quarta-feira, 30 de junho de 2010 10 goles

UMA DESPEDIDA

Rebecca e Pietro. O amor de infância havia sido proibido desde sempre. Primeiro pelos pais. Depois pelo oceano. Se pensava nele lembrava-se de olheiras e garatujas. Se pensava nela lembrava-se de um sorriso furtivo e de morangos. Seguiram seus caminhos esquecendo-se mutuamente. Estudaram, viajaram e tiveram outros amores. Até que um dia já crescida, ela voltou.

Os primos encontraram-se num parque da cidade numa tarde de verão. Cores vibrantes com o sol que se abrira depois de uma chuva passageira. Ele ainda lembrava olheiras e as garatujas agora eram desenhos de prédios e condomínios. O sorriso dela já não era nada furtivo, mas o perfume de morango estava presente no brilho labial. Algumas coisas teimam em permanecer, em resistir ao tempo. Não eram mais os mesmos, mas se acharam melhores. Ele gostava do simples com a mesma devoção com a qual gostava do sofisticado. Ela tinha feito tatuagens e pintado o cabelo de vermelho. Ele a ensinou alguns acordes no violão. Ela o ensinou a dançar. Ele ainda morava com os pais e ela dividia o aluguel de uma casa com uma amiga. Dali eles passaram a se encontrar todos os dias e apesar de já serem adultos resolveram manter o namoro em segredo por mais algum tempo. O proibido os excitava demasiadamente. Seus encontros amorosos jamais terminavam antes do nascer do sol. Ver o nascente sentindo o calor e o perfume da pele um do outro se tornou um grande vício. Nessas horas faziam os planos mais bobos e eternos que dois apaixonados podem fazer.

Combinaram de passar um domingo inteiro juntos. Saíram de carro bem cedo, sem um rumo certo. Pararam numa pequena cidade vizinha. Ali compraram doces, vinhos, queijos e chocolates. Tiraram centenas de fotos. Depois almoçaram num restaurante de beira de estrada. Comida caseira, cheirosa e apimentada. Pegaram uma estrada de terra e foram parar numa cachoeira. Afastaram o calor nas águas cristalinas. Depois se amaram sob a sombra frondosa de uma figueira. Ele havia levado um narguilé.

- Podia ter um pouco de maconha... - disse ela depois de um trago
- Como é que é? - perguntou ele surpreso.
- Brincadeira seu bobo.
- Linda essa sua tatuagem na virilha, Você foi corajosa.
- Ah, eu tive meus tempos de loucura.
- Sei.
- E você não teve?
- Tive sim, claro, mas...
- Mas loucura não se mede – ela completou.

A tarde foi caindo e resolveram voltar. Ao chegar tomaram um café gelado: sorvete de creme, leite condensado, canela, granulado, chantili e conhaque. Depois foram para o barzinho onde costumavam se encontrar. Ali beberam e riram a noite toda. Combinaram que no dia seguinte abririam o jogo para suas famílias.

Os dois, exaustos e bêbados chegaram a casa dela. Ela havia dito que se despediria logo e o abraçou com ternura. Trocaram algumas palavras sem nexo. Um longo beijo, molhado e barulhento. Depois ela colocou a cabeça no colo dele e cochilou sem perceber. Passava da 01h30min da manhã. Nunca tinham voltado tão cedo nem ficado bêbados com tão pouco. A despedida que seria curta acabou sendo bem longa. Ele ficou brincando com os cabelos dela enquanto ouvia sua respiração. Os olhos pesados de sono. Porém, permaneceu acordado. Velando o sono dela. Tinha medo da violência da cidade e espiava os espelhos do carro a todo instante, mas também não queria acordá-la de um sono tão bom, bem ali, aconchegada em seu colo. Nunca a tinha visto tão frágil, tão entregue, tão sua. Então uma luz se acendeu na janela da sala que dava para a rua. Ela acordou rapidamente. Não devia ter dormido. Antes de descer do carro e fechar a porta eles se beijaram novamente, sem saber que seria pela última vez.

Ele quis perguntar qualquer coisa, mandar um abraço para a amiga dela que ele ainda não conhecia ou pelo menos dizer que a amava, mas não teve tempo ou reflexos pra isso. Com algum esforço ligou o carro e se foi.

Na manhã seguinte junto ao corpo de Rebbeca havia um bilhete escrito "Porca imunda" escrito em alemão. Pietro sempre pensou que ela voltara por sua causa. Jamais imaginou que ela apenas fugira de um ex-namorado.

