segunda-feira, 31 de maio de 2010 6 goles

A ÚLTIMA LIÇÃO

Abro uma velha caixa de sapatos. Dentro dela reviro as cartas da minha adolescência. Penso em como foi bom, em tempos de Internet, poder ter tido a experiência de trocar cartas. A ansiedade e alegria que nunca mais sentirei. Separo algumas de um grande amigo que se mudou para uma cidade distante.

Ele sempre foi atemporal. Um profeta do tempo como diria Henry Miller. A previsão? "O tempo continuará ruim". Inversamente a isso sempre com uma postura positiva. Não em relação ao mundo, mas em relação a si mesmo. Um positivismo pessoal e muitas vezes intransferível. Um positivismo partilhado somente com aqueles que julgava muito importantes, ou que pudessem fazer parte de algum dos seus planos. Por dentro, mil revoluções. Sonhos de eternidade misturados ao sonho de ter sido pai aos 15 e de morrer aos 30. Mais de uma vez trocou meu nome, até em carta. Chamou-me Danilo. Certo, eu sei que se parece muito. Sonhos de mudar o mundo ou de botar fogo nele. Medo dos cabelos brancos, das rugas e das memórias esvaecerem. "Um homem sem memória não é ninguém". Uma vontade exacerbada de se rebelar da forma mais inusitada e ultrajante lhe percorre as veias.

Se me perguntam o que ele tem de especial, pois afinal não passa de um louco, respondo com toda a confiança e certeza do mundo que devo muito do que sou a esse maluco e serei eternamente grato por isso.

E dá-lhe revolução. De ateu a crente. De crente a místico. De místico a ateu. De perversão em perversão. Muda cara e nome. Projetos, projetos, projetos... Vícios e manias. A mente inquieta. O mundo é dos desassossegados. Meu anti-herói favorito por muito tempo, mas não mais. É exatamente isso o que ele quer. Cansou de ser um exemplo a ser seguido. O fato de alguém que faz as coisas do seu jeito ser visto como algo diferente, como exemplo a ser seguido só mostra o quanto o mundo está doente. Jamais ligou para o mundo. Não é exemplo de nada.

Numa bela manhã usa a internet para dar bom dia aos que julga desgraçados. Um cumprimento me chama a atenção: "Bom dia pra você que é artista e acabou de passar no concurso público para agente penitenciário". Eu, que havia acabado de prestar um concurso, ainda que fosse dentro da área em que me formei, senti o puxão de orelhas. Sou formado e sou artista. Tenho a obrigação de fazer do meu jeito e de ter a total liberdade de desfazer a qualquer momento.
segunda-feira, 24 de maio de 2010 7 goles

DE COMO PERDEMOS NOSSO CORAÇÃO


 Faltavam poucos minutos para a meia-noite. Todos já tinham dormido. Acendi um incenso de flor-de-laranjeira e fiz uma oração. Comecei a pedir por todas aquelas pessoas importantes em minha vida. Pelas que se foram, seja pela morte, seja por simplesmente estarem de passagem. Pedi pelas pessoas que por alguma razão insondável permaneceram. Por aquelas que não me deixam sair dos trilhos e também por aquelas que um dia virão. Que chegarão sem pedir licença e sairão do mesmo jeito, sem ao menos um pedido falso de desculpas.  As pessoas vêm e vão: fato.  Posso até escolher quando algumas virão e chegarão, mas na maioria das vezes isso, como quase tudo, estará fora do meu controle. Paro e penso e termino por agradecer por isso também. "Obrigado por deixar as coisas fora do meu controle".

Ação e reação. Tudo está determinado. As coisas estão dispostas de tal maneira que nada pode ser diferente do que é. Penso em Spinosa. Para ele a ilusão dos homens de que suas ações resultam de uma livre decisão da mente é consequência de eles serem conscientes apenas de suas ações enquanto ignoram as causas pelas quais são determinados, o que faz com que suas ações sejam determinadas pelas paixões. Vemos os fatos, mas somos ignorantes quanto ao que levou a esses fatos. Daí a falsa sensação de liberdade e livre-arbítrio. Somos como uma pedra que ao ser atirada pensa que tem total controle sobre seu trajeto, até que uma hora ela cai.

