com o bálsamo de suas risadas e  preencherão novamente esse vazio.
terça-feira, 17 de agosto de 2010 0 goles

O BECO

Passavam das 2 da manhã quando enfim, o motorista do táxi encontrou o beco e estacionou frente à casa de Bogodã. Barulhenta. A casa estava muito barulhenta. Burburinho, música brega, bombinhas, gritos de mulher bêbada e de jogos de carteado. A fumaça da gordura que jorra sobre as brasas ora irritava as narinas, ora provocava desejos de engorda. O portão de grade todo enferrujado estava trancado a cadeado. Tocaram a campainha mais de 10 vezes. Bateram palmas e soltaram gritos violentos. Dois guris de uns 7 ou 8 anos passaram correndo perseguindo um gato listrado e pisotearam as flores que a mãe de Bogodã havia plantado no jardim. Ele gritou com eles zangado espalhando palavrões e saliva aos quatro ventos. Os guris olharam para eles muito espantados, gritaram e saíram correndo desesperados para dentro da casa batendo a porta de um jeito que sempre irritava o pai de Bogodã. Após uma pausa silenciosa pediram para o taxista aguardar um momento.

- Vamos pular o muro - cochichou Bogodã tentando se acalmar.

- Da sua própria casa? - perguntou Dom Jegon acendendo um cigarro.

- Se não quiser fique aí, tenho que saber o que está acontecendo.

- Claro que nós vamos com você - disse Marvin tomando o cigarro de Dom Jegon e apagando-o no chão com o pé.

Ágeis como ladrões saltaram o muro sem chamar a atenção. Foram até a porta da frente onde os guris haviam entrado. A porta estava trancada. Pela janela viram várias pessoas dentro da casa. Bogodã não reconheceu nenhuma delas. Bateram nas janelas e gritaram novamente, mas ninguém percebeu.

- Marvin o que você acha?

- Tão estranho pra mim quanto deve estar sendo pra você. Não será uma festa surpresa que seus pais planejaram pra você?

- E por qual razão eles não chamariam meus amigos e primos?

- Vamos logo até os fundos e descobrir quem são essas pessoas - disse Dom Jegon acendendo mais um cigarro.

Atravessaram o longo corredor que levava até os fundos da casa. O caminho estava repleto de pratos e copos descartáveis, espetinhos de madeira, garrafas e guimbas de cigarro. Uma parte do corredor havia sido usada como mictório. Por mais festeira que fosse a mãe de Bogodã ela jamais permitiria tamanha bagunça. Quando alcançaram à varanda nos fundos da casa o povo todo se calou e ficou olhando para eles com certo espanto.

- Quem são vocês? - perguntou Bogodã.

- Que pergunta é essa seu moleque. Eu é que pergunto o que vocês tão fazendo aqui? - retrucou o churrasqueiro que se portava como o dono da festa.

- Como assim? - disse o baixinho. - Acontece que por acaso eu moro aqui!

- Então, você invade a minha casa - disse o churrasqueiro apontando uma faca para eles - e tem a petulância de dizer que essa casa não é minha seu maconheiro!

- Mas eu moro aqui!

- Essa casa é minha. Acho melhor vocês saírem antes que eu chame a polícia ou perca a cabeça.

Bogodã ajoelhou-se no chão e repetia: moro aqui, eu moro aqui! Com lágrimas nos olhos cheios de fuligem. Marvin ficou parado ao seu lado sem reação enquanto Dom Jegon, já com um copo de cerveja na mão puxava conversa animadamente com uma guria.

- Quer que eu prove? Eu provo!

E meteu-se o churrasqueiro dentro da casa. Bogodã quis ir atrás dele, porém Marvin o impediu. Pouco depois o homem voltou com a escritura do imóvel e até contas em seu nome. Entregou-as para Marvin que silenciosamente leu os documentos que datavam de mais de 10 anos. Depois se ajoelhou ao lado do amigo. Explicou que o homem possuía documentos que provavam que a casa não podia ser dos seus pais. Nisso o homem pediu mais uma vez para que fossem embora. Marvin ajudou Bogodã a se levantar, pediu desculpas ao dono da casa e os dois se retiraram atônitos. Ao chegar ao jardim Marvin voltou para a varanda e trouxe Dom Jegon puxado pelo braço enquanto ele gritava para a guria com quem já trocava beijos "ainda ficaremos juntos" "nunca vou te esquecer" e ainda "eu te amo com todas as minhas forças!".

Do lado de fora o táxi já tinha ido embora.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010 13 goles

DEPOIS DA CERCA

Não precisava nem fechar os olhos para lembrar, mas quando eles estavam fechados conseguia sentir até o cheiro daquelas manhãs, a suave saturação da paisagem transbordando nos olhos inebriados de sonhos e o doce sabor das siriguelas na boca.

A primeira vez em que esteve lá ainda gozava do aconchego da barriga de sua mãe, que num descuido seguido de um ótimo reflexo e tantas outras coisas sem explicação quase interrompeu a jornada dos dois na Terra ao cair da escada que ficava na porta da cozinha, grávida de 8 para 9 meses. Mas as estórias daquele lugar eram muito mais antigas do que isso. Se te perguntarem qual a primeira gravura que você já viu, o que lhe vem a mente? Para ele sempre aparecia em sua cabecinha a figura de um grande peixe riscado de giz atrás da porta. Desenho feito como o das crianças que começam a esquecer as garatujas e começam a traçar o contorno das mãos. Aquele dourado era tão grande que ele ficava imaginando o coitado que ficou lá segurando o bicho enquanto o outro fazia o heróico desenho.

A casa antiga com um pequeno jardim. Tramelas pra fechar as portas. As janelas de madeira. Água no pote. Couro de jacaré secando na cerca. Hambúrguer de capivara assando na brasa. Depois do jantar os homens saiam para armar suas redes. De longe ele que era ainda muito pequeno para acompanhá-los observava a canoa desaparecer no leito do rio. As mulheres ficavam em casa com as crianças. Pinga com rapadura e doce de leite. Os pescadores voltavam pouco depois. Grandes risadas. Depois jogos de carteado, piadas, estórias de assombração e mentiras de pescador. Antes de o sol sair já iam eles novamente recolher os peixes antes que garças, biguás, jacarés e lontras fizessem festa. Dourados, mandis, tucunarés, traíras, curimbas... Tia Tereza levantava-se, como se diz, junto com os passarinhos. Preparava chá de canela, biscoitos de polvilho, pão de queijo, leite tirado na hora... Depois corria até o paiol e voltava debulhando algumas espigas de milho e num instante um mar de frangos e patos no quintal. No almoço, carne de porco, peixe frito com limão, jacaré a milanesa, pamonha de sobremesa. Na época das goiabas o chão todo lambuzado de vermelho e do tacho vinha o cheiro da goiabada dando água na boca.

Quando os primos se juntavam era uma farra. A molecada toda na carroça indo roubar melancia no vizinho que acabara de os presentear com um queijo mineiro delicioso. Passar perto do ninho dos quero-queros só pra sentir o ar do vôo rasante dos pássaros que só não eram mais raivosos que uma nelore com cria que corria atrás dos carros ou das caixas de marimbondo que caiam sob suas pedradas. Os guris esperando o sabão ficar pronto para lavar as mãos com a rapa do tacho na beira do rio. Comer amora, laranja, abacate, manga e mel. Depois pegavam umas frutinhas que pareciam balões só pra ficar estourando. Lá eles aprenderam a nadar, a soltar pipas, a pescar e fazer guerras na lama. Aprenderam a não ter medo do escuro, a tirar bicho-do-pé, andar no cavalo Biriba, a diferenciar os passarinhos só pelo gorjeio e tirar carrapichos do cabelo antes que as mães vissem.