Algumas coisas teimam em permanecer e outras em esvanecer.
quarta-feira, 23 de junho de 2010 11 goles

QUEM DERA FOSSEM SÓ LIVROS

Acho que já disse isso antes: "livro só se empresta aos melhores amigos, mas os melhores amigos nunca pedem livros emprestados". Então que emprestei livros que nunca voltaram e verdade seja dita, acabei fazendo o mesmo. Agora por exemplo dou uma olhada para a minha coleção. Exatos 37 livros. Biblioteca modesta, eu sei, mas são os meus tesouros. E qual o primeiro livro dessa coleção? "O alienista" de Machado de Assis e ele foi um livro que peguei emprestado, pois é. Nunca pensei em pegar um livro e nunca devolver, apenas aconteceu.

Um outro que gosto muito é "Parábolas" de Gibran, mas esse foi mais uma troca. Deixei "O alquimista" de Paulo Coelho, peguei “Parábolas” e a troca jamais foi desfeita. Bom, existe uma parábola no livro de Gibran que me lembrei hoje. Nela ele conta a história de um poeta que escreveu uns versos de amor, tirou algumas cópias e enviou para alguns amigos. Uma cópia, por alguma razão foi parar na casa de uma mocinha que se enamorou pelas belas palavras do rapaz, imaginando que ele as escrevera exclusivamente para ela. A moça o procurou afim de combinar as bodas e ele explicou que aquelas eram as palavras de um poeta. Palavras de qualquer homem para qualquer mulher. Ela prometeu odiar os poetas para todo o sempre.

Pensei nesse texto porque, assim como esse poeta, também já escrevi dessa forma e não foram poucas vezes. Discordo quando dizem que só escrevemos sobre o que sentimos, sobre o que vivemos ou o que gostaríamos de ter vivido. Acredito muito na capacidade de criação. As idéias dos personagens, por exemplo, não necessariamente expresssam as idéias do autor. Mas, confesso que depois do blog tenho escrito muito mais com o meu coração que com o coração dos "outros" e talvez por isso tenha escrito menos. Não que meu coração esteja vazio, mas bem pelo contrário.

O mago escreveu certa vez que existem coisas que sempre serão nossas justamente porque não podemos possuir. Está certo. Em outros casos, é que às vezes se possui mais as coisas que são dos outros que as coisas que são da gente e por via de regra, algumas pessoas possuem mais algo que é nosso do que nós mesmos. Mas, quem dera fossem só livros.

sexta-feira, 18 de junho de 2010 3 goles

O ÓBITO PROMETIDO

E naquele regato descansei
Como as folhas das figueiras
E meu pequeno colibri
Comigo nesta morte sorrateira
E também em tudo o que vivi

A correnteza sutil
Das termas águas de abril
Enlevam meu descanso
"Bucólico por si só"
Meu descanso nestas águas...

Pequeno ribeiro encarnado
"Eis nas tuas águas"
Morto e empalhado
E para sempre nesta veia
Hei de descansar

Galhos retorcidos de ingazeiras
Debruçam-se para te lamber
"Oh arroio! Minha casa!"
"Teu deleite é meu deleite"
"Água aos que tem sede!"

Veres-me sofrer poderá
Sentimentos e seu lençol agora um só
Livrei-me de tudo quando enfim me deitei
O teu leito me é protetor
"Não, eu não te maculei"

As coisas agora se confundem
Mas é isso, tudo é uma coisa só
E meu descanso também pode
Se misturar ao fio dàgua
Que diferença faz agora?

"Oh ribeiro, sepulcro protetor!"
Leva minhas idéias nas águas até o mar
Que não mais verei nem voltarei a amar
Brota na tua margem grande capinzal
"Paca, onça, anta! Sereia tão mortal!"

Colibri pequeno se desfaz na imensidão
O regato, o córrego, o arroio, o ribeirão.
"Estou morto nestas águas - enfim!"
Com as próprias mãos busquei meu fim
E o curso destas águas sem querer: meu funeral

Peço a Deus para que não me encontrem
Antes das águas encardidas das chuvas de verão
Lavarem-me as carnes
"Oh liberdade! Felicidade que a muito fui privado!"
"Paz! Oh paz, maldita seja!"

Agora submerso nessas águas...
Que água? Só há lama
Ribeirão infesto com meu sangue
Quis ferir-me,
Quis fechar-me os próprios olhos

Inda me lembro do remanso avermelhando-se
"Uma graça"
Lembrei-me de Moisés
"Serei contigo"
E tudo se esvai pelas mãos e pelas águas

Só tenho a ti agora
Frias águas que me protegem
"Não sei do quê, mas hei de descobrir"
E o pequeno colibri, leve pobrezinho
A correnteza levou

Nenhum anjo veio me buscar
Nenhum pareceu querer me proteger
"Mas, tanto faz isso agora já que finei"
Sozinho nas águas e sem sentir frio
Fiquei no corpo que não respirava, não mais se afogava.

Os olhos do corpo fechados para sempre
Os olhos da alma abertos como nunca
Eu olhava por horas inexistentes
Árvores crescidas donde era o capinzal
Com flores e ninhos nas pontas

"Oh, se os olhos do corpo estivessem abertos"
Já que parti desta vida, mas não parti desta terra
Inveja dos vivos, maldita inveja dos vivos
Mas os olhos do corpo estão trancados
E o corpo está perdido no leito do regato

O corpo agora se desfaz depressa
Nas águas que o acolhem
Impressão que ela o devora
Ribeirão raso, lama profunda.
"E não posso nem espantar uns poucos pirralhos!"

Não vejo vermes debaixo dágua
Mas vejo vivos, malditos vivos do lado de fora
Regato me deu lar?
"Deu-me miséria, me deu prisão!"
Donde vou?

Corvos, urubus, abutres lhes convoco
Deliciar-se-ão com meu defunto
Quem sabe assim me desapego
Quem sabe assim alguém me escuta
"Oh anjo, oh senhor, me ajuda!"

Não tenho frio nestas águas
Tão pouco sinto calor.... Calor humano...
Nem que fosse aos braços de uma meretriz
Ou de um cão, mesmo que raivoso fosse
Mas, que me ouvisse!

Oh mulheres
Oh tesouros
Feristes meus sonhos e meus corações
Solidão, solidão, solidão
Quis partir, foi melhor assim?

Queimei a minha vida
E a morte apaga mais que o ribeirão
Queria apenas contar boas estórias apenas
Depois me abraçar, me debulhar
Abrir-me, cuspir de volta todas as maldições

Quem me ouve?
Quem me vê?
Nem marolas do regato eu ouço mais
Somente vejo vivos e meu corpo que se desfaz
"Socorre-me anjo! Até Lúcifer me deixaste?"

Maldita seja moça tinhosa
Que se deitou com caboclo
Nas margens deste mesmo ribeirão
Fizeram-me com ternura
E sem abrigo jogaram-me numa rua

Mingüei, mingüei, cresci, vivi
"Não! Não vivi! Sofri!"
"Quis não mais viver e faleci!"
Resisti, insisti e no fim, com minha morte consenti
E mesmo depois de morto eu sofri e sofro

Devia ter paz, mas nada me deixa de bem
Nem com os mortos que não me visitam
Nem com os vivos que não me encontram
Tenho raiva e inveja até mesmo, veja só
"Dos lagartos vadios de barriga para o sol"

Desmereço a vida
Ora, pois que me esqueci de tudo
Absolutamente tudo o que ela poderia me oferecer
Estive tão perto da felicidade
"E não tive olhos para ver!"

Devera ter arrancado meus olhos
Sim, tê-los tirado antes de morrer
Desprezei quem me amava
Fui desprezado por quem amei
"Dai-me permissão grande maestro? Não, ele não dá"

Quando entrei em desgraça
Derramaram-me confiança, paz, ombros fartos
E me fecharam as portas, as mãos e o amor
Quando enfim tive sucesso
E de volta na desgraça: "continuam sumidos"

Só queria um pouco de atenção
No fundo só um pouco de atenção
Só queria alguém que olhasse para mim e me ouvisse
E estou sozinho até depois da morte
"Oh desgraçado que sou!"

Nem santo, nem anjo, espíritos de luz
Mas, tudo bem afinal
Tenho meu regato calado
Não sei se me ouve
Mesmo assim regurgito estes sofreres

Rumino meus sonhos secretos
Aqueles que jamais se fizeram concretos
Às vezes falo, ouso dizer
Esperando de volta umas poucas palavras
"Não precisavam nem ser amigas!"

Vez ou outra me lembro, sim
Lembro-me de alguém tentando me ajudar
Falando mais que ouvindo
Cuspindo saliva com seus melhores conselhos
E feliz fui ter com ele agradecimentos

Mas, somente foi assim desta vez
E voltei novamente infeliz a ser
Deu-me novamente seus conselhos
Nem pude falar muito
E tudo deu errado, muito errado

Meteu-se em minha vida com seus dizeres
"Deixa-me respirar! Permita-me me defender!"
Perdi meu caminho,
Perdi tudo e um pouco mais
"E sozinho de novo, não! Como sempre!"

Só precisava me desabar
"Desatar-me!"
Talvez não precisasse partir desta vida
Viagem inevitável antecipada
"A vida deixada pra trás e o sofrimento continua!"

E agora num mundo estranho
Não ouço nada, não sinto nada
Nada além da inveja dos vivos que deixei
Vejo pássaros, mas não ouço o gorjear
"Maldita seja morte"

Mas não queria ter morrido
Mesmo com tanta dor
Mesmo com tanta disputa e miséria
No fundo, só queria chamar a atenção
"Poderia ter sido você a me ajudar!"

Roubei e me droguei
Quis matar alguém
Disse que queria me matar
E foram tantas vezes! só pra chamar a atenção
Maldito regato onde cai

Maldito lugar que escolhi
Maldito lugar riozinho que me acolheu
Se não por isso teriam me parado
Se não por isso teriam me salvado, me escutado
"Esse era o verdadeiro alvo disso tudo e nem eu sabia!"

Talvez um dia eu os perdoe
Talvez um dia eu me perdoe
Perdoe o colibri que comigo não ficou
E quem sabe desta forma
Não me apareça o Senhor




Nota: Parabéns por chegar até aqui! Rsrsrsrs A exatos 10 anos atrás escrevi esse poema. Um amigo contou-me que havia tentado suicidar-se e procurando entender a cabeça dos suicidas frequantei durante um fim de semana um mini curso no CVV da minha cidade. Cheguei em casa e escrevi isso, assim de uma só vez, como um médium que psicografa uma carta urgente. Na época disseram para meus pais que deveriam me levar ao psicólogo, outros disseram que não devia ser  eu o autor.  Não deram bola nem para uns nem para outros, ainda bem.
quinta-feira, 10 de junho de 2010 9 goles

OS OLHOS DE QUEM LÊ

Chegou em casa todo trêmulo. Tomou um longo banho quente. Lembrou-se do quanto dizem que o banho é um momento bom. Hora de relaxar. Um dos poucos redutos da privacidade num mundo cada vez mais vigiado. Para ele um momento em que as lembranças adormecidas voltavam para atormentá-lo. Depois vestiu um moletom e ainda com as perturbações do cotidiano na cabeça procurou algo para comer.

Pensou em algo que comemorar. Nada encontrou. O vento soprava e o frio entrava pela casa toda. Trancou a porta e fechou as janelas. Enrolou-se numa coberta e sentiu-se um xamã com um casaco de lobo nas costas. Tomou um café sem açúcar e foi ver um pouco de televisão. Passou a vista por todos os canais e mais uma vez nada encontrou e então se lembrou do porque não assistia mais televisão. Nada mais que recortes mal feitos e mal costurados.

Em momentos assim gostava de escrever. Neste dia resolveu fazer um retrospecto de tudo o que já havia produzido. Com um sorriso discreto olhou para tudo que já havia se passado e rabiscou numa página uma confissão:

"Lugares comuns, frases feitas, lágrimas teimosas, palavras vulgares, momentos banais, diversos tratados, uma queda dos anjos, termômetros astrais, culturas de violência, luxúria, pára-choques de caminhão, concentrações capitais, narrações históricas, registros e no fim, não mais que impressões de almas sensíveis... Para arrancar dessas almas o sublime.

O sublime. Aquele momento mágico presente em tudo e que ninguém mais vê. Bastaria-me mais um segundo, um leve toque, um breve olhar, respirar com calma, sorrir e imaginar. Bastaria um pouco para fazer de tudo o que é comum um algo mais. Para enxergar aquele detalhe que faz de tudo único. E aí me vejo impossível sem ele. E o universo todo um palco mágico onde tudo pode acontecer e acontece. E eis que descubro mais uma vez que onde está o igual encontramos o diferente. Que onde está o igual surge não só o real, mas o surreal.

Acabo de reencontrar um lugar mágico, onde o que sinto pode vir sossegado e sem pretensão, pois que a arte não é a realidade de uma navalha no pescoço, mas a vida maravilhosa que se esvai pela ferida. Ou como disseram sobre os contos de Dalton, manter a vida no texto (ou em qualquer arte) é como empalhar um pássaro sem que ele deixe de cantar.

Mas com certeza devo confessar que os olhos daqueles que leêm melhoram muito as palavras."
 
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