sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 2 goles

O QUE EU AMO SÃO OS DEFEITOS

Certa vez eu ouvi de um amigo de colégio que o amor é a coisa mais egoísta que existe. Ele dava o exemplo de dois irmãos apaixonados pela mesma mulher. Cada um a queria para si e pronto. A fraternidade que esperasse sentada.

Eu o admirava, pois admitia publicamente uma opinião contrária ao que se imagina em relação ao amor. O sentimento dos sentimentos, aquilo que nos torna melhores, felizes, mais próximos de Deus, etc. Ora, todos nós amamos e não nos tornamos mais castos por isso. Não raro, quando se gosta se é egoísta. Fiquei super animado quando, por exemplo, uma música do Beirut fez parte da trilha de uma minissérie, mas, muitos fãs odiaram a idéia temendo a banalização do seu objeto de desejo. Temiam perder a "exclusividade".

Vejo tanta gente tentando aparentar uma eterna luta contra seus defeitos, sem enxergar que a beleza de tudo está justamente no conjunto. Talvez seja exatamente por isso que apesar de todos os esforços estamos sempre cometendo tantos erros. A verdade é que tememos mudar até mesmo uma vírgula do que somos simplesmente porque não sabemos ser de outro jeito. "O que você é hoje, você vai ser sempre", frase complicada, eu sei, mas oportuna. Mas também não quero dizer que não se pode mudar e melhorar, trata-se tão somente de uma postura contra as ilusões. O importante nisso tudo é o que sempre digo e repito: não se pode amar só pelas qualidades, é preciso amar também pelos defeitos (e isso é super brega, eu sei), mas pense no Deus judaico-critão retirando a perfeição de Adão por ter engolido umas maçãs... É difícil amar o perfeito!

E são tantas imperfeições que eu me perco, fiquemos somente com o exemplo proposto no início do post: o egoísmo é uma coisa terrível? Tudo em exagero é nocivo! Portanto, seja você mesmo, pois do contrário correrá o risco de ser amado pelo que não é e de amar o que não existe. Costuma-se dizer que amamos aquilo que é raro, mas amar o que não existe é para os tolos.


domingo, 21 de fevereiro de 2010 4 goles

QUEM USA RÓTULO É GARRAFA!

Já ouvi dizer por aí que todo homem moderno tem um gato. Bom, pelo menos é o que a publicidade (meu ofício) diz ultimamente. Passei a primeira infância numa casa onde tinham dois gatos, a preta e o rajado e dois dos meus melhores amigos adoram os bichanos (e os dois são publicitários). Meu signo é Leão, o grande gato, rei dos animais, e talvez pela própria natureza do leonino eu adore tanto ser desse signo. O melhor disco do Aerosmith é o "Nine Lives" e segundo uma pesquisa que vi no site da Revista Super o gato parece ser mesmo o bicho preferido  mas.....

Bom, não sei bem porque comecei assim este post, mas vamos lá. Estava ainda a pouco organizando meus CDs quando topei com "A vida é doce" que na minha opinião é o melhor disco do Lobão. Um trabalho independente vendido em banca de jornal, numa tentativa talvez de fugir dos rótulos.

E são tantos rótulos que os outros colocam em nós ou que colocamos nos outros. Que dizer dos rótulos que colocamos em nós mesmos? Chego a ficar perplexo.  Abro a revista que acompanha o CD e me deparo com uma frase. Uma frase que me acompanhou por muito tempo e ainda me acompanha porque faz todo o sentido do mundo pra mim. Faz sentido porque meu desejo é mesmo o de desconstruir, de chocar, de sacudir o mundo. E agora sei como amarrar o início com o fim: EU NÃO GOSTO DE GATOS!

E para encerrar o assunto a frase que é bem simples e diz: "Que não haja mais gêneros".



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010 1 goles

DIZEM QUE ISSO NÃO EXISTE


Ele acordou vindo de um mundo distante. Tudo estava apenas há uma noite atrás, mas sabia que todo o tempo passado pertencia agora a infinitudes que não podia calcular nem tatear. Talvez imaginar, porém jamais reviver. Mas, sobretudo tinha certeza de que era algo que se respeitar e agradecer.

Lembrou-se das confissões de dias endiabrados, de como a garrafa era aberta com um isqueiro, de abraços e declarações. De palavrões e presentes. De pintas nos pés e sal com limão. De planos furados e cine-acerola. De Ferrero Rocher com Coca-cola. De parafusos a menos e tretas à parte. De um respeito que nem todos compreendem e de cafés que nunca tomaram.

Lembrou-se de sua melhor amiga.

Olhou-se no espelho. Depois das risadas intermináveis de dar dores na barriga os músculos de sua face ainda não haviam se acostumado com a idéia de mais um dia comum e o que pôde fazer foi sorrir mais uma vez, pois ele não mudaria sequer uma vírgula se pudesse.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010 0 goles

AOS AMIGOS

Chegou em casa pensando no mundo e deixou a porta aberta, talvez esperando alguém entrar.