Até que chegou o dia em que a tia teve de partir para a cidade. Hoje, quando ele fecha os olhos para rever tudo isso, não consegue deixar de ver também aquele menino calado diante da porteira que se fechava pela última vez encerrando todos os finais de semana felizes que vivera ali. Ele entra no carro, todos os primos calados. Uma última olhada para trás para jamais se esquecer do nome daquele lugar: "Fazenda Paraíso".


Com colaboração da minha irmãzinha Priscila, parceira de tantas e tantas traquinagens...
terça-feira, 20 de julho de 2010 15 goles

SÓ UM SORVETE

Você se senta num banco qualquer do corredor do shopping. As pessoas passam por você. Parecem todas saber para onde vão. E você ali. O cabelo penteado com as mãos, sua calça xadrez, All star sujo e a barba por fazer. Um largado na vida. Seu bem mais precioso está entre suas orelhas, mas o mundo só quer saber do que você tem nos bolsos. Apesar de trágico você olha em volta. Tudo te parece tão normal.

E você cansado de saber que a vida é feita de encontros e desencontros. Você que espalha aos 4 ventos a filosofia de que coincidências não passam de fatos necessários e que a mística dos acontecimentos está no simples fato de sermos ignorantes diante do grande emaranhado de coisas. Você que diz não se assustar com nada que acontece no mundo. De repente se vê lépido quando enfim a matemática incalculável da natureza lhe pega de assalto. No fim, sempre há alguma mística em nossos corações, ainda que tímida e disfarçada. Justamente nessa hora você avista lá ao longe uma figura conhecida vindo em sua direção. Ela se aproxima e não é que é alguém que você desejava encontrar? Então, você que não se considera um cara lá muito romântico, por obra do desconhecido reencontra pela segunda vez em menos de uma semana aquela guria linda que você não via fazia anos. Nota que às vezes se vê e se fala mais com quem está distante do que quem está perto, mas não tem como completar o pensamento. Você logo nota nela um semblante mais descontraído que da última vez. Será porque agora ela está sozinha? Vestido lilás com motivos florais. Dessa vez o que ela tem nos pés você nem viu, pois o decote não deixou. Você se levanta para cumprimentá-la e ela lhe dá aquele abraço. É impressão sua ou ela colocou um perfume afrodisíaco?

- Nossa! Quanto tempo! Como você está?
- Comigo tudo bem e com você?
- Estou bem também. Me desculpa não ter falado com você aquele dia.
- Ah que isso, não tem problema não.
- Ah... Você não quer tomar um sorvete comigo?

Como assim? Não há tempo para se calcular o perigo, aliás, a vida é o que está por um triz. Vocês se sentam. Pedem sorvetes enormes. E você tem uma das conversas mais agradáveis que  já teve nos últimos tempos e rir junto te  faz tão bem. Um pensamento: porque vocês não se conheceram antes, ou melhor, porque não conversaram antes? Porque razão aquelas carteiras no colégio serviram de trincheira separando vocês dois? Dessa vez você tinha razão: ela é um anjo. Na hora mais animada da conversa o celular dela toca. É impressão sua ou ela fica um tanto inquieta. Ela olha para trás. Você espia mineiramente. Nisso ela já vai se levantando.

- Me desculpa, mas eu já tenho que ir.
- Tudo bem - você responde meio desapontado.

Ela lhe entrega um cartão de visitas. Pede para você ligar em horário comercial.

- Foi muito, muito bom te encontrar Bruno - e vai indo embora.

Você olha bem para o cartão que tem o mesmo perfume perturbador e o joga na primeira lata de lixo que encontra. Você a vê se afastar e só consegue pensar em uma coisa: meu nome não é Bruno caramba!

Ao longe ela se encontra com um japinha pançudo que ao que tudo indica está prestes a fazer um sashimi.

segunda-feira, 12 de julho de 2010 6 goles

HORA DE PARTIR

Foi no ano 1988. Lembra-se do ano, mas não se lembra do mês. Já era bem tarde e estavam à luz de velas. Os móveis ainda fora dos seus lugares. O quintal todo de terra. A rua sem asfalto. Canto de coruja. Quase todos os terrenos ao redor serviam de pasto, pois não havia muitas casas e um vizinho que tinha uma chácara aproveitava para soltar as suas vaquinhas. Correr na chuva, soltar pipa, chutar bola... Mas, hoje se olha pela janela já não se vê o horizonte. Ali cresceu, fez amigos e viveu seus primeiros amores. E os anos se passaram. Depressa demais.

E quando menos se espera já é tempo de partir. Seja para onde for. Tempo de viver tudo quanto se pode viver. Até mesmo sem saber se viveria sua própria loucura ou a loucura dos outros.

Pouco antes de cruzar a porta e deixar para trás todo o seu passado, alguém chega e lhe diz para não se preocupar. Promete aos prantos que quando ele voltasse, as horas passariam do mesmo jeito, as pessoas estariam iguais e as estrelas ocupando o mesmo lugar no céu. Ele sorriu. No seu íntimo tinha certeza de que quando voltasse ele é que estaria diferente.

domingo, 4 de julho de 2010 9 goles

NA CHURRASCARIA, UM ANJO

Aquele amigo que você não vê há tempos te liga repentinamente. Primeiro você não acredita, depois já pensa no favor que ele com certeza pedirá. E não é que ele te convida para jantar e tudo por conta dele? Você tenta ao máximo disfarçar a decepção com a própria mesquinhez e se põe contente com o convite, sequer esconde o fato de não ter absolutamente nada pra fazer em plena noite de sábado ou de não ter ninguém para te acompanhar.


Ao chegar você fica um pouco mais aliviado ao perceber que ele chamou outros amigos e você não vai ter que ficar "de vela". Você entra e logo vê uma velha conhecida. Sabe aquela guria que sentava no outro lado da sala quando você estava no primeiro ano do ensino médio? Aquela mesma que nunca conversou com você? Sim, é ela. E finalmente você percebe o quanto ela é linda. A cabeleira em mechas alouradas, aquele rosto de expressões delicadamente lapidadas. Jeans, bata, adereços vermelhos, scarpin branco. Impossível não observá-la dos pés à cabeça. Cabe uma dica, jamais se esqueça dos pés na hora de se lembrar do que usavam no primeiro encontro. Mais que depressa você toma a iniciativa junto aos amigos e escolhe uma mesa que fique bem de frente à dela e senta-se de forma que fique livre para observá-la sem que o acompanhante dela te veja, uma vez que ele ficou de costas pra você. Não é que ela espera que ele olhe para o lado para enfim te cumprimentar, desabrochando o sorriso sincero de alguém que encontra um amigo numa ilha deserta?

E claro, o motivo do repentino encontro: seu amigo, aquele que se casou e exigiu que você fosse o padrinho, vai ser papai. Pelo tamanho e qualidade da festa vêm a sua mente aquelas fotos de família de imigrantes. Pelo menos uns 20 filhos. Não seria nada mal. Somando a isso o fato de ser aniversário do cara e você nem lembrava, assim como não se lembrava que ele e a esposa tentavam ter um filho já fazia 5 anos, mais uma vez se decepciona e se acha o maior cretino da mesa. Em meio a isso, seus olhos não desgrudam da sua velha conhecida bem ali, na sua frente. É impressão sua ou eles não trocam nenhuma palavra? Se estiverem num momento ruim porque não ficaram em casa? Afinal, todos ali estão contentes, conversam e dão risadas animadas. Ela olha para os lados, te ensaia um sorriso, mas não faz. Sorri apenas com os olhos e no seu íntimo sente que não precisa mais que aquilo. É como se os dois tivessem feito uma leitura um do outro e tivessem percebido a situação. Quase um pacto. E a cena toda até que combina com o DVD de flashback que está rolando.

