quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 2 goles

NO VESTIÁRIO

Foi numa dessas tardes de verão, logo depois de uma chuva daquelas que topei com aquela guria na rua. Pela roupa toda branca imaginei que deva ser enfermeira. Não tinha mudado muito em todos esses anos. Sei que pareço um velho escrevendo isso, mas fazer o quê? Os anos se passaram e continuam passando numa velocidade que às vezes dá até certo pavor. Passei por ela sem nada lhe dizer. E o que lhe diria? Nós nunca tínhamos nos falado e eu não ia dar uma de amiguinho logo agora.

Como único fato capaz de registrá-la nas minhas memórias está um episódio ainda visto por alguns idiotas como sendo hilário. Aconteceu que a garota foi pega no vestiário do colégio com um garoto num momento bastante íntimo. Logo a estória circulou por todo o colégio e as piadas também. Alguns pegaram mesmo pesado com ela, inventando apelidos pejorativos e até nojentos. Engraçado que o rapaz foi esquecido e a fama ficou somente com ela. Palavras maldosas seguidas de risadas sarcásticas. Comentários podres cheios de preconceito. Por alguma razão imbecil eu não disse nada nem a favor nem contra, apesar de achar aquele circo todo ridículo. Será que se fosse hoje seria diferente? Menininhas e menininhos andam por aí com essas pulseirinhas coloridas e ninguém diz nada.

Mas, falando francamente, que moleque não teria gostado de estar naquele vestiário, no lugar daquele carinha com aquela garota linda? OK, o problema foi o lugar que eles escolheram não é verdade? Contudo conheço gente que não fez por menos visitando escadas, piscinas, terrenos baldios, churrasqueiras de condomínio, carros em movimento, alpendres, pias de banheiro, a cama dos pais, cemitérios, buracos de tatu... nem o local de trabalho eles respeitaram!

Oh senhor, como fomos cretinos, mesquinhos e hipócritas!


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 0 goles

MINHA LISTA DE CAUSAS PERDIDAS

• Aquecimento Global - Convencer as pessoas de que o planeta está vivo e em constante transformação é com certeza um imenso desafio. Tudo o que nos parece estático só o é em detrimento de nossa vida ser tão breve, nada mais que isso. Nossos antepassados sobreviveram a uma Era do Gelo, portanto não é um calorzinho que vai nos tirar daqui. Aliás, ir pro trabalho de bermuda é uma ótima idéia. Mas cuidado, isso não tem nada com algum imbecil que disser: "OK, já que é assim vamos poluir a vontade!". Fumaça faz mal para nossa saúde, este sim é um bom motivo para reduzir a emissão de gases. O grande erro dessa estória toda está neste alarmismo midiático falso e de cunho extremamente político.

• Posetilismo - Que o ser humano é comprovadamente um ser social já estamos carecas de saber. Que ele sente uma profunda necessidade de estar inserido dentro de um grupo também. Seja na escola, no trabalho ou numa pista de dança. Lugares onde se perde por alguns momentos a individualidade e por isso mesmo sentimo-nos livres de todo os dogmatismos culturais, econômicos, religiosos e políticos. Lugares onde podemos ser nós mesmos. OK, todas essas facetas de nossa natureza estão enraizadas em todos nós de tal maneira que não nos imaginamos vivendo sem elas. Agora, usar disso como motivo digno para angariar mentes incautas, convencendo-as de que seu ponto de vista é o melhor e o mais correto é o fim da picada. Existem pontos na sociedade mais ou menos fixos, com o intuito de manter a ordem das coisas e destes sou completamente a favor, quanto ao resto, cada um decida como quiser. Prosetilismo: podemos tentar viver sem isso? Será que é pedir demais? Aos políticos inflamados, empresários imperialistas e vendedores do fim do mundo, o meu total desprezo.

• MPB - Música popular brasileira? Convenhamos este termo deveria pertencer a todo e qualquer artista brasileiro com relativo sucesso ou pertencente a algum estilo musical de gosto popular e digo mais, até o movimento independente pode ganhar essa alcunha, uma vez que se faz música de brasileiro para brasileiro. Essa tal de MPB me parece um clubinho, uma dessas sociedades secretas onde se paga mensalidade e só se entra com carteirinha. Música Popular Brasileira = tocar violão e cantar baixinho? Isso é uma piada?

• Produtos vendidos aos pares - Calma, calma, nada contra sapatos e chinelos! Mas inevitavelmente os eternos românticos de plantão, quando sozinhos, se perguntarão: porque o chadellle é duplo? As barras de chocolate divididas em parzinhos? Dois lugares na roda gigante? Preços melhores no cinema se você comprar um "combo"? Porque casal paga menos na churrascaria? Porque 2 "lançamentos" te dão direito a 1 "catálogo" na locadora? Ainda bem que o Ferrero Rocher vem com 3 unidades. Faça como o Ferrero! Embalagens com 3 unidades!

• Trazer de volta espécies que nós eliminamos - Deixo aqui meu sincero sentimento de inconformismo diante da impossibilidade de ver um Pássaro Dodô, uma Moa, um Rinoceronte Anão, um Pombo Passageiro, um Tigre de Java, uma Arara Vermelha de Cuba, um Aral-gigante, uma cabra-dos-pirineus, um leão-do-cabo, etc... Mas um dia eles voltarão pra se vingar!