Digam o que disserem, somos todos passageiros sem destino. Há pessoas que são importantes, mas só por um tempo. Pessoas que fazem parte de planos para a eternidade e que se dissolvem ao badalar da meia-noite. Tem aqueles que chegam sem pedir licença e grudam feito carrapato e uns poucos que dizem algumas coisas até relevantes e depois somem no mundo. Mas as cretinices... essas nunca se esquece.

Daí lembrou-se da grande dádiva que Deus lhe reservara: sua família e seus amigos. Da família não tinha o que reclamar e dos amigos, podia contá-los nos dedos da mão. Da mão do Lula, é verdade, mas tinha provas mais que suficientes de que estes caminhariam com ele até mesmo pelo vale das sombras.

Como uma criança que ganha um brinquedo novo ele sorriu e deu de ombros, já tinha o que precisava. Fechou a porta e o mundo ficou do lado de fora.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 0 goles

COISAS DE ANJO

Ele teve um sonho. Era noite de lua cheia e estava sobre uma grande rocha, muito alta.   Estava completamente nu e fumando um narguilé bem doce.

Um bando de pássaros barulhentos inundou os céus. O bater de asas soava como um estrondo, mas tão logo elas desapareceram para além de onde a visão alcança.

Recostou-se na pedra gélida e dali ele observava uma cidade pitoresca, completamente muda. A hora mais sossegada da noite. Luzes e chaminés encravadas no vale mais profundo. Pensou no que seria da vida daquelas pessoas.

A sensação que teve era como se uma grande bomba relógio habitasse dentro do seu peito e o silêncio que parecia insuportável era na verdade tudo o que precisava.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 0 goles

ANOITECEU

Cai a noite por aqui
O errante caminha pelas ruas
E uma lágrima teimosa também se vai

Fugiu de casa por cansaço
E de cansaço não irá voltar
Fez seu caminho pelos bares
Respirou dos sete mares
Perseguiu um sonho infantil de liberdade
Depois sorriu com um moeda entre os dedos
E partiu novamente
Inevitável é o que não se pode mudar
E o que não se pode mudar é o passado
Não era da primeira vez
Talvez fosse a última
Talvez...
Não tinha nada, ele falou
Fui o primeiro que a sorte abandonou
Mas com amor e serenidade seguirei em frente
Ao encontro do saber e da morte

É apenas um inconpreendido
Como eu, como todos nós ainda somos
Mas, com menos abraços
Menos sorrisos
Menos laços
E você chorou
Anoiteceu,
E eu também chorei

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NUM DIA NUBLADO DE MAIO

O frio trazia algo mais que jaquetas e moletons. Estranho que naqueles dias nublados de maio todos os sonhos lhe pareciam palpáveis. Em dias assim ele podia parafrasear Fernando Pessoa com toda  propriedade "À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". E era assim mesmo. Tinha todos os sonhos do mundo e parecia ter todo o tempo para sonhar.

Mas, a vida como sempre se encarrega de fazer-se ver um por um desmoronar, como castelos de areia. Vão de grão em grão por entre os dedos. Há momentos na vida em que tudo parece escapar. De um lado sonhos de abraçar o mundo, mania terrível de querer segurar as coisas, de mantê-las em seus lugares, de transformar o mundo numa grande fotografia amarelada. Do outro a incaçável luta pelo mundo perfeito. Um mundo de amor. Um imenso jardim das delícias. Mas sobretudo, o incontrolável vício de amar o mundo, as coisas do mundo.

Mas foi num desses dias nublados de maio que ele desenterrou de suas mesmórias uma lista de sonhos perdidos. Guardou-a num lugar onde é obrigado a vê-la sempre para nunca se esquecer que maio sempre vem e que ele ainda pode sonhar.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 0 goles

PONTO DE VISTA

Sem querer ser pessimista, aliás, eu até que estou bem otimista ultimamente. Não que eu veja um mar de rosas por onde passo a vista ou o pior que seria olhar e não ver nada. É só um estado de espírito que faz com que me sinta menos impotente diante da fugacidade da vida. Nossa eterna luta contra a mudança, que é a única coisa realmente permanente no universo produz sonhos e montros. Mas, no fim das contas tudo que resta é o ponto de vista, nada mais nada menos. Pessoas são pontos de vista. As coisas que as pessoas fazem, o que não fazem e o que pensam sobre isso. O que sabem, o que não sabem, o que sabem que não sabem e o que não sabem que não sabem também.

* * *

Éram dois amigos. Nerds por natureza. Um se achava poeta sem nunca ter lido Camões. O outro pensava ser filósofo sem fazer idéia de quem era Spinosa. Bastava para um ter um amor não correspondido e para o outro algo que criticar. Um pensando num poema ácido para escrever. O outro num artigo filosófico que jamais seria publicado.

Um dia após uma bebedeira chegaram a conclusão de que a humanidade é como um câncer corroendo a si mesmo e foram ridicularizados por isso. Eles não se importaram, tinham certeza de que ali não havia a menor malícia.


 
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