terça-feira, 24 de agosto de 2010 6 goles

QUANDO TODOS OS AMIGOS VÃO EMBORA

Lá fora o ar seco e frio regela o espírito. Recolheu as garrafas vazias. Despediu-se dos amigos mais uma vez e desabou no sofá. E num instante o silêncio avassalador inunda o mundo. Seus olhos fixos no led vermelho da tevê desligada. Fixos no nada. Levantou-se aos trancos e barrancos e foi até o banheiro. Sequer se despiu. Na madrugada fria a água quente caindo sobre seu corpo cansado.  Na cabeça um pensamento constante. Já tinha pensando e sentido isso outras vezes. O sonho de tão distante causava-lhe medo e revolta contra o próprio coração. Sabia que mesmo quando parecia que o sonho havia adormecido ele era na verdade algo perene e isso o angustiava ainda mais. Depois de quase 30 minutos abriu os olhos. Fez um movimento circular com as mãos limpando o vapor no espelho do banheiro. Vontade de gritar para o mundo todo ouvir, mas não. Olhou-se longamente. Já foi o tempo de ter medo de entender que as coisas são como elas são. Então, é melhor que ela não saiba nunca. Ela que já é sua para sempre. Mesmo que  nunca vá saber como é o seu sorriso ao acordar toda despenteada, ou como é ouvir seu coração com o ouvido colado ao seu peito ou ouvir sua respiração ofegante bem de perto. Mesmo que nunca vá sentir qual o sabor de sua pele suada ou como seria fazer planos por longas horas preguiçosas das manhãs de domingo enquanto comem o que sobrou de uma pizza de chocolate.

Verdade que o amor verdadeiro só acontece uma vez na vida? Bom que tenha acontecido, mesmo que seja impossível?

Melhor dormir para que o tempo voe, pois amanhã os amigos voltam com o bálsamo de suas risadas e  preencherão novamente esse vazio.
terça-feira, 17 de agosto de 2010 0 goles

O BECO

Passavam das 2 da manhã quando enfim, o motorista do táxi encontrou o beco e estacionou frente à casa de Bogodã. Barulhenta. A casa estava muito barulhenta. Burburinho, música brega, bombinhas, gritos de mulher bêbada e de jogos de carteado. A fumaça da gordura que jorra sobre as brasas ora irritava as narinas, ora provocava desejos de engorda. O portão de grade todo enferrujado estava trancado a cadeado. Tocaram a campainha mais de 10 vezes. Bateram palmas e soltaram gritos violentos. Dois guris de uns 7 ou 8 anos passaram correndo perseguindo um gato listrado e pisotearam as flores que a mãe de Bogodã havia plantado no jardim. Ele gritou com eles zangado espalhando palavrões e saliva aos quatro ventos. Os guris olharam para eles muito espantados, gritaram e saíram correndo desesperados para dentro da casa batendo a porta de um jeito que sempre irritava o pai de Bogodã. Após uma pausa silenciosa pediram para o taxista aguardar um momento.

- Vamos pular o muro - cochichou Bogodã tentando se acalmar.

- Da sua própria casa? - perguntou Dom Jegon acendendo um cigarro.

- Se não quiser fique aí, tenho que saber o que está acontecendo.

- Claro que nós vamos com você - disse Marvin tomando o cigarro de Dom Jegon e apagando-o no chão com o pé.

Ágeis como ladrões saltaram o muro sem chamar a atenção. Foram até a porta da frente onde os guris haviam entrado. A porta estava trancada. Pela janela viram várias pessoas dentro da casa. Bogodã não reconheceu nenhuma delas. Bateram nas janelas e gritaram novamente, mas ninguém percebeu.

- Marvin o que você acha?

- Tão estranho pra mim quanto deve estar sendo pra você. Não será uma festa surpresa que seus pais planejaram pra você?

- E por qual razão eles não chamariam meus amigos e primos?

- Vamos logo até os fundos e descobrir quem são essas pessoas - disse Dom Jegon acendendo mais um cigarro.

Atravessaram o longo corredor que levava até os fundos da casa. O caminho estava repleto de pratos e copos descartáveis, espetinhos de madeira, garrafas e guimbas de cigarro. Uma parte do corredor havia sido usada como mictório. Por mais festeira que fosse a mãe de Bogodã ela jamais permitiria tamanha bagunça. Quando alcançaram à varanda nos fundos da casa o povo todo se calou e ficou olhando para eles com certo espanto.

- Quem são vocês? - perguntou Bogodã.

- Que pergunta é essa seu moleque. Eu é que pergunto o que vocês tão fazendo aqui? - retrucou o churrasqueiro que se portava como o dono da festa.

- Como assim? - disse o baixinho. - Acontece que por acaso eu moro aqui!

- Então, você invade a minha casa - disse o churrasqueiro apontando uma faca para eles - e tem a petulância de dizer que essa casa não é minha seu maconheiro!

- Mas eu moro aqui!

- Essa casa é minha. Acho melhor vocês saírem antes que eu chame a polícia ou perca a cabeça.