Ela se põe a ler a "bula" de uma lata de refrigerante. Pela sua concentração ela não apenas decorou as informações nutricionais como deve saber também o número do lote e endereço da fábrica. E a velha mania de colocar poesia em tudo lhe consome: e não é que o esmalte laranja combina com a lata da mesma cor? Enquanto isso o marido, sim o marido, pois que nessa hora também percebe a aliança na mão que segura a lata. Bem, o marido, uma japinha pançudo, se empanturra de carne como se não houvesse amanhã. Como não há dialogo entre os dois e o tédio parece ter tomado conta ela apóia a cabeça na mão com um palito de dentes no canto da boca. Alguns talvez pudessem achar aquilo feio, mas você sente um imenso respeito. É como se eles estivessem ali apenas para "cumprir tabela". Nisso você toma um copo de chope de uma só vez ao imaginar o "apenas cumprir tabela" com uma mulher daquelas, como é que pode? E os dois ali, cada um olhando para seu próprio vazio. Então ela resolve dizer as únicas palavras que você vai ouvi-la pronunciar a noite toda. Ela pede ao marido que feche a conta.

Começa a tocar “'I Have A Dream" do ABBA.

“I believe in angels”, sim, você acredita em anjos e você poderia ser aquele que a resgataria e a traria de volta à vida. Ela o anjo que daria mais cor aos seus dias. E o marido o anjo que poderia levar os dois ao inferno. Ao passar por sua mesa mais uma vez ela ensaia um sorriso, mas não o faz e nem precisa. Você disfarça e muda o olhar de direção enquanto ela enfim se vai. Ambos num mudo adeus.
quarta-feira, 30 de junho de 2010 10 goles

UMA DESPEDIDA

Rebecca e Pietro. O amor de infância havia sido proibido desde sempre. Primeiro pelos pais. Depois pelo oceano. Se pensava nele lembrava-se de olheiras e garatujas. Se pensava nela lembrava-se de um sorriso furtivo e de morangos. Seguiram seus caminhos esquecendo-se mutuamente. Estudaram, viajaram e tiveram outros amores. Até que um dia já crescida, ela voltou.

Os primos encontraram-se num parque da cidade numa tarde de verão. Cores vibrantes com o sol que se abrira depois de uma chuva passageira. Ele ainda lembrava olheiras e as garatujas agora eram desenhos de prédios e condomínios. O sorriso dela já não era nada furtivo, mas o perfume de morango estava presente no brilho labial. Algumas coisas teimam em permanecer, em resistir ao tempo. Não eram mais os mesmos, mas se acharam melhores. Ele gostava do simples com a mesma devoção com a qual gostava do sofisticado. Ela tinha feito tatuagens e pintado o cabelo de vermelho. Ele a ensinou alguns acordes no violão. Ela o ensinou a dançar. Ele ainda morava com os pais e ela dividia o aluguel de uma casa com uma amiga. Dali eles passaram a se encontrar todos os dias e apesar de já serem adultos resolveram manter o namoro em segredo por mais algum tempo. O proibido os excitava demasiadamente. Seus encontros amorosos jamais terminavam antes do nascer do sol. Ver o nascente sentindo o calor e o perfume da pele um do outro se tornou um grande vício. Nessas horas faziam os planos mais bobos e eternos que dois apaixonados podem fazer.

Combinaram de passar um domingo inteiro juntos. Saíram de carro bem cedo, sem um rumo certo. Pararam numa pequena cidade vizinha. Ali compraram doces, vinhos, queijos e chocolates. Tiraram centenas de fotos. Depois almoçaram num restaurante de beira de estrada. Comida caseira, cheirosa e apimentada. Pegaram uma estrada de terra e foram parar numa cachoeira. Afastaram o calor nas águas cristalinas. Depois se amaram sob a sombra frondosa de uma figueira. Ele havia levado um narguilé.

- Podia ter um pouco de maconha... - disse ela depois de um trago
- Como é que é? - perguntou ele surpreso.
- Brincadeira seu bobo.
- Linda essa sua tatuagem na virilha, Você foi corajosa.
- Ah, eu tive meus tempos de loucura.
- Sei.
- E você não teve?
- Tive sim, claro, mas...
- Mas loucura não se mede – ela completou.

A tarde foi caindo e resolveram voltar. Ao chegar tomaram um café gelado: sorvete de creme, leite condensado, canela, granulado, chantili e conhaque. Depois foram para o barzinho onde costumavam se encontrar. Ali beberam e riram a noite toda. Combinaram que no dia seguinte abririam o jogo para suas famílias.

Os dois, exaustos e bêbados chegaram a casa dela. Ela havia dito que se despediria logo e o abraçou com ternura. Trocaram algumas palavras sem nexo. Um longo beijo, molhado e barulhento. Depois ela colocou a cabeça no colo dele e cochilou sem perceber. Passava da 01h30min da manhã. Nunca tinham voltado tão cedo nem ficado bêbados com tão pouco. A despedida que seria curta acabou sendo bem longa. Ele ficou brincando com os cabelos dela enquanto ouvia sua respiração. Os olhos pesados de sono. Porém, permaneceu acordado. Velando o sono dela. Tinha medo da violência da cidade e espiava os espelhos do carro a todo instante, mas também não queria acordá-la de um sono tão bom, bem ali, aconchegada em seu colo. Nunca a tinha visto tão frágil, tão entregue, tão sua. Então uma luz se acendeu na janela da sala que dava para a rua. Ela acordou rapidamente. Não devia ter dormido. Antes de descer do carro e fechar a porta eles se beijaram novamente, sem saber que seria pela última vez.

Ele quis perguntar qualquer coisa, mandar um abraço para a amiga dela que ele ainda não conhecia ou pelo menos dizer que a amava, mas não teve tempo ou reflexos pra isso. Com algum esforço ligou o carro e se foi.

Na manhã seguinte junto ao corpo de Rebbeca havia um bilhete escrito "Porca imunda" escrito em alemão. Pietro sempre pensou que ela voltara por sua causa. Jamais imaginou que ela apenas fugira de um ex-namorado.

Algumas coisas teimam em permanecer e outras em esvanecer.
quarta-feira, 23 de junho de 2010 11 goles

QUEM DERA FOSSEM SÓ LIVROS

Acho que já disse isso antes: "livro só se empresta aos melhores amigos, mas os melhores amigos nunca pedem livros emprestados". Então que emprestei livros que nunca voltaram e verdade seja dita, acabei fazendo o mesmo. Agora por exemplo dou uma olhada para a minha coleção. Exatos 37 livros. Biblioteca modesta, eu sei, mas são os meus tesouros. E qual o primeiro livro dessa coleção? "O alienista" de Machado de Assis e ele foi um livro que peguei emprestado, pois é. Nunca pensei em pegar um livro e nunca devolver, apenas aconteceu.

Um outro que gosto muito é "Parábolas" de Gibran, mas esse foi mais uma troca. Deixei "O alquimista" de Paulo Coelho, peguei “Parábolas” e a troca jamais foi desfeita. Bom, existe uma parábola no livro de Gibran que me lembrei hoje. Nela ele conta a história de um poeta que escreveu uns versos de amor, tirou algumas cópias e enviou para alguns amigos. Uma cópia, por alguma razão foi parar na casa de uma mocinha que se enamorou pelas belas palavras do rapaz, imaginando que ele as escrevera exclusivamente para ela. A moça o procurou afim de combinar as bodas e ele explicou que aquelas eram as palavras de um poeta. Palavras de qualquer homem para qualquer mulher. Ela prometeu odiar os poetas para todo o sempre.

Pensei nesse texto porque, assim como esse poeta, também já escrevi dessa forma e não foram poucas vezes. Discordo quando dizem que só escrevemos sobre o que sentimos, sobre o que vivemos ou o que gostaríamos de ter vivido. Acredito muito na capacidade de criação. As idéias dos personagens, por exemplo, não necessariamente expresssam as idéias do autor. Mas, confesso que depois do blog tenho escrito muito mais com o meu coração que com o coração dos "outros" e talvez por isso tenha escrito menos. Não que meu coração esteja vazio, mas bem pelo contrário.

