quarta-feira, 28 de abril de 2010 8 goles

UMA DESPEDIDA

Os dois, exaustos e bêbados chegaram a casa dela. Ela havia dito que se despediria logo e o abraçou com ternura. Trocaram algumas palavras sem nexo. Um longo beijo, molhado e barulhento. Depois ela colocou a cabeça no colo dele e cochilou sem perceber. Passava da 01h30min da manhã. Nunca tinham voltado tão cedo nem ficado bêbados com tão pouco. A despedida que seria curta acabou sendo bem longa. Ele ficou brincando com os cabelos dela enquanto ouvia sua respiração. Os olhos pesados de sono. Porém, permaneceu acordado. Velando o sono dela. Tinha medo da violência da cidade e espiava os espelhos do carro a todo instante, mas também não queria acordá-la de um sono tão bom, bem ali, aconchegada em seu colo. Nunca a tinha visto tão frágil, tão entregue, tão sua. Então uma luz se acendeu na janela da sala que dava para a rua. Ela acordou rapidamente. Não devia ter dormido. Antes de descer do carro e fechar a porta eles se beijaram novamente, sem saber que seria pela última vez.


(extraído de um conto escrito em 2001)
quinta-feira, 15 de abril de 2010 7 goles

COMO NUVENS PELO CÉU

Naquele tempo ele subia a escada de caracol todos os dias após o almoço e deitava-se na chaise branca que ficava de frente para a grande janela do segundo andar. Dali ele olhava o céu  através da vidraça. Nuvens passeavam despreocupadas e sem direção através da imensidão azul. Para onde vão? Não estar em lugar nenhum e em todos os lugares. A idéia dessa viagem sem partida nem chegada seduzia seu coração e o fazia passar os dias imaginando o que encontraria pelo caminho. Sempre com um livro nas mãos. Dalton Trevisan, Graciliano e Milan Kundera eram os preferidos. Lia um ou dois capítulos e fechava os olhos desejoso de dormir e sonhar com tantos lugares que nunca conheceu.

Enquanto isso pássaros piavam no quintal, furavam mamão ou catavam gravetos. Amarelas e azedinhas eram as ameixas de dar água na boca que caiam no chão, pois ninguém as queria. A pitangueira era do contra. Jamais dera uma pitanga sequer apesar de ser a árvore mais estimada do quintal. Amamos aquilo que é raro. O mundo lá fora era tão complicado. Talvez fosse esse o motivo de querer permanecer na chaise branca, vendo aquele céu calmo e lendo Trevisan, Graciliano e Kundera, pois enquanto aquelas estórias difíceis permancessem numa resma de folhas costuradas tudo estaria bom. Afinal, já tinha passado por cada coisa...

Foi numa tarde de outono que aquela guria apareceu e mostrou para ele que havia tantas coisas a viver. Estavam no meio da estrada e sem direção assim como as nuvens no céu, mas foi tão bom saber que não estava mais sozinho.
domingo, 11 de abril de 2010 4 goles

REENCONTRO


 Éram três amigos. Marvin, Dom Jegon e Bogodã.  Beberam muito naquele dia. O botequim que frequentavam era lugar de muitas anedotas e tinha por apelido o título de “Boteco Boca de Porco”. Ele ficava no centro, meio escondido por entre os prédios de uma curta alameda toda calçada com paralelepípedos. A rua chamava-se Dona Rafa Cecílio e possuía muitas amendoeiras, velhas e altas, que deixavam o ambiente sempre escuro e úmido. O bar funcionava num cômodo comercial bastante antigo, com tijolos aparentes, mesas de madeira, bancos bem altos rodeando o balcão, grandes vidros com diversos tipos de conservas, uma mesa de sinuca no centro e nas paredes havia vários pôsteres de famosas nuas, além de um enorme calendário de pesca. A iluminação era um tanto precária, meio amarelada. Num canto havia uma pilha de engradados de cerveja e nos fundos, prateleiras com os mais diversos tipos de bebidas nacionais e importadas incluindo até mesmo garrafas de absinto verde. O piso e o teto eram cobertos por tacos de madeira, ambos bastante castigados pelos cupins. Do lado esquerdo, nos fundos do boteco havia um princípio de infiltração no teto. Apesar da aparência um tanto hostil e degradada não era menos vil que o resto do mundo. De lá mesmo podiam sempre ver ambulâncias transitando com a desgraça à bordo.

Era noite de lua cheia e se encontraram numa mata próxima a um bairro da periferia. Era final do mês de junho e o mato estava castigado pela estiagem. Caminharam mata adentro até encontrarem o local exato, aos pés de uma gameleira antiqüíssima. Lugar de muitas lendas. A noite foi caindo enquanto conversavam animadamente. As primeiras estrelas apareceram para decorar o céu que se encontrava magnificamente límpido. O luar iluminava o ambiente de forma que podiam observar claramente o desenho noturno das poucas árvores retorcidas, a grama alta e ressecada, alguns arbustos aqui e ali. O de cabelos longos ficou fascinado pelo céu que se apresentava permanecendo um longo tempo calado, apenas admirando-o e certamente viu cada estrela transformar-se no brilho dos olhos daquela guria por quem estava apaixonado na época.

