quarta-feira, 31 de março de 2010 5 goles

A MAJESTADE DA LOUCURA

Nos meus primeiros passos dentro da filosofia li "Elogio da Loucura" de Erasmo de Rotterdam. Nele a loucura se apresenta como uma deusa que tem por hobby governar todos os passos dos seres humanos sendo ela a responsável por manter a sociedade tal como ela é.

Um dos meus filmes favoritos é "Um estranho no ninho". Afinal, quem era o estranho ali?

A primeira viagem que fiz sozinho foi para Campinas, visitar minha vó e minhas tias. Saí pelo centro com meu primo. Foi meio sem querer que fomos parar num museu pra lá de estranho. Um galpão enorme ao lado da antiga estação de trem. Utensílios cirúrgicos antigos e guarda-chuvas pendurados no teto. Coisa de super mau gosto. Achei maravilhoso.

Sempre amei o diferente. Por exemplo, numa cidade onde quem não gosta de sertanejo não é nem gente eu gosto de rock. E não é qualquer rock. A primeira banda que curti foi Engenheiros do Hawaii que é uma banda que, ou se ama ou se odeia. Em seguida foi Pink Floyd (idem). De lá pra cá meu gosto musical foi tomando rumos cada vez mais distantes e o rock que eu gosto hoje é mesmo o indie. Não gosto de músicas de sucesso. Gosto mesmo é do lado B.

Na adolescência eu usava cabelos arrepiados à base de toneladas de gel muito antes de virar moda, além de um cadeado no tênis. Matava aulas de educação física para ler livros e escrever poesias acompanhado de um bom incenso de sândalo.

Não sei de quem é a frase mas, eu adoro:
Não se pode ser normal e estar vivo ao mesmo tempo
Sim, já me chamaram de louco diversas vezes. Mas como diria Rauzito, enquanto eles falam eu faço....
terça-feira, 30 de março de 2010 2 goles

METADES, FRAGMENTOS E RETALHOS

MOMENTO 1  - do sono imerecido

Tem uma guria linda que todas as manhãs pega o mesmo ônibus que ele para ir ao trabalho. Mais que a sua beleza, ele admira seu sono. Ela dorme profundamente durante todo o trajeto. Nem a cabeça batendo na janela, nem as brigas frequentes entre usuários e cobrador a fazem despertar. Aliás, o cobrador é outro que entre um ponto e outro tira uma sonequinha. Enquanto isso ele percebe que tem fortes tendências vampirescas. Volta e meia telefona para seus amigos depois da meia-noite em plena segunda-feira. Esquecendo-se que pessoas normais dormem.

MOMENTO 2 - do cansaço planejado

Quando está com algum problema pega sua bicicleta e faz uma maratona. Não sei bem o motivo, mas parece que ele pensa melhor com o corpo em movimento. Vento no rosto. Suor escorrendo. Os músculos extremamente cansados. Transfere as tensões mentais para o corpo enquanto busca soluções e mesmo que não apareça nenhuma sente-se de certa forma mais aliviado. Porém, nem assim sente mais sono por causa disso.

MOMENTO 3 - do caminho percorrido

Já caminhou por entre espinhos e escorpiões. Pisou sobre brasas e ouriços do mar. Já carregou medusas na boca e elefantes nas costas. Já apelou para santos e deuses pagãos. Bebeu vinhos mais que especiais e água podre. Respirou o hálito fresco das matas e a fumaça que encobre os aranha-céus. Mentiras sempre serão mentiras. Correu, pulou, caiu e nunca quebrou a perna. Já teve pimenta nos olhos e chocolates na canga. Já teve bolso e algibeira. Dirigiu, foi dirigido e digerido. Foi ruminante e marsupial.  Coração roubado. Amores platônicos. Fez do impossível possível, mas esteve cansado demais para mantê-lo supenso. Um possível momentâneo é sempre momentâneo. Momento não se mede, mas é sempre muito curto. Passou noites em claro e dias também. Quebrou correntes e cadeados. Metade assassino, metade assassinado.

MOMENTO 4 - do desfecho inacabado

O que me parece é que quando acreditamos ter encontrado uma verdade é muito difícil se livrar dela, ainda que no fim das contas ela não passe de uma inverdade. É preciso mante-se em estado de vigília e sempre com a mente aberta. Aquilo que te conforta muitas vezes é o que te aprisiona.


terça-feira, 23 de março de 2010 2 goles

DO PORQUE NÃO ME ARREPENDO

O assunto é batido, eu sei, mas vejo que ainda há o que se dizer sobre ele. Volta e meia ouço alguém repetir que "melhor se arrepender do que se fez do que daquilo que se deixou de fazer". É até bonito, mas quando algo é por demais repetido torna-se não mais que um ruído que só faz ferir os tímpanos. "Estou arrependido, mas pelo menos eu fiz, eu tentei", OK! Tudo bem. Acredito verdadeiramente que devemos sempre tentar mesmo, ainda que todos pensem o contrário ou que digam que é loucura. Mas, sinceramente eu prefiro não me arrepender de absolutamente nada, nem do que fiz nem do que não fiz.