O mago escreveu certa vez que existem coisas que sempre serão nossas justamente porque não podemos possuir. Está certo. Em outros casos, é que às vezes se possui mais as coisas que são dos outros que as coisas que são da gente e por via de regra, algumas pessoas possuem mais algo que é nosso do que nós mesmos. Mas, quem dera fossem só livros.

sexta-feira, 18 de junho de 2010 3 goles

O ÓBITO PROMETIDO

E naquele regato descansei
Como as folhas das figueiras
E meu pequeno colibri
Comigo nesta morte sorrateira
E também em tudo o que vivi

A correnteza sutil
Das termas águas de abril
Enlevam meu descanso
"Bucólico por si só"
Meu descanso nestas águas...

Pequeno ribeiro encarnado
"Eis nas tuas águas"
Morto e empalhado
E para sempre nesta veia
Hei de descansar

Galhos retorcidos de ingazeiras
Debruçam-se para te lamber
"Oh arroio! Minha casa!"
"Teu deleite é meu deleite"
"Água aos que tem sede!"

Veres-me sofrer poderá
Sentimentos e seu lençol agora um só
Livrei-me de tudo quando enfim me deitei
O teu leito me é protetor
"Não, eu não te maculei"

As coisas agora se confundem
Mas é isso, tudo é uma coisa só
E meu descanso também pode
Se misturar ao fio dàgua
Que diferença faz agora?

"Oh ribeiro, sepulcro protetor!"
Leva minhas idéias nas águas até o mar
Que não mais verei nem voltarei a amar
Brota na tua margem grande capinzal
"Paca, onça, anta! Sereia tão mortal!"

Colibri pequeno se desfaz na imensidão
O regato, o córrego, o arroio, o ribeirão.
"Estou morto nestas águas - enfim!"
Com as próprias mãos busquei meu fim
E o curso destas águas sem querer: meu funeral

Peço a Deus para que não me encontrem
Antes das águas encardidas das chuvas de verão
Lavarem-me as carnes
"Oh liberdade! Felicidade que a muito fui privado!"
"Paz! Oh paz, maldita seja!"

Agora submerso nessas águas...
Que água? Só há lama
Ribeirão infesto com meu sangue
Quis ferir-me,
Quis fechar-me os próprios olhos

Inda me lembro do remanso avermelhando-se
"Uma graça"
Lembrei-me de Moisés
"Serei contigo"
E tudo se esvai pelas mãos e pelas águas

Só tenho a ti agora
Frias águas que me protegem
"Não sei do quê, mas hei de descobrir"
E o pequeno colibri, leve pobrezinho
A correnteza levou

Nenhum anjo veio me buscar
Nenhum pareceu querer me proteger
"Mas, tanto faz isso agora já que finei"
Sozinho nas águas e sem sentir frio
Fiquei no corpo que não respirava, não mais se afogava.

Os olhos do corpo fechados para sempre
Os olhos da alma abertos como nunca
Eu olhava por horas inexistentes
Árvores crescidas donde era o capinzal
Com flores e ninhos nas pontas

"Oh, se os olhos do corpo estivessem abertos"
Já que parti desta vida, mas não parti desta terra
Inveja dos vivos, maldita inveja dos vivos
Mas os olhos do corpo estão trancados
E o corpo está perdido no leito do regato

O corpo agora se desfaz depressa
Nas águas que o acolhem
Impressão que ela o devora
Ribeirão raso, lama profunda.
"E não posso nem espantar uns poucos pirralhos!"

Não vejo vermes debaixo dágua
Mas vejo vivos, malditos vivos do lado de fora
Regato me deu lar?
"Deu-me miséria, me deu prisão!"
Donde vou?

Corvos, urubus, abutres lhes convoco
Deliciar-se-ão com meu defunto
Quem sabe assim me desapego
Quem sabe assim alguém me escuta
"Oh anjo, oh senhor, me ajuda!"

Não tenho frio nestas águas
Tão pouco sinto calor.... Calor humano...
Nem que fosse aos braços de uma meretriz
Ou de um cão, mesmo que raivoso fosse
Mas, que me ouvisse!

Oh mulheres
Oh tesouros
Feristes meus sonhos e meus corações
Solidão, solidão, solidão
Quis partir, foi melhor assim?

Queimei a minha vida
E a morte apaga mais que o ribeirão
Queria apenas contar boas estórias apenas
Depois me abraçar, me debulhar
Abrir-me, cuspir de volta todas as maldições

Quem me ouve?
Quem me vê?
Nem marolas do regato eu ouço mais
Somente vejo vivos e meu corpo que se desfaz
"Socorre-me anjo! Até Lúcifer me deixaste?"

Maldita seja moça tinhosa
Que se deitou com caboclo
Nas margens deste mesmo ribeirão
Fizeram-me com ternura
E sem abrigo jogaram-me numa rua

Mingüei, mingüei, cresci, vivi
"Não! Não vivi! Sofri!"
"Quis não mais viver e faleci!"
Resisti, insisti e no fim, com minha morte consenti
E mesmo depois de morto eu sofri e sofro

Devia ter paz, mas nada me deixa de bem
Nem com os mortos que não me visitam
Nem com os vivos que não me encontram
Tenho raiva e inveja até mesmo, veja só
"Dos lagartos vadios de barriga para o sol"

Desmereço a vida
Ora, pois que me esqueci de tudo
Absolutamente tudo o que ela poderia me oferecer
Estive tão perto da felicidade
"E não tive olhos para ver!"

Devera ter arrancado meus olhos
Sim, tê-los tirado antes de morrer
Desprezei quem me amava
Fui desprezado por quem amei
"Dai-me permissão grande maestro? Não, ele não dá"

Quando entrei em desgraça
Derramaram-me confiança, paz, ombros fartos
E me fecharam as portas, as mãos e o amor
Quando enfim tive sucesso
E de volta na desgraça: "continuam sumidos"

Só queria um pouco de atenção
No fundo só um pouco de atenção
Só queria alguém que olhasse para mim e me ouvisse
E estou sozinho até depois da morte
"Oh desgraçado que sou!"

Nem santo, nem anjo, espíritos de luz
Mas, tudo bem afinal
Tenho meu regato calado
Não sei se me ouve
Mesmo assim regurgito estes sofreres

Rumino meus sonhos secretos
Aqueles que jamais se fizeram concretos
Às vezes falo, ouso dizer
Esperando de volta umas poucas palavras
"Não precisavam nem ser amigas!"

Vez ou outra me lembro, sim
Lembro-me de alguém tentando me ajudar
Falando mais que ouvindo
Cuspindo saliva com seus melhores conselhos
E feliz fui ter com ele agradecimentos

Mas, somente foi assim desta vez
E voltei novamente infeliz a ser
Deu-me novamente seus conselhos
Nem pude falar muito
E tudo deu errado, muito errado

Meteu-se em minha vida com seus dizeres
"Deixa-me respirar! Permita-me me defender!"
Perdi meu caminho,
Perdi tudo e um pouco mais
"E sozinho de novo, não! Como sempre!"

Só precisava me desabar
"Desatar-me!"
Talvez não precisasse partir desta vida
Viagem inevitável antecipada
"A vida deixada pra trás e o sofrimento continua!"

E agora num mundo estranho
Não ouço nada, não sinto nada
Nada além da inveja dos vivos que deixei
Vejo pássaros, mas não ouço o gorjear
"Maldita seja morte"

Mas não queria ter morrido
Mesmo com tanta dor
Mesmo com tanta disputa e miséria
No fundo, só queria chamar a atenção
"Poderia ter sido você a me ajudar!"