Polêmicas à parte isso me levou, ao final da minha oração, a recapitular, dividir, classificar, separar e agrupar as várias pessoas que estiveram ao meu redor. Por alguma razão pensei na vida amorosa de vários amigos meus. No que eles acreditavam e buscavam quando ainda ensaiavam o primeiro beijo e no que acreditam e buscam hoje. Quanta diferença. Dou um longo bocejo e apago a luz. Talvez a amizade seja mais importante que o amor? Pelo menos é algo mais certo. Como novilhas na fila do abatedouro vamos sendo empurrados para o mesmo fim. Trágico fim. Mas, será que é mesmo trágico? Vou seguindo o caminho oposto. O tão desgastante caminho oposto. Sinto-me cansado. Ainda creio que não importa em como, quando e onde será o fim disso tudo. O que importa é o caminho. Se estamos sendo empurrados ou não, talvez seja questão de ponto de vista, talvez seja covardia, talvez seja (in)compreensão.

Mas, não pude deixar de pensar que assim como todo homem (no sentido de humanidade) nasce sem preconceito, todo homem (no sentido de homem mesmo) nasce romântico e que o fim de qualquer coisa sempre será indigno, ainda que não saibamos o motivo que a fez nascer.
terça-feira, 11 de maio de 2010 10 goles

UMA FESTA

Olha as horas no telefone celular mais uma vez. Não, ela não vem pensou ele. Não que ela tivesse desonrado um compromisso. Na verdade havia lhe dito com bastante antecedência que não poderia acompanhá-lo aquela noite. Já tinha compromissos marcados, assim como ele também tinha o seu. Mas e se ela entrasse por aquela porta? Vestido branco de tafetá, cabelos escovados, perfume doce de dar água na boca e os olhos de amêndoas que ele tanto venerava? Então ela lhe diria "mudei de idéia, eu vim aqui só pra ficar com você". Vai até o banheiro. Dá um tapa no próprio rosto para acordar de vez. "Paciência" repetiu para si mesmo, "amanhã nos veremos, melhor aproveitar a festa".

Volta e se senta. Bebe um copo de cerveja num só trago. Escorre um pouco no canto da boca. Certifica-se de que ninguém viu a trapalhada. Troca algumas palavras com a aniversariante. É apenas a segunda vez que a vê . A amiga que os apresentou há algumas semanas atrás vai ao segundo andar para colocar as fofocas em dia. Antes de subir lhe dá um tapinha nas costas, "interage aí". Sentiu-se um cachorrinho sem dono. Olha em volta, não conhece mais ninguém ali. Enche seu copo novamente. Todos sentados ao redor de uma mesa enorme formada por várias mesas de festa colocadas em fila. O silêncio é tão grande que na sua cabeça é como se um corpo estivesse estirado sobre a mesa. Alguém comenta que está parecendo festa de família, todos ali sentados e comportados. Um rapaz começa a conversar animadamente com uma guria, a mais bela da festa. Ele ainda não sabe, mas isso vai durar até as 03h30min e não vai dar em nada. Uma mesa de truco é formada num canto. A dona da festa tomando tereré. Uma guria está de "pilequinho" de tanto refrigerante com vodka. Um naco de carne parado na garganta só desce com mais um copo de cerveja.  No meio de tudo isso, volta e meia lembra-se dela. Uma música na cabeça, "Tolices" do Ira! Por algum tempo sente como se ele mesmo tivesse composto letra e melodia. "Será que eu devia ter vindo?"

O que faz  uma festa ser boa de verdade? Sim, claro, quando todos se divertem e basta apenas um único chato para por a diversão de todos em risco. Alguém desliga o som e pega um violão. Um outro trás um cajon. Forma-se uma roda ao redor dos músicos. Quando a amiga desce com uma jarra de batida nas mãos, encontra o amigo nos vocais, animadíssimo. Ninguém desconfia que sua cabeça, no entanto, está sintonizada em outra freqüência.
 
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