O de óculos contou sobre um livro que comprara num sebo. Ele dizia que os antigos faziam pactos com o demônio debaixo de gameleiras como aquela, que essas pessoas os chamam poeticamente de “mensageiros" e que feito o pacto logo aparecem uma porca com sete pintinhos mamando em suas tetas, e sete leitões acompanhando uma galinha simbolizando a troca. Eles riram. Não acreditavam em diabos.

O baixinho jogou alguns cristais de sal na terra, formando um círculo ao redor deles. Acenderam um incenso de musgo do carvalho e depois uma fogueira. Em seguida o de cabelos longos retirou da mochila uma agulha e fez um furo no dedo indicador. Os outros não se incomodaram nem um pouco e foram logo espetando o metal contra a carne. Todos de dedo furado... só restava consumar o ato.

–Cada um de nós agora é um elo da corrente doravante eternizada. Não é somente nosso sangue que se une nos tornando irmãos, nossas almas também se fundem e nos tornam muito mais poderosos. Daqui para frente estaremos sempre juntos ainda que separados.

Aquilo não era somente um elo entre eles, era também um elo com o passado.
quarta-feira, 7 de abril de 2010 8 goles

NUM BREVE OLHAR

Foi num dia de comidas pesadas que se conheceram. Nuvens pesadas. Na cabeça, pensamentos pesados, nebulosos, chorosos. O chumbo do céu derreteu-se numa chuva pesada, tensa e refrescante. O vento arrancava as folhas das árvores e as roupas dos varais. Levava os pensamentos e os sonhos para junto de onde moram os anjos e depois de volta para as sombras tão palpáveis e intragáveis daquela tarde. Estaremos errados pelo sim ou pelo não? O talvez é mesmo capaz de deixar a vida mais atraente? No silêncio o burburinho. A música ensurdecedora. Passos soavam como marchas. Riram juntos. Caminharam juntos. Comeram juntos e beberam. Ele com seus velhos óculos olhava para ela em suas roupas soltas pairando sobre a pele que só faziam aumentar a imaginação. O ombro direito à mostra. Depois fizeram pose para fotos ao lado de pessoas desconhecidas. Sorrisos amarelos. Hora de partir. Antes de se despedirem trocaram telefones e e-mails e se falaram dia após dia.

Gibran diz que o que existe fora também existe dentro e tudo o que há dentro também existe fora. Diz que nenhum limite separa as coisas próximas das remotas, nem as mais baixas das mais altas, nem as menores das maiores. Uma simples gota d`agua contém todos os segredos do mar e um só átomo contém todos os segredos da terra. A descoberta de si mesmo equivale à descoberta do universo. Quem se vê a si próprio vê a essência da vida.

De minha parte digo num complemento que não completa que sorte e azar não são forças à parte, não são experiências místicas. São só nomes para definir o que julgamos ser bom ou ruim num determinado momento, pois o que tem de ser será e por isso mesmo, não é bom nem ruim, apenas é.

Mais tarde, após uma seqüência de desencontros eles se reencontraram. Bastou uma noite e nesta noite bastou um breve instante para que seus olhos se encontrassem profundamente. Um sorriso discreto escapou a ambos. O mundo parecia ter se congelado, estava suspenso, imóvel, calado. Nada de boca seca, nem coração em disparada, nem suor nas mãos, nem pernas bambas, nem gaguejar nas palavras... apenas uma boa e estranha sensação sustentada por um simples olhar.

Gibran também diz que ao procurarmos algo só encontraremos aquilo que já existe em nós. Que terá sido aquele instante de silêncio e profundidade?
quinta-feira, 1 de abril de 2010 8 goles

UMA BANDA DE ROCK

 Montou uma banda de rock com a irmã, o namorado dela, um primo e um vizinho. 

Ele queria ser vocalista, mas sua paixão mesmo era o bamdolim e isso irritava. O baterista vendeu a bateria para dar entrada em uma moto. O baixista vendeu o baixo logo em seguida e não se sabe o que fez com o dinheiro. O guitarrista emprestou a guitarra para a banda da igreja do irmão que era pastor e ela nunca mais voltou. Ele jamais aprendeu a tocar seu bandolim, tão pouco aprendeu a cantar. Sobrou o violão da irmã e umas 10 canções que compuseram juntos. Fizeram muito sucesso tocando na garagem quando a família se reunia aos domingos para churrascos e macarronadas...

Ainda se pega pensando em como teria sido se tivessem seguido adiante. Estariam nas paradas fazendo 300 shows por ano ou tocando em alguma churrascaria em troca de um rodízio? Não, talvez uma vida média, porém  fazendo o que tanto gostavam. Era o suficiente. Mas bastou uma moto, uma graninha, um favor, um gosto um pouquinho diferente e pronto, tudo mudou.


 
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