Roubei e me droguei
Quis matar alguém
Disse que queria me matar
E foram tantas vezes! só pra chamar a atenção
Maldito regato onde cai

Maldito lugar que escolhi
Maldito lugar riozinho que me acolheu
Se não por isso teriam me parado
Se não por isso teriam me salvado, me escutado
"Esse era o verdadeiro alvo disso tudo e nem eu sabia!"

Talvez um dia eu os perdoe
Talvez um dia eu me perdoe
Perdoe o colibri que comigo não ficou
E quem sabe desta forma
Não me apareça o Senhor




Nota: Parabéns por chegar até aqui! Rsrsrsrs A exatos 10 anos atrás escrevi esse poema. Um amigo contou-me que havia tentado suicidar-se e procurando entender a cabeça dos suicidas frequantei durante um fim de semana um mini curso no CVV da minha cidade. Cheguei em casa e escrevi isso, assim de uma só vez, como um médium que psicografa uma carta urgente. Na época disseram para meus pais que deveriam me levar ao psicólogo, outros disseram que não devia ser  eu o autor.  Não deram bola nem para uns nem para outros, ainda bem.
quinta-feira, 10 de junho de 2010 9 goles

OS OLHOS DE QUEM LÊ

Chegou em casa todo trêmulo. Tomou um longo banho quente. Lembrou-se do quanto dizem que o banho é um momento bom. Hora de relaxar. Um dos poucos redutos da privacidade num mundo cada vez mais vigiado. Para ele um momento em que as lembranças adormecidas voltavam para atormentá-lo. Depois vestiu um moletom e ainda com as perturbações do cotidiano na cabeça procurou algo para comer.

Pensou em algo que comemorar. Nada encontrou. O vento soprava e o frio entrava pela casa toda. Trancou a porta e fechou as janelas. Enrolou-se numa coberta e sentiu-se um xamã com um casaco de lobo nas costas. Tomou um café sem açúcar e foi ver um pouco de televisão. Passou a vista por todos os canais e mais uma vez nada encontrou e então se lembrou do porque não assistia mais televisão. Nada mais que recortes mal feitos e mal costurados.

Em momentos assim gostava de escrever. Neste dia resolveu fazer um retrospecto de tudo o que já havia produzido. Com um sorriso discreto olhou para tudo que já havia se passado e rabiscou numa página uma confissão:

"Lugares comuns, frases feitas, lágrimas teimosas, palavras vulgares, momentos banais, diversos tratados, uma queda dos anjos, termômetros astrais, culturas de violência, luxúria, pára-choques de caminhão, concentrações capitais, narrações históricas, registros e no fim, não mais que impressões de almas sensíveis... Para arrancar dessas almas o sublime.

O sublime. Aquele momento mágico presente em tudo e que ninguém mais vê. Bastaria-me mais um segundo, um leve toque, um breve olhar, respirar com calma, sorrir e imaginar. Bastaria um pouco para fazer de tudo o que é comum um algo mais. Para enxergar aquele detalhe que faz de tudo único. E aí me vejo impossível sem ele. E o universo todo um palco mágico onde tudo pode acontecer e acontece. E eis que descubro mais uma vez que onde está o igual encontramos o diferente. Que onde está o igual surge não só o real, mas o surreal.

Acabo de reencontrar um lugar mágico, onde o que sinto pode vir sossegado e sem pretensão, pois que a arte não é a realidade de uma navalha no pescoço, mas a vida maravilhosa que se esvai pela ferida. Ou como disseram sobre os contos de Dalton, manter a vida no texto (ou em qualquer arte) é como empalhar um pássaro sem que ele deixe de cantar.

Mas com certeza devo confessar que os olhos daqueles que leêm melhoram muito as palavras."
segunda-feira, 31 de maio de 2010 6 goles

A ÚLTIMA LIÇÃO

Abro uma velha caixa de sapatos. Dentro dela reviro as cartas da minha adolescência. Penso em como foi bom, em tempos de Internet, poder ter tido a experiência de trocar cartas. A ansiedade e alegria que nunca mais sentirei. Separo algumas de um grande amigo que se mudou para uma cidade distante.

Ele sempre foi atemporal. Um profeta do tempo como diria Henry Miller. A previsão? "O tempo continuará ruim". Inversamente a isso sempre com uma postura positiva. Não em relação ao mundo, mas em relação a si mesmo. Um positivismo pessoal e muitas vezes intransferível. Um positivismo partilhado somente com aqueles que julgava muito importantes, ou que pudessem fazer parte de algum dos seus planos. Por dentro, mil revoluções. Sonhos de eternidade misturados ao sonho de ter sido pai aos 15 e de morrer aos 30. Mais de uma vez trocou meu nome, até em carta. Chamou-me Danilo. Certo, eu sei que se parece muito. Sonhos de mudar o mundo ou de botar fogo nele. Medo dos cabelos brancos, das rugas e das memórias esvaecerem. "Um homem sem memória não é ninguém". Uma vontade exacerbada de se rebelar da forma mais inusitada e ultrajante lhe percorre as veias.

Se me perguntam o que ele tem de especial, pois afinal não passa de um louco, respondo com toda a confiança e certeza do mundo que devo muito do que sou a esse maluco e serei eternamente grato por isso.

E dá-lhe revolução. De ateu a crente. De crente a místico. De místico a ateu. De perversão em perversão. Muda cara e nome. Projetos, projetos, projetos... Vícios e manias. A mente inquieta. O mundo é dos desassossegados. Meu anti-herói favorito por muito tempo, mas não mais. É exatamente isso o que ele quer. Cansou de ser um exemplo a ser seguido. O fato de alguém que faz as coisas do seu jeito ser visto como algo diferente, como exemplo a ser seguido só mostra o quanto o mundo está doente. Jamais ligou para o mundo. Não é exemplo de nada.

Numa bela manhã usa a internet para dar bom dia aos que julga desgraçados. Um cumprimento me chama a atenção: "Bom dia pra você que é artista e acabou de passar no concurso público para agente penitenciário". Eu, que havia acabado de prestar um concurso, ainda que fosse dentro da área em que me formei, senti o puxão de orelhas. Sou formado e sou artista. Tenho a obrigação de fazer do meu jeito e de ter a total liberdade de desfazer a qualquer momento.
segunda-feira, 24 de maio de 2010 7 goles

DE COMO PERDEMOS NOSSO CORAÇÃO


 Faltavam poucos minutos para a meia-noite. Todos já tinham dormido. Acendi um incenso de flor-de-laranjeira e fiz uma oração. Comecei a pedir por todas aquelas pessoas importantes em minha vida. Pelas que se foram, seja pela morte, seja por simplesmente estarem de passagem. Pedi pelas pessoas que por alguma razão insondável permaneceram. Por aquelas que não me deixam sair dos trilhos e também por aquelas que um dia virão. Que chegarão sem pedir licença e sairão do mesmo jeito, sem ao menos um pedido falso de desculpas.  As pessoas vêm e vão: fato.  Posso até escolher quando algumas virão e chegarão, mas na maioria das vezes isso, como quase tudo, estará fora do meu controle. Paro e penso e termino por agradecer por isso também. "Obrigado por deixar as coisas fora do meu controle".

Ação e reação. Tudo está determinado. As coisas estão dispostas de tal maneira que nada pode ser diferente do que é. Penso em Spinosa. Para ele a ilusão dos homens de que suas ações resultam de uma livre decisão da mente é consequência de eles serem conscientes apenas de suas ações enquanto ignoram as causas pelas quais são determinados, o que faz com que suas ações sejam determinadas pelas paixões. Vemos os fatos, mas somos ignorantes quanto ao que levou a esses fatos. Daí a falsa sensação de liberdade e livre-arbítrio. Somos como uma pedra que ao ser atirada pensa que tem total controle sobre seu trajeto, até que uma hora ela cai.