Outro dia fui tomar um café e encontrei um velho conhecido. Quando perguntei a ele sobre o emprego novo ele fez uma cara de coitado e disse "ah se arrependimento matasse... se pudesse voltaria para meu antigo emprego...". Heim? Quis saber o motivo e pelo que me disse parece não ter se adaptado muito bem e acabou perdendo o novo emprego. Eu não resisti e perguntei: Tá, mas o que foi mesmo que te fez abandonar o emprego anterior? Rapidamente ele teceu a sua lista de insatisfações (que eu já conhecia de cor, mas queria que ele a repetisse). "O salário já não era o suficiente, faltava oportunidades de crescimento, cobranças diárias que mais desmotivavam do que motivavam, etc, etc..."

Então meu amigo arrepende-se do que mesmo? E não me venha com essa de que "pelo menos eu fiz" porque se não o tivesse feito ainda me diria "pelo menos aqui tenho estabilidade, conheço as rotinas e posso eu mesmo criar minhas oportunidades etc, etc". O ponto a que quero chegar é: há um motivo para tudo! Absolutamente tudo. Seja lá o que for que tenha feito ou não, tenha em mente que não poderia ter sido diferente. Tens a mínima noção do que se passava em sua mente e coração? Então basta. Você fez o que fez e pronto. E não se culpe demasiadamente, pois esse sentimento poderá afastá-lo de algo muito importante.

Arrependimento é incompreensão do pior tipo, pois o arrependido não compreende a si mesmo e nem se esforça por isso.
 

sábado, 13 de março de 2010 4 goles

MEDOS

Engoliu seu café com a certeza de que o vazio que sentia não era fome. Antes de sair pensou no ônibus lotado de todos os dias, na conversa frenética das diaristas, na grosseria do cobrador e na mistura de tantos perfumes que chegava a ser entorpecente. Respirou profundamente enquanto contava até dez e seguiu em frente. Já no ônibus cedeu seu lugar para uma senhora que ao ver seu uniforme foi logo perguntando sobre como estava seu patrão.

"Sabe o que é, eu estudei com ele na faculdade. Nossa! Ele era o aluno mais dedicado nas aulas de fotografia!"

Os dois conversaram por um tempo. Ela se justificou por não ter seguido a carreira jornalística (coisa que nem precisava ter feito) dizendo que o que ela realmente gostava de fazer não dava dinheiro. Ela amava o rádio. Se quisesse ser radialista aqui o único jeito de ganhar um pouquinho a mais seria ouvindo música sertaneja e mandando beijinho o dia inteiro. Hoje ela é funcionária pública do município, casada, mãe e parece não se importar de depender daquele ônibus lotado todas as manhãs. Mas seu tom de voz, sua expressão ao se lembrar dos tempos da faculdade de comunicação, o jeito que ela se referia a sua paixão pelo rádio não saiu da cabeça dele por um dia inteiro. Ele quis perguntar, mas não teve coragem: se essa era sua paixão, porque não tentou a carreira em alguma capital?

Mas ele não quis pensar quais teriam sido os motivos ou medos que a congelaram, mas nos seus próprios medos e motivos. Será que ele também estava se congelando? Lembrou-se de ter lido certa vez que cerca de 87% das coisas que nos metem medo jamais chegam a acontecer de fato, 6% podem ser influenciados por nós e apenas 7% acontecem. Então a questão é: vale a pena nos preocuparmos com aquilo que tememos?

Ao fim do dia, o vazio que não era fome havia desaparecido.


segunda-feira, 8 de março de 2010 1 goles

O MUNDO É SEU

Um trecho de um poema de Maria Resende....

"Uma mulher pode ser um porto ou um abismo
E pode ser os dois
E é"

Tanto nos abrigamos em vocês como nos perdemos também.

Muitos homens se dedicaram a entendê-las, classíficá-las, decifrá-las, sem perceber que um ser superior e enigmático como a mulher não pode  ser assim conhecido.

Elas são as protagonistas neste grande palco que é o mundo e nós homens, meros coadjuvantes. Nos gabamos dos "grandes feitos" sem notar que grandes feitos mesmo foram e sempre serão o que elas fazem diariamente.

Só nos resta amá-las e muito o que viver ao lado delas. E haverá algo melhor para se fazer? Sim. Agradecer a dádiva de tê-las conosco e por elas suportarem nossas vãs fantasias. Por nos dar alegria de viver e fazer desse o melhor dos mundos. 

Mulher, nunca se esqueça de que este dia é apenas um símbolo. O mundo é seu e todos os dias também.


quarta-feira, 3 de março de 2010 3 goles

SONHOS VENDIDOS

Uma das lembranças mais fortes que trago de minha adolescência  são os devaneios filosóficos com os amigos, e  para isso nem precisávamos de parar num boteco. Hoje a maioria deles já não se incomoda com todas aquelas questões transcendentais que habitavam nossas mentes e corações. Queríamos mudar o mundo. Éramos teatrólogos, cartunistas, cineastas, poetas,  fanzineiros, químicos, atletas, filósofos... Acreditávamos nas pessoas e sobretudo no amor. 

Aquele mundo já não existe mais. Outro dia me encontrei com um amigo dessa época e ele me disse com todo o saudosismo que lhe cabia que daria tudo para voltar àquele tempo, pois era mais fácil ter crises existenciais do que crises financeiras. Foi inevitável não me lembrar de uma antiga crônica do Fabio Hernadez onde ele diz que a vida se encarrega de colocar uma calculadora em nossas mãos e por mais que lutemos, ela ainda estará lá, regendo todos os nossos passos.

Sonhos trocados sabe-se lá como por calculdoras?

"Nossos sonhos são os mesmos há muito tempo, mas não há mais muito tempo pra sonhar" (Humberto Gessinger)
Será esse o fim de todos nós?

 
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