quarta-feira, 22 de setembro de 2010 9 goles

DESSA VEZ O MUNDO

Então ele não resistiu e olhou mais uma vez pela janela do ônibus. Ela não estava lá. Melhor que fosse assim. Uma lembrança amarga a menos. Lembrou-se do fatídico dia em que acordou e se olhou no espelho todo espantado ao perceber que já não sabia mais quem era. Saíra para um breve passeio fora de si e quando percebeu os anos o haviam aprisionado a uma vida absurdamente perfeita e artificial. Quase como estar morto sem ter morrido. O que pode deixar um homem mais cansado e desesperançado que a sensação extrema de paz e tranqüilidade?

Sempre apegado aos pequenos detalhes, reparou nas pessoas lá fora, será que elas realmente sabem para onde estão indo? Sentiu-se melhor por acreditar não ser o único a estar perdido, saindo de lugar nenhum para chegar não se sabe onde. Fechou a cortina. Colocou os fones no ouvido e deitou o banco ao máximo.

Novos sonhos eram necessários, sempre são. Ou os sonhos te acompanham e crescem junto com você ou tem de ser trocados de vez em quando. Depois afastou o que era seu e também o que só parecia, pois já não lhe interessavam. Restaram apenas seus sentidos e uma liberdade deliciosamente perturbadora. Não haveria outro caminho? Ser devorado por um sonho é terrível pensou ele desejando nunca mais passar por tal coisa. Esse era o caminho.

Refez seus planos mentalmente, na verdade era tudo bem simples: dessa vez o plano sou eu. O jovem que sonhava em mudar o mundo estava de volta.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010 6 goles

E VOCÊ O QUE QUER GUARDAR PARA O AMANHÃ?

Toda a aventura humana, ainda que a contra gosto da grande maioria, não passa de um breve parêntese no grande ciclo das coisas. Este seria um bom motivo para se fazer o que realmente importa.  O bem de verdade é bem para todo mundo. Mas, a gente se apega facilmente ao que nos parece um bom caminho para a eternidade. Nos agarramos com todas as forças porque temos uma única certeza que é a de saber o que nunca saberemos. Então, preenchemos o vazio que nos atormenta. E pode ser uma religião, algum movimento humanitário, alguma a arte, um vício, a ciência, a filosofia, o prazer, o amor, o crime, a boemia, a luta pelas baleias ou até pelas baratas. Algo que nos faça pensar que somos mais e nos leve para a redenção, que seja aqui e agora, que seja num futuro que não se sabe ao certo como e quando vai ser. Quase sempre enclausurados  e amordaçados em  verdadeiras masmorras, porém basta uma pintura aqui, um vaso de flores acolá e pronto, está feita a tal zona de conforto. Eis o nosso quinhão.

Queremos que sorrisos, beijos ardentes, manhãs de sol, tardes com chuva, barras de chocolate e garrafas de vinho sejam para sempre. Assim como o reflexo jovem diante do espelho, o fôlego, joelhos e memórias. Queremos que a cor não esmaeça, que o cheiro não saia nunca daquela roupa esquecida e que os arranhões nas costas ou a pele sob nossas unhas permaneçam como prova perpétua de entrega ou conquista.

Eis que o nosso herói disse sim quando na verdade devia ter dito não. Mas, como saber a resposta certa sem ter tentado ao menos? Disse sim, ainda que o horizonte fosse nebuloso e controverso. Fato era que havia uma pequena fagulha, uma centelha, uma fração tão pequena e ao mesmo tempo tão rara de felicidade que ele quis perpetuá-la, ainda que envolta num emaranhado de torturas diárias. Ainda que perdida num oceano de tempestades no interior de sua alma. Ah, sua alma. Ela que só poderia suportar enquanto estivesse ébria pela paixão.

Dizem que aquilo que não é eterno é eternamente inútil. Sorte nossa que entre o ponto de vista do Criador e o nosso há um abismo intransponível.
 
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