Polêmicas à parte isso me levou, ao final da minha oração, a recapitular, dividir, classificar, separar e agrupar as várias pessoas que estiveram ao meu redor. Por alguma razão pensei na vida amorosa de vários amigos meus. No que eles acreditavam e buscavam quando ainda ensaiavam o primeiro beijo e no que acreditam e buscam hoje. Quanta diferença. Dou um longo bocejo e apago a luz. Talvez a amizade seja mais importante que o amor? Pelo menos é algo mais certo. Como novilhas na fila do abatedouro vamos sendo empurrados para o mesmo fim. Trágico fim. Mas, será que é mesmo trágico? Vou seguindo o caminho oposto. O tão desgastante caminho oposto. Sinto-me cansado. Ainda creio que não importa em como, quando e onde será o fim disso tudo. O que importa é o caminho. Se estamos sendo empurrados ou não, talvez seja questão de ponto de vista, talvez seja covardia, talvez seja (in)compreensão.

Mas, não pude deixar de pensar que assim como todo homem (no sentido de humanidade) nasce sem preconceito, todo homem (no sentido de homem mesmo) nasce romântico e que o fim de qualquer coisa sempre será indigno, ainda que não saibamos o motivo que a fez nascer.
terça-feira, 11 de maio de 2010 10 goles

UMA FESTA

Olha as horas no telefone celular mais uma vez. Não, ela não vem pensou ele. Não que ela tivesse desonrado um compromisso. Na verdade havia lhe dito com bastante antecedência que não poderia acompanhá-lo aquela noite. Já tinha compromissos marcados, assim como ele também tinha o seu. Mas e se ela entrasse por aquela porta? Vestido branco de tafetá, cabelos escovados, perfume doce de dar água na boca e os olhos de amêndoas que ele tanto venerava? Então ela lhe diria "mudei de idéia, eu vim aqui só pra ficar com você". Vai até o banheiro. Dá um tapa no próprio rosto para acordar de vez. "Paciência" repetiu para si mesmo, "amanhã nos veremos, melhor aproveitar a festa".

Volta e se senta. Bebe um copo de cerveja num só trago. Escorre um pouco no canto da boca. Certifica-se de que ninguém viu a trapalhada. Troca algumas palavras com a aniversariante. É apenas a segunda vez que a vê . A amiga que os apresentou há algumas semanas atrás vai ao segundo andar para colocar as fofocas em dia. Antes de subir lhe dá um tapinha nas costas, "interage aí". Sentiu-se um cachorrinho sem dono. Olha em volta, não conhece mais ninguém ali. Enche seu copo novamente. Todos sentados ao redor de uma mesa enorme formada por várias mesas de festa colocadas em fila. O silêncio é tão grande que na sua cabeça é como se um corpo estivesse estirado sobre a mesa. Alguém comenta que está parecendo festa de família, todos ali sentados e comportados. Um rapaz começa a conversar animadamente com uma guria, a mais bela da festa. Ele ainda não sabe, mas isso vai durar até as 03h30min e não vai dar em nada. Uma mesa de truco é formada num canto. A dona da festa tomando tereré. Uma guria está de "pilequinho" de tanto refrigerante com vodka. Um naco de carne parado na garganta só desce com mais um copo de cerveja.  No meio de tudo isso, volta e meia lembra-se dela. Uma música na cabeça, "Tolices" do Ira! Por algum tempo sente como se ele mesmo tivesse composto letra e melodia. "Será que eu devia ter vindo?"

O que faz  uma festa ser boa de verdade? Sim, claro, quando todos se divertem e basta apenas um único chato para por a diversão de todos em risco. Alguém desliga o som e pega um violão. Um outro trás um cajon. Forma-se uma roda ao redor dos músicos. Quando a amiga desce com uma jarra de batida nas mãos, encontra o amigo nos vocais, animadíssimo. Ninguém desconfia que sua cabeça, no entanto, está sintonizada em outra freqüência.
quarta-feira, 28 de abril de 2010 8 goles

UMA DESPEDIDA

Os dois, exaustos e bêbados chegaram a casa dela. Ela havia dito que se despediria logo e o abraçou com ternura. Trocaram algumas palavras sem nexo. Um longo beijo, molhado e barulhento. Depois ela colocou a cabeça no colo dele e cochilou sem perceber. Passava da 01h30min da manhã. Nunca tinham voltado tão cedo nem ficado bêbados com tão pouco. A despedida que seria curta acabou sendo bem longa. Ele ficou brincando com os cabelos dela enquanto ouvia sua respiração. Os olhos pesados de sono. Porém, permaneceu acordado. Velando o sono dela. Tinha medo da violência da cidade e espiava os espelhos do carro a todo instante, mas também não queria acordá-la de um sono tão bom, bem ali, aconchegada em seu colo. Nunca a tinha visto tão frágil, tão entregue, tão sua. Então uma luz se acendeu na janela da sala que dava para a rua. Ela acordou rapidamente. Não devia ter dormido. Antes de descer do carro e fechar a porta eles se beijaram novamente, sem saber que seria pela última vez.


(extraído de um conto escrito em 2001)
quinta-feira, 15 de abril de 2010 7 goles

COMO NUVENS PELO CÉU

Naquele tempo ele subia a escada de caracol todos os dias após o almoço e deitava-se na chaise branca que ficava de frente para a grande janela do segundo andar. Dali ele olhava o céu  através da vidraça. Nuvens passeavam despreocupadas e sem direção através da imensidão azul. Para onde vão? Não estar em lugar nenhum e em todos os lugares. A idéia dessa viagem sem partida nem chegada seduzia seu coração e o fazia passar os dias imaginando o que encontraria pelo caminho. Sempre com um livro nas mãos. Dalton Trevisan, Graciliano e Milan Kundera eram os preferidos. Lia um ou dois capítulos e fechava os olhos desejoso de dormir e sonhar com tantos lugares que nunca conheceu.

Enquanto isso pássaros piavam no quintal, furavam mamão ou catavam gravetos. Amarelas e azedinhas eram as ameixas de dar água na boca que caiam no chão, pois ninguém as queria. A pitangueira era do contra. Jamais dera uma pitanga sequer apesar de ser a árvore mais estimada do quintal. Amamos aquilo que é raro. O mundo lá fora era tão complicado. Talvez fosse esse o motivo de querer permanecer na chaise branca, vendo aquele céu calmo e lendo Trevisan, Graciliano e Kundera, pois enquanto aquelas estórias difíceis permancessem numa resma de folhas costuradas tudo estaria bom. Afinal, já tinha passado por cada coisa...

Foi numa tarde de outono que aquela guria apareceu e mostrou para ele que havia tantas coisas a viver. Estavam no meio da estrada e sem direção assim como as nuvens no céu, mas foi tão bom saber que não estava mais sozinho.
domingo, 11 de abril de 2010 4 goles

REENCONTRO


 Éram três amigos. Marvin, Dom Jegon e Bogodã.  Beberam muito naquele dia. O botequim que frequentavam era lugar de muitas anedotas e tinha por apelido o título de “Boteco Boca de Porco”. Ele ficava no centro, meio escondido por entre os prédios de uma curta alameda toda calçada com paralelepípedos. A rua chamava-se Dona Rafa Cecílio e possuía muitas amendoeiras, velhas e altas, que deixavam o ambiente sempre escuro e úmido. O bar funcionava num cômodo comercial bastante antigo, com tijolos aparentes, mesas de madeira, bancos bem altos rodeando o balcão, grandes vidros com diversos tipos de conservas, uma mesa de sinuca no centro e nas paredes havia vários pôsteres de famosas nuas, além de um enorme calendário de pesca. A iluminação era um tanto precária, meio amarelada. Num canto havia uma pilha de engradados de cerveja e nos fundos, prateleiras com os mais diversos tipos de bebidas nacionais e importadas incluindo até mesmo garrafas de absinto verde. O piso e o teto eram cobertos por tacos de madeira, ambos bastante castigados pelos cupins. Do lado esquerdo, nos fundos do boteco havia um princípio de infiltração no teto. Apesar da aparência um tanto hostil e degradada não era menos vil que o resto do mundo. De lá mesmo podiam sempre ver ambulâncias transitando com a desgraça à bordo.

