quinta-feira, 4 de novembro de 2010

DO QUE SE PERDEU

O rapaz caminhava pela cidade sob um sol escaldante e ser consumido pelo sol não é nada agradável.  Naquele tempo trabalhava fazendo pequenas cobranças para uma pequena, porém tradicional loja da cidade.  O dono da loja morria de medo de veículos de duas rodas. Por conta disso fazia as cobranças de ônibus, mas naquele dia resolveu ir caminhando para economizar o dinheiro.

A cliente da vez era uma pequena empresária, dona de outra loja só que de confecções e era casada com um deputado federal. Ainda assim era forte candidata a cliente mais enrolada do ano pela terceira ou quarta vez consecutiva. Como de costume mandou dizer que não estava. O rapaz ouviu a notícia como quem ouve uma mentira repetida prestes a virar verdade. O sol. Naquela tarde o sol parecia ainda mais quente que o de costume e ainda mais quente na volta que na ida. O rapaz resolveu se sentar no banco de uma praça debaixo da sombra refrescante de uma sibipiruna. Dali avistou uma guria que lhe pareceu simpática. Continuou ali sentado, observando o movimento com certo receio de que algum conhecido de seu patrão o visse ali todo tranqüilo em pleno horário de trabalho. Ficou a olhar alguns pombos que brigavam para comer uma casquinha de sorvete bem aos seus pés. Levantou as vistas e percebeu que a moça então mirou os olhos nele. Ela o observou por um tempo ensaiando um sorriso. Depois veio caminhando discretamente, ou melhor, timidamente em sua direção. Ela então parou na frente dele e disse:

- Oi... -hesitou um instante e por fim perguntou - Guilherme?

O rapaz ficou todo espantado. Como aquela desconhecida sabia o seu nome? Quem ela era? Tentou vasculhar as gavetas empoeiradas da memória, mas não havia tempo. Levantou-se e respondeu meio desconfiado:

- Sim, sou eu.
- Eu sou a Fernanda.

 A guria o abraçou num cumprimento cheio de afeto.

- Tudo bem com você?
- Tudo, mas... Fernanda de onde?

Ela ficou meio como alguém que acredita estar caindo numa brincadeirinha a toa e deu um risinho todo inocente.

- Sou a Fernanda! Do msn!

Ele permaneceu em silêncio apenas olhando para ela, talvez tentando encontrar a peça que faltava naquele quebra-cabeça. Aquele silêncio era capaz de deixar até uma estátua de bronze sem graça.

- Você não é o Guilherme do Santa Marta?
- Não, eu moro no Jardim Europa.

Ela ficou tão vermelha que parecia que ia morrer ali mesmo.

- Olha me desculpa, mas acho que houve um mal entendido.

A moça respirou fundo. Deve ter contado até 10 e nesse intervalo ido ao inferno e voltado.

- Tudo bem. Eu é que te peço desculpas. É que marquei com uma pessoa... - e antes de terminar a frase ela já foi se afastando e indo embora.
- Espera! - ele pediu, mas de nada adiantou. Ela se foi para nunca mais. 


* Extraído de um tempo em que a internet era discada, cara e rara. Não se baixavam músicas tão pouco vídeos. Não existiam tantas redes sociