terça-feira, 20 de julho de 2010 15 goles

SÓ UM SORVETE

Você se senta num banco qualquer do corredor do shopping. As pessoas passam por você. Parecem todas saber para onde vão. E você ali. O cabelo penteado com as mãos, sua calça xadrez, All star sujo e a barba por fazer. Um largado na vida. Seu bem mais precioso está entre suas orelhas, mas o mundo só quer saber do que você tem nos bolsos. Apesar de trágico você olha em volta. Tudo te parece tão normal.

E você cansado de saber que a vida é feita de encontros e desencontros. Você que espalha aos 4 ventos a filosofia de que coincidências não passam de fatos necessários e que a mística dos acontecimentos está no simples fato de sermos ignorantes diante do grande emaranhado de coisas. Você que diz não se assustar com nada que acontece no mundo. De repente se vê lépido quando enfim a matemática incalculável da natureza lhe pega de assalto. No fim, sempre há alguma mística em nossos corações, ainda que tímida e disfarçada. Justamente nessa hora você avista lá ao longe uma figura conhecida vindo em sua direção. Ela se aproxima e não é que é alguém que você desejava encontrar? Então, você que não se considera um cara lá muito romântico, por obra do desconhecido reencontra pela segunda vez em menos de uma semana aquela guria linda que você não via fazia anos. Nota que às vezes se vê e se fala mais com quem está distante do que quem está perto, mas não tem como completar o pensamento. Você logo nota nela um semblante mais descontraído que da última vez. Será porque agora ela está sozinha? Vestido lilás com motivos florais. Dessa vez o que ela tem nos pés você nem viu, pois o decote não deixou. Você se levanta para cumprimentá-la e ela lhe dá aquele abraço. É impressão sua ou ela colocou um perfume afrodisíaco?

- Nossa! Quanto tempo! Como você está?
- Comigo tudo bem e com você?
- Estou bem também. Me desculpa não ter falado com você aquele dia.
- Ah que isso, não tem problema não.
- Ah... Você não quer tomar um sorvete comigo?

Como assim? Não há tempo para se calcular o perigo, aliás, a vida é o que está por um triz. Vocês se sentam. Pedem sorvetes enormes. E você tem uma das conversas mais agradáveis que  já teve nos últimos tempos e rir junto te  faz tão bem. Um pensamento: porque vocês não se conheceram antes, ou melhor, porque não conversaram antes? Porque razão aquelas carteiras no colégio serviram de trincheira separando vocês dois? Dessa vez você tinha razão: ela é um anjo. Na hora mais animada da conversa o celular dela toca. É impressão sua ou ela fica um tanto inquieta. Ela olha para trás. Você espia mineiramente. Nisso ela já vai se levantando.

- Me desculpa, mas eu já tenho que ir.
- Tudo bem - você responde meio desapontado.

Ela lhe entrega um cartão de visitas. Pede para você ligar em horário comercial.

- Foi muito, muito bom te encontrar Bruno - e vai indo embora.

Você olha bem para o cartão que tem o mesmo perfume perturbador e o joga na primeira lata de lixo que encontra. Você a vê se afastar e só consegue pensar em uma coisa: meu nome não é Bruno caramba!

Ao longe ela se encontra com um japinha pançudo que ao que tudo indica está prestes a fazer um sashimi.

segunda-feira, 12 de julho de 2010 6 goles

HORA DE PARTIR

Foi no ano 1988. Lembra-se do ano, mas não se lembra do mês. Já era bem tarde e estavam à luz de velas. Os móveis ainda fora dos seus lugares. O quintal todo de terra. A rua sem asfalto. Canto de coruja. Quase todos os terrenos ao redor serviam de pasto, pois não havia muitas casas e um vizinho que tinha uma chácara aproveitava para soltar as suas vaquinhas. Correr na chuva, soltar pipa, chutar bola... Mas, hoje se olha pela janela já não se vê o horizonte. Ali cresceu, fez amigos e viveu seus primeiros amores. E os anos se passaram. Depressa demais.

E quando menos se espera já é tempo de partir. Seja para onde for. Tempo de viver tudo quanto se pode viver. Até mesmo sem saber se viveria sua própria loucura ou a loucura dos outros.

Pouco antes de cruzar a porta e deixar para trás todo o seu passado, alguém chega e lhe diz para não se preocupar. Promete aos prantos que quando ele voltasse, as horas passariam do mesmo jeito, as pessoas estariam iguais e as estrelas ocupando o mesmo lugar no céu. Ele sorriu. No seu íntimo tinha certeza de que quando voltasse ele é que estaria diferente.

domingo, 4 de julho de 2010 9 goles

NA CHURRASCARIA, UM ANJO

Aquele amigo que você não vê há tempos te liga repentinamente. Primeiro você não acredita, depois já pensa no favor que ele com certeza pedirá. E não é que ele te convida para jantar e tudo por conta dele? Você tenta ao máximo disfarçar a decepção com a própria mesquinhez e se põe contente com o convite, sequer esconde o fato de não ter absolutamente nada pra fazer em plena noite de sábado ou de não ter ninguém para te acompanhar.


Ao chegar você fica um pouco mais aliviado ao perceber que ele chamou outros amigos e você não vai ter que ficar "de vela". Você entra e logo vê uma velha conhecida. Sabe aquela guria que sentava no outro lado da sala quando você estava no primeiro ano do ensino médio? Aquela mesma que nunca conversou com você? Sim, é ela. E finalmente você percebe o quanto ela é linda. A cabeleira em mechas alouradas, aquele rosto de expressões delicadamente lapidadas. Jeans, bata, adereços vermelhos, scarpin branco. Impossível não observá-la dos pés à cabeça. Cabe uma dica, jamais se esqueça dos pés na hora de se lembrar do que usavam no primeiro encontro. Mais que depressa você toma a iniciativa junto aos amigos e escolhe uma mesa que fique bem de frente à dela e senta-se de forma que fique livre para observá-la sem que o acompanhante dela te veja, uma vez que ele ficou de costas pra você. Não é que ela espera que ele olhe para o lado para enfim te cumprimentar, desabrochando o sorriso sincero de alguém que encontra um amigo numa ilha deserta?

E claro, o motivo do repentino encontro: seu amigo, aquele que se casou e exigiu que você fosse o padrinho, vai ser papai. Pelo tamanho e qualidade da festa vêm a sua mente aquelas fotos de família de imigrantes. Pelo menos uns 20 filhos. Não seria nada mal. Somando a isso o fato de ser aniversário do cara e você nem lembrava, assim como não se lembrava que ele e a esposa tentavam ter um filho já fazia 5 anos, mais uma vez se decepciona e se acha o maior cretino da mesa. Em meio a isso, seus olhos não desgrudam da sua velha conhecida bem ali, na sua frente. É impressão sua ou eles não trocam nenhuma palavra? Se estiverem num momento ruim porque não ficaram em casa? Afinal, todos ali estão contentes, conversam e dão risadas animadas. Ela olha para os lados, te ensaia um sorriso, mas não faz. Sorri apenas com os olhos e no seu íntimo sente que não precisa mais que aquilo. É como se os dois tivessem feito uma leitura um do outro e tivessem percebido a situação. Quase um pacto. E a cena toda até que combina com o DVD de flashback que está rolando.

Ela se põe a ler a "bula" de uma lata de refrigerante. Pela sua concentração ela não apenas decorou as informações nutricionais como deve saber também o número do lote e endereço da fábrica. E a velha mania de colocar poesia em tudo lhe consome: e não é que o esmalte laranja combina com a lata da mesma cor? Enquanto isso o marido, sim o marido, pois que nessa hora também percebe a aliança na mão que segura a lata. Bem, o marido, uma japinha pançudo, se empanturra de carne como se não houvesse amanhã. Como não há dialogo entre os dois e o tédio parece ter tomado conta ela apóia a cabeça na mão com um palito de dentes no canto da boca. Alguns talvez pudessem achar aquilo feio, mas você sente um imenso respeito. É como se eles estivessem ali apenas para "cumprir tabela". Nisso você toma um copo de chope de uma só vez ao imaginar o "apenas cumprir tabela" com uma mulher daquelas, como é que pode? E os dois ali, cada um olhando para seu próprio vazio. Então ela resolve dizer as únicas palavras que você vai ouvi-la pronunciar a noite toda. Ela pede ao marido que feche a conta.

Começa a tocar “'I Have A Dream" do ABBA.

“I believe in angels”, sim, você acredita em anjos e você poderia ser aquele que a resgataria e a traria de volta à vida. Ela o anjo que daria mais cor aos seus dias. E o marido o anjo que poderia levar os dois ao inferno. Ao passar por sua mesa mais uma vez ela ensaia um sorriso, mas não o faz e nem precisa. Você disfarça e muda o olhar de direção enquanto ela enfim se vai. Ambos num mudo adeus.
 
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