Bogodã ajoelhou-se no chão e repetia: moro aqui, eu moro aqui! Com lágrimas nos olhos cheios de fuligem. Marvin ficou parado ao seu lado sem reação enquanto Dom Jegon, já com um copo de cerveja na mão puxava conversa animadamente com uma guria.

- Quer que eu prove? Eu provo!

E meteu-se o churrasqueiro dentro da casa. Bogodã quis ir atrás dele, porém Marvin o impediu. Pouco depois o homem voltou com a escritura do imóvel e até contas em seu nome. Entregou-as para Marvin que silenciosamente leu os documentos que datavam de mais de 10 anos. Depois se ajoelhou ao lado do amigo. Explicou que o homem possuía documentos que provavam que a casa não podia ser dos seus pais. Nisso o homem pediu mais uma vez para que fossem embora. Marvin ajudou Bogodã a se levantar, pediu desculpas ao dono da casa e os dois se retiraram atônitos. Ao chegar ao jardim Marvin voltou para a varanda e trouxe Dom Jegon puxado pelo braço enquanto ele gritava para a guria com quem já trocava beijos "ainda ficaremos juntos" "nunca vou te esquecer" e ainda "eu te amo com todas as minhas forças!".

Do lado de fora o táxi já tinha ido embora.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010 13 goles

DEPOIS DA CERCA

Não precisava nem fechar os olhos para lembrar, mas quando eles estavam fechados conseguia sentir até o cheiro daquelas manhãs, a suave saturação da paisagem transbordando nos olhos inebriados de sonhos e o doce sabor das siriguelas na boca.

A primeira vez em que esteve lá ainda gozava do aconchego da barriga de sua mãe, que num descuido seguido de um ótimo reflexo e tantas outras coisas sem explicação quase interrompeu a jornada dos dois na Terra ao cair da escada que ficava na porta da cozinha, grávida de 8 para 9 meses. Mas as estórias daquele lugar eram muito mais antigas do que isso. Se te perguntarem qual a primeira gravura que você já viu, o que lhe vem a mente? Para ele sempre aparecia em sua cabecinha a figura de um grande peixe riscado de giz atrás da porta. Desenho feito como o das crianças que começam a esquecer as garatujas e começam a traçar o contorno das mãos. Aquele dourado era tão grande que ele ficava imaginando o coitado que ficou lá segurando o bicho enquanto o outro fazia o heróico desenho.

A casa antiga com um pequeno jardim. Tramelas pra fechar as portas. As janelas de madeira. Água no pote. Couro de jacaré secando na cerca. Hambúrguer de capivara assando na brasa. Depois do jantar os homens saiam para armar suas redes. De longe ele que era ainda muito pequeno para acompanhá-los observava a canoa desaparecer no leito do rio. As mulheres ficavam em casa com as crianças. Pinga com rapadura e doce de leite. Os pescadores voltavam pouco depois. Grandes risadas. Depois jogos de carteado, piadas, estórias de assombração e mentiras de pescador. Antes de o sol sair já iam eles novamente recolher os peixes antes que garças, biguás, jacarés e lontras fizessem festa. Dourados, mandis, tucunarés, traíras, curimbas... Tia Tereza levantava-se, como se diz, junto com os passarinhos. Preparava chá de canela, biscoitos de polvilho, pão de queijo, leite tirado na hora... Depois corria até o paiol e voltava debulhando algumas espigas de milho e num instante um mar de frangos e patos no quintal. No almoço, carne de porco, peixe frito com limão, jacaré a milanesa, pamonha de sobremesa. Na época das goiabas o chão todo lambuzado de vermelho e do tacho vinha o cheiro da goiabada dando água na boca.

Quando os primos se juntavam era uma farra. A molecada toda na carroça indo roubar melancia no vizinho que acabara de os presentear com um queijo mineiro delicioso. Passar perto do ninho dos quero-queros só pra sentir o ar do vôo rasante dos pássaros que só não eram mais raivosos que uma nelore com cria que corria atrás dos carros ou das caixas de marimbondo que caiam sob suas pedradas. Os guris esperando o sabão ficar pronto para lavar as mãos com a rapa do tacho na beira do rio. Comer amora, laranja, abacate, manga e mel. Depois pegavam umas frutinhas que pareciam balões só pra ficar estourando. Lá eles aprenderam a nadar, a soltar pipas, a pescar e fazer guerras na lama. Aprenderam a não ter medo do escuro, a tirar bicho-do-pé, andar no cavalo Biriba, a diferenciar os passarinhos só pelo gorjeio e tirar carrapichos do cabelo antes que as mães vissem.

Até que chegou o dia em que a tia teve de partir para a cidade. Hoje, quando ele fecha os olhos para rever tudo isso, não consegue deixar de ver também aquele menino calado diante da porteira que se fechava pela última vez encerrando todos os finais de semana felizes que vivera ali. Ele entra no carro, todos os primos calados. Uma última olhada para trás para jamais se esquecer do nome daquele lugar: "Fazenda Paraíso".


Com colaboração da minha irmãzinha Priscila, parceira de tantas e tantas traquinagens...
 
;