Era noite de lua cheia e se encontraram numa mata próxima a um bairro da periferia. Era final do mês de junho e o mato estava castigado pela estiagem. Caminharam mata adentro até encontrarem o local exato, aos pés de uma gameleira antiqüíssima. Lugar de muitas lendas. A noite foi caindo enquanto conversavam animadamente. As primeiras estrelas apareceram para decorar o céu que se encontrava magnificamente límpido. O luar iluminava o ambiente de forma que podiam observar claramente o desenho noturno das poucas árvores retorcidas, a grama alta e ressecada, alguns arbustos aqui e ali. O de cabelos longos ficou fascinado pelo céu que se apresentava permanecendo um longo tempo calado, apenas admirando-o e certamente viu cada estrela transformar-se no brilho dos olhos daquela guria por quem estava apaixonado na época.

O de óculos contou sobre um livro que comprara num sebo. Ele dizia que os antigos faziam pactos com o demônio debaixo de gameleiras como aquela, que essas pessoas os chamam poeticamente de “mensageiros" e que feito o pacto logo aparecem uma porca com sete pintinhos mamando em suas tetas, e sete leitões acompanhando uma galinha simbolizando a troca. Eles riram. Não acreditavam em diabos.

O baixinho jogou alguns cristais de sal na terra, formando um círculo ao redor deles. Acenderam um incenso de musgo do carvalho e depois uma fogueira. Em seguida o de cabelos longos retirou da mochila uma agulha e fez um furo no dedo indicador. Os outros não se incomodaram nem um pouco e foram logo espetando o metal contra a carne. Todos de dedo furado... só restava consumar o ato.

–Cada um de nós agora é um elo da corrente doravante eternizada. Não é somente nosso sangue que se une nos tornando irmãos, nossas almas também se fundem e nos tornam muito mais poderosos. Daqui para frente estaremos sempre juntos ainda que separados.

Aquilo não era somente um elo entre eles, era também um elo com o passado.
quarta-feira, 7 de abril de 2010 8 goles

NUM BREVE OLHAR

Foi num dia de comidas pesadas que se conheceram. Nuvens pesadas. Na cabeça, pensamentos pesados, nebulosos, chorosos. O chumbo do céu derreteu-se numa chuva pesada, tensa e refrescante. O vento arrancava as folhas das árvores e as roupas dos varais. Levava os pensamentos e os sonhos para junto de onde moram os anjos e depois de volta para as sombras tão palpáveis e intragáveis daquela tarde. Estaremos errados pelo sim ou pelo não? O talvez é mesmo capaz de deixar a vida mais atraente? No silêncio o burburinho. A música ensurdecedora. Passos soavam como marchas. Riram juntos. Caminharam juntos. Comeram juntos e beberam. Ele com seus velhos óculos olhava para ela em suas roupas soltas pairando sobre a pele que só faziam aumentar a imaginação. O ombro direito à mostra. Depois fizeram pose para fotos ao lado de pessoas desconhecidas. Sorrisos amarelos. Hora de partir. Antes de se despedirem trocaram telefones e e-mails e se falaram dia após dia.

Gibran diz que o que existe fora também existe dentro e tudo o que há dentro também existe fora. Diz que nenhum limite separa as coisas próximas das remotas, nem as mais baixas das mais altas, nem as menores das maiores. Uma simples gota d`agua contém todos os segredos do mar e um só átomo contém todos os segredos da terra. A descoberta de si mesmo equivale à descoberta do universo. Quem se vê a si próprio vê a essência da vida.

De minha parte digo num complemento que não completa que sorte e azar não são forças à parte, não são experiências místicas. São só nomes para definir o que julgamos ser bom ou ruim num determinado momento, pois o que tem de ser será e por isso mesmo, não é bom nem ruim, apenas é.

Mais tarde, após uma seqüência de desencontros eles se reencontraram. Bastou uma noite e nesta noite bastou um breve instante para que seus olhos se encontrassem profundamente. Um sorriso discreto escapou a ambos. O mundo parecia ter se congelado, estava suspenso, imóvel, calado. Nada de boca seca, nem coração em disparada, nem suor nas mãos, nem pernas bambas, nem gaguejar nas palavras... apenas uma boa e estranha sensação sustentada por um simples olhar.

Gibran também diz que ao procurarmos algo só encontraremos aquilo que já existe em nós. Que terá sido aquele instante de silêncio e profundidade?
quinta-feira, 1 de abril de 2010 8 goles

UMA BANDA DE ROCK

 Montou uma banda de rock com a irmã, o namorado dela, um primo e um vizinho. 

Ele queria ser vocalista, mas sua paixão mesmo era o bamdolim e isso irritava. O baterista vendeu a bateria para dar entrada em uma moto. O baixista vendeu o baixo logo em seguida e não se sabe o que fez com o dinheiro. O guitarrista emprestou a guitarra para a banda da igreja do irmão que era pastor e ela nunca mais voltou. Ele jamais aprendeu a tocar seu bandolim, tão pouco aprendeu a cantar. Sobrou o violão da irmã e umas 10 canções que compuseram juntos. Fizeram muito sucesso tocando na garagem quando a família se reunia aos domingos para churrascos e macarronadas...

Ainda se pega pensando em como teria sido se tivessem seguido adiante. Estariam nas paradas fazendo 300 shows por ano ou tocando em alguma churrascaria em troca de um rodízio? Não, talvez uma vida média, porém  fazendo o que tanto gostavam. Era o suficiente. Mas bastou uma moto, uma graninha, um favor, um gosto um pouquinho diferente e pronto, tudo mudou.


quarta-feira, 31 de março de 2010 5 goles

A MAJESTADE DA LOUCURA

Nos meus primeiros passos dentro da filosofia li "Elogio da Loucura" de Erasmo de Rotterdam. Nele a loucura se apresenta como uma deusa que tem por hobby governar todos os passos dos seres humanos sendo ela a responsável por manter a sociedade tal como ela é.

Um dos meus filmes favoritos é "Um estranho no ninho". Afinal, quem era o estranho ali?

A primeira viagem que fiz sozinho foi para Campinas, visitar minha vó e minhas tias. Saí pelo centro com meu primo. Foi meio sem querer que fomos parar num museu pra lá de estranho. Um galpão enorme ao lado da antiga estação de trem. Utensílios cirúrgicos antigos e guarda-chuvas pendurados no teto. Coisa de super mau gosto. Achei maravilhoso.

Sempre amei o diferente. Por exemplo, numa cidade onde quem não gosta de sertanejo não é nem gente eu gosto de rock. E não é qualquer rock. A primeira banda que curti foi Engenheiros do Hawaii que é uma banda que, ou se ama ou se odeia. Em seguida foi Pink Floyd (idem). De lá pra cá meu gosto musical foi tomando rumos cada vez mais distantes e o rock que eu gosto hoje é mesmo o indie. Não gosto de músicas de sucesso. Gosto mesmo é do lado B.

Na adolescência eu usava cabelos arrepiados à base de toneladas de gel muito antes de virar moda, além de um cadeado no tênis. Matava aulas de educação física para ler livros e escrever poesias acompanhado de um bom incenso de sândalo.