• Por um mundo sem correntes na WEB - todas as vezes que recebo um e-mail bonitinho, fortalecedor, reflexivo, triste ou de promoção de produtos que ninguém usa, faço uma aposta comigo mesmo: no final vão me pedir pra repassar a mensagem. Sempre acerto. Galera acorda! Parem de mandar isso pra mim, porque toda corrente que eu receber será quebrada.

• Porque propagandas de desodorante tem de ser tão ridículas? – Aliás, não só as de desodorante... Quando teremos algo mais inteligente? Pelo que percebo em relação ao mundo talvez nunca, até lá por favor, mudem de canal!



Em breve postarei a 2ª parte das causas perdidas pelas quais luto ferozmente. Aguardem.


terça-feira, 12 de janeiro de 2010 0 goles

QUERIDA PROFESSORA

Estava me lembrando a pouco daquela campanha do MEC sobre o professor. Fui até o youtube e revi este vídeo. Os comentários deixados pelos usuários não se diferem muito uns dos outros. De forma geral entendem que o professor é sim importante, mas de forma também geral acharam a campanha ridícula, mais para uma piada de mau gosto.

Bom, isso me fez relembrar de alguns professores. Alguns muito bons, outros nem tanto, outros um tanto caricatos. Comentarei apenas fatos isolados envolvendo professoes que tive entre o ensino fundamental e o médio.

A primeira professora que me vem à mente quando me pedem pra me lembrar de uma vou deixar para o final da postagem. Por favor, não avance o texto.

Tinha um professor que sempre chegava bêbado e acredite, ele ensinava Matemática e muito bem! E tinha também a mulher má que batia nos alunos com uma régua de madeira. Também tive um de Educação Física que assediava as alunas. Uma outra que saía da sala de 10 em 10 minutos pra fumar e aquela que se ofendia toda quando se falava em curso de reciclagem de professores...

Dessas figuras têm duas que foram demais. A primeira dava aulas de Educação Artística e como fosse uma pessoa muito espiritualizada sempre avançava em assuntos extra aula. Um dia ela estava discorrendo sobre a quantidade de loucos que ela via na cidade. Disse que não sabia se era por conta da cidade possuir um Sanatório ou porque a cidade abrigava gente atrasada espiritualmente e acredite caro leitor, ela ficava com a segunda opção. Pois é, acho que os loucos se reconhecem entre si porque só ela encontrava tantos e com uma imaginação assim tão fina, creio que ela só podia ser um também.

A outra nos presenteou com uma pérola. Ela dava aulas de Geografia e numa bela manhã de inverno nos disse que o Brasil deveria explorar a floresta Amazônica. Atividade sustentável? Esse termo estava longe de estar tão em voga quanto agora. Ela achava que devíamos mesmo derrubar tudo, deixar o solo nu e utilizá-lo ao máximo. A justificativa? Floresta é renovável!

Mas, quando me pedem pra me lembrar de uma professora sempre me lembro da Dona M. Dava aulas de Língua Portuguesa e como a de Educação Artística também injetava na aula suas opiniões pessoais mais profundas. Coisas do tipo: ano par é melhor do que ano ímpar! Teve um final de ano que por alguma razão fizemos uma homenagem pra ela, compramos flores etc. Ela um tanto emocionada começou a falar um pouquinho de cada aluno resumindo numa só frase. Na minha vez ela disse: O Rodrigo é um grande observador.

Sim Dona M. Um observador que ria debochadamente de ti. Era o máximo que o adolescente tímido e atemporal que eu era achava que podia fazer diante de um ambiente de ensino tão insípido.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010 0 goles

O BRINQUEDO

   Desde criança seus pais incutiram em sua cabecinha oca que para se conseguir algo novo deveria se livrar de algo velho. O exemplo era dado por meio dos presentes que ganhava. Ele tinha lá um certo número de brinquedos que havia sido pré estabelecido antes mesmo dos seus dentes de leite resolverem aparecer. Para que pudesse usufruir de um brinquedo novo deveria primeiro dar um dos seus brinquedos velhos. A onda do bem com o bem reinava naquela humilde casa.

  Iniciou-se então um processo de seleção de brinquedos. Sempre que ele desejava um novo já ia pensando em qual ia se desfazer. Porém, chegou um tempo em que lhe parecia conveniente ficar com todos os que possuia. Não conseguia imaginar nenhum deles indo embora do seu quarto azul. Ao mesmo tempo estava por demais desejoso de um grande carro de controle remoto que vira numa loja do shopping. Começou a achar injusto o que antes lhe parecia justo.

  Como estivesse sem saída decidiu tirar na sorte, mas lhe faltava coragem para seguir em frente. Pediu para a irmãzinha decidir por ele. A menina escolheu a bola, pois julgava que a bolota era quem sempre afastava o irmão das brincadeiras de escolinha que tanto gostava. Ele achou ultrajante. Naquele dia ele se enfureceu e meteu-se o dia todo no quarto a resmungar.

 
No fim do dia a porta do quarto se abriu. A irmã veio correndo ao seu encontro com um sorriso no rosto. Ele lhe entregou a bola de cara feia e foi perguntando:


  - Tem certeza que você não quer outra coisa?

 
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