domingo, 24 de outubro de 2010 7 goles

O GURI DO SHOPPING CENTER

O jovem casal caminhava pelo corredor que dava para o hiper mercado anexo ao shopping. As mãos dadas. Sorvete italiano. Aquela sensação de vida plena que o início dos relacionamentos carregam por natureza. Quando as incertezas cobrem-se de belas rendas e coloridas flores. Num sono polifásico, mas talvez a certeza enlouqueça mais do que as dúvidas.

De longe a moça avistou uma criança. Um menino de uns 3 anos chorava andando de um lado para o outro. As pessoas, apressadas e cegas por opção, passavam por ele como se ele não existisse. Ela não teve dúvidas: o guri só podia estar perdido. Puxou o namorado pela mão até chegarem perto da criança. Abaixou-se e começou a conversar com o menino tentando acalmá-lo. Perguntou sobre os pais dele e qual era o seu nome. Miguel ele disse entre soluços. Ela o pegou no colo e os três foram para o interior do supermercado. Procuraram o gerente que mandou anunciar pelo auto-falante. Num instante apareceu o aflito pai  do guri que com um sorriso de plena satisfação e alívio agradeceu o casal. Disse muitas coisas que o nervosismo tornou incompreensível, a não ser a explicação de que se distraíra por um segundo e o menino desaparecera. Então agradeceu mais uma vez apertando as mãos do casal desejando-lhes toda a felicidade do mundo. Depois se foi com o filho nos braços dando-lhe beijos e abraços.

O rapaz olhou para a namorada que sorria satisfeita ao ver pai e filho se distanciarem e desaparecerem em meio a multidão. Naquela hora o rapaz sentiu vergonha, porque ele assim como toda aquela gente que por ali passava, não teria tido a mesma iniciativa, mas também orgulho da namorada e teve certeza de que tinha encontrado a pessoa certa. Pelo menos por enquanto.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010 3 goles

MAIS UMA NOITE

Mais uma noite que avança. A vontade era de ter ficado em casa mofando, mas os amigos insistiram. Eles sempre insistem. Nessas horas surgiam na sua cabeça idéias que fugiam ao seu controle. Duas forças contrárias, como uma faca separando sua cabeça em duas partes. De um lado elas apareciam como um grilo falante que tentasse de alguma forma convencê-lo de que os amigos pudessem estar certos. Como não passasse de um personagem em sua cabeça logo o grilo era uma arma de auto-convencimento burro, suicida e covarde. Pensamento corrente era lembrar-se de que há quem diga que os amigos de verdade são aqueles que nos dizem o que precisamos ouvir e não aquilo que queremos. Porém, antes de se convencer desta grande verdade o outro lado bradava em alto e bom som que por mais amigo que alguém pudesse ser como poderia ter certeza do que ele precisava ouvir? Gente desta laia, assim como os grandes adivinhos, deveria ser rica e feliz. E quando dava por si já era tarde demais. Voltar agora era impossível. Reprovava-se balançando a cabeça levemente. Uma vez fora de casa seus passos já não eram seus. Eram da noite.

Conversas forçadamente animadas. A bebida matando os loucos neurônios. Farão mesmo alguma diferença? Não naquela noite e isso lhe bastava. Um pedaço de carne salgado e gorduroso desce mansamente. Saboroso. De aroma inconfundível. Carne vermelha, salgada e gordurosa... Ele poderia escrever um ensaio sobre isso ali mesmo caso não tivesse esquecido sua caneta. A caneta. Nada mais sobrara do nerd metido a intelectual. Escritor promissor. Agora um adulto seríssimo (e triste) perdido entre pilhas e pilhas de folhas com vida própria e que se movem sobre sua mesa como dunas de areia no deserto. Esquece a caneta e conforma-se com o fato de que os guardanapos seriam insuficientes para compor o volume necessário. Uma única certeza: um filósofo de boteco que se preze teoriza em guardanapos. Depois vieram os passos desajeitados na pista de dança. Um amigo oferecendo um maldito cigarro. Não basta dizer não. É preciso tomá-lo de sua mão e atirá-lo no lixo. Em sua rota de fuga dá de cara com ela: a guria que por tanto tempo ocupou seus sonhos. Um homem pode se esquecer de tudo, do que foi e do que não foi só não pode se esquecer dos seus amores, ainda que não correspondidos. Ainda assim reflete que na verdade ela seria o único motivo cabível para que ele estivesse ali. Firma as vistas. Ela está tendo aulas de pole dance? Admite torcendo o nariz: ela até que tem algum talento. Antes que pudesse engolir seu puritanismo ele tropeça numas garrafas e vai ao chão.

Acorda com a cabeça apoiada sobre as coxas dela e tendo os cabelos afagados carinhosamente. Um sorriso se abre e a noite acaba sem deixar de ser eterna.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010 1 goles

IGUALDADE AOS DESIGUAIS E SEM IMPOSIÇÕES, POR FAVOR

Já tinha até feito uma promessa para mim mesmo de não tocar nesse assunto por aqui, mas tudo bem. Algumas promessas devem ser mantidas enquanto outras nascem para serem quebradas. É que já vi e li e conversei tanto sobre isso que parece tudo saturado, porém parecer não é o mesmo que ser não é mesmo? E afinal, quando é mesmo que um assunto se esgota? Onde está o ponto final das coisas? Entre tagarelas e filósofos emudecidos como eu haverá algum consenso? O fim. De tudo talvez na morte, mas há sim muitas dúvidas quanto a isso e de certa forma são dúvidas belíssimas e aprazíveis. Talvez não para todos, mas são. Eis o ponto: não para todos.

Nesses tempos de política o desejo de se impor tomou proporções assustadoras. E ninguém parece, a meu ver, se preocupar em ter um julgamento mais profundo das coisas. A mídia nivela tudo por baixo e a gente julga as informações com mais superficialidade ainda. É preciso estar atento, pois a informação está cada vez mais veloz, porém cada vez menos real e o mundo não nos dá mais tempo para nada. Mas o pior de tudo é que ainda assim tentamos impor ao outro a nossa opinião. Normalmente é assim: é preto ou branco, macho ou fêmea, luz ou escuridão, doce ou salgado, alto ou baixo, rock ou pagode, bem ou mal. Olho pela janela em busca do caminho do meio e só o que vejo são bipolaridades comuns a uma sociedade maniqueísta, mas em pleno século XXI? Sim senhor(a)! E a política apenas torna isso mais sensível, visível aos olhos, palpável mesmo. Esse estranho desejo está em tudo. Quem nunca impôs ou cedeu num relacionamento ou nunca viu uma queda de braços de um vegetariano contra a sociedade consumidora de carne? E dá-lhe discussões sobre o casamento gay, aborto etc, etc. A sucessão presidencial tornou-se um verdadeiro concílio. Ora, o estado tem a obrigação de dar cidadania a quem quer que seja e quanto ao que é pessoal que continue pessoal. Não se pode colocar aquilo que é ruim para todos no mesmo patamar do que é uma decisão pessoal que em suma não afeta ninguém, mesmo porque são coisas que sempre existiram e vão continuar existindo, quer queira quer não.

Percebo que a vontade de impor parte de ambos os lados, tanto da maioria quanto da minoria. Não quero falar do que é certo ou é errado, quero falar do seguinte: porque respeitar nunca é bastante? Porque na cabeça das pessoas o mundo perfeito é aquele onde todos gostam e amam as mesmas coisas?

Auto-sabotagem: e cá estou eu querendo impor às pessoas que elas abram suas mentes!
 
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