Não sei de quem é a frase mas, eu adoro:
Não se pode ser normal e estar vivo ao mesmo tempo
Sim, já me chamaram de louco diversas vezes. Mas como diria Rauzito, enquanto eles falam eu faço....
terça-feira, 30 de março de 2010 2 goles

METADES, FRAGMENTOS E RETALHOS

MOMENTO 1  - do sono imerecido

Tem uma guria linda que todas as manhãs pega o mesmo ônibus que ele para ir ao trabalho. Mais que a sua beleza, ele admira seu sono. Ela dorme profundamente durante todo o trajeto. Nem a cabeça batendo na janela, nem as brigas frequentes entre usuários e cobrador a fazem despertar. Aliás, o cobrador é outro que entre um ponto e outro tira uma sonequinha. Enquanto isso ele percebe que tem fortes tendências vampirescas. Volta e meia telefona para seus amigos depois da meia-noite em plena segunda-feira. Esquecendo-se que pessoas normais dormem.

MOMENTO 2 - do cansaço planejado

Quando está com algum problema pega sua bicicleta e faz uma maratona. Não sei bem o motivo, mas parece que ele pensa melhor com o corpo em movimento. Vento no rosto. Suor escorrendo. Os músculos extremamente cansados. Transfere as tensões mentais para o corpo enquanto busca soluções e mesmo que não apareça nenhuma sente-se de certa forma mais aliviado. Porém, nem assim sente mais sono por causa disso.

MOMENTO 3 - do caminho percorrido

Já caminhou por entre espinhos e escorpiões. Pisou sobre brasas e ouriços do mar. Já carregou medusas na boca e elefantes nas costas. Já apelou para santos e deuses pagãos. Bebeu vinhos mais que especiais e água podre. Respirou o hálito fresco das matas e a fumaça que encobre os aranha-céus. Mentiras sempre serão mentiras. Correu, pulou, caiu e nunca quebrou a perna. Já teve pimenta nos olhos e chocolates na canga. Já teve bolso e algibeira. Dirigiu, foi dirigido e digerido. Foi ruminante e marsupial.  Coração roubado. Amores platônicos. Fez do impossível possível, mas esteve cansado demais para mantê-lo supenso. Um possível momentâneo é sempre momentâneo. Momento não se mede, mas é sempre muito curto. Passou noites em claro e dias também. Quebrou correntes e cadeados. Metade assassino, metade assassinado.

MOMENTO 4 - do desfecho inacabado

O que me parece é que quando acreditamos ter encontrado uma verdade é muito difícil se livrar dela, ainda que no fim das contas ela não passe de uma inverdade. É preciso mante-se em estado de vigília e sempre com a mente aberta. Aquilo que te conforta muitas vezes é o que te aprisiona.


terça-feira, 23 de março de 2010 2 goles

DO PORQUE NÃO ME ARREPENDO

O assunto é batido, eu sei, mas vejo que ainda há o que se dizer sobre ele. Volta e meia ouço alguém repetir que "melhor se arrepender do que se fez do que daquilo que se deixou de fazer". É até bonito, mas quando algo é por demais repetido torna-se não mais que um ruído que só faz ferir os tímpanos. "Estou arrependido, mas pelo menos eu fiz, eu tentei", OK! Tudo bem. Acredito verdadeiramente que devemos sempre tentar mesmo, ainda que todos pensem o contrário ou que digam que é loucura. Mas, sinceramente eu prefiro não me arrepender de absolutamente nada, nem do que fiz nem do que não fiz.

Outro dia fui tomar um café e encontrei um velho conhecido. Quando perguntei a ele sobre o emprego novo ele fez uma cara de coitado e disse "ah se arrependimento matasse... se pudesse voltaria para meu antigo emprego...". Heim? Quis saber o motivo e pelo que me disse parece não ter se adaptado muito bem e acabou perdendo o novo emprego. Eu não resisti e perguntei: Tá, mas o que foi mesmo que te fez abandonar o emprego anterior? Rapidamente ele teceu a sua lista de insatisfações (que eu já conhecia de cor, mas queria que ele a repetisse). "O salário já não era o suficiente, faltava oportunidades de crescimento, cobranças diárias que mais desmotivavam do que motivavam, etc, etc..."

Então meu amigo arrepende-se do que mesmo? E não me venha com essa de que "pelo menos eu fiz" porque se não o tivesse feito ainda me diria "pelo menos aqui tenho estabilidade, conheço as rotinas e posso eu mesmo criar minhas oportunidades etc, etc". O ponto a que quero chegar é: há um motivo para tudo! Absolutamente tudo. Seja lá o que for que tenha feito ou não, tenha em mente que não poderia ter sido diferente. Tens a mínima noção do que se passava em sua mente e coração? Então basta. Você fez o que fez e pronto. E não se culpe demasiadamente, pois esse sentimento poderá afastá-lo de algo muito importante.

Arrependimento é incompreensão do pior tipo, pois o arrependido não compreende a si mesmo e nem se esforça por isso.
 

sábado, 13 de março de 2010 4 goles

MEDOS

Engoliu seu café com a certeza de que o vazio que sentia não era fome. Antes de sair pensou no ônibus lotado de todos os dias, na conversa frenética das diaristas, na grosseria do cobrador e na mistura de tantos perfumes que chegava a ser entorpecente. Respirou profundamente enquanto contava até dez e seguiu em frente. Já no ônibus cedeu seu lugar para uma senhora que ao ver seu uniforme foi logo perguntando sobre como estava seu patrão.

"Sabe o que é, eu estudei com ele na faculdade. Nossa! Ele era o aluno mais dedicado nas aulas de fotografia!"

Os dois conversaram por um tempo. Ela se justificou por não ter seguido a carreira jornalística (coisa que nem precisava ter feito) dizendo que o que ela realmente gostava de fazer não dava dinheiro. Ela amava o rádio. Se quisesse ser radialista aqui o único jeito de ganhar um pouquinho a mais seria ouvindo música sertaneja e mandando beijinho o dia inteiro. Hoje ela é funcionária pública do município, casada, mãe e parece não se importar de depender daquele ônibus lotado todas as manhãs. Mas seu tom de voz, sua expressão ao se lembrar dos tempos da faculdade de comunicação, o jeito que ela se referia a sua paixão pelo rádio não saiu da cabeça dele por um dia inteiro. Ele quis perguntar, mas não teve coragem: se essa era sua paixão, porque não tentou a carreira em alguma capital?

Mas ele não quis pensar quais teriam sido os motivos ou medos que a congelaram, mas nos seus próprios medos e motivos. Será que ele também estava se congelando? Lembrou-se de ter lido certa vez que cerca de 87% das coisas que nos metem medo jamais chegam a acontecer de fato, 6% podem ser influenciados por nós e apenas 7% acontecem. Então a questão é: vale a pena nos preocuparmos com aquilo que tememos?

Ao fim do dia, o vazio que não era fome havia desaparecido.


segunda-feira, 8 de março de 2010 1 goles

O MUNDO É SEU

Um trecho de um poema de Maria Resende....

"Uma mulher pode ser um porto ou um abismo
E pode ser os dois
E é"

Tanto nos abrigamos em vocês como nos perdemos também.

Muitos homens se dedicaram a entendê-las, classíficá-las, decifrá-las, sem perceber que um ser superior e enigmático como a mulher não pode  ser assim conhecido.

Elas são as protagonistas neste grande palco que é o mundo e nós homens, meros coadjuvantes. Nos gabamos dos "grandes feitos" sem notar que grandes feitos mesmo foram e sempre serão o que elas fazem diariamente.

Só nos resta amá-las e muito o que viver ao lado delas. E haverá algo melhor para se fazer? Sim. Agradecer a dádiva de tê-las conosco e por elas suportarem nossas vãs fantasias. Por nos dar alegria de viver e fazer desse o melhor dos mundos. 

Mulher, nunca se esqueça de que este dia é apenas um símbolo. O mundo é seu e todos os dias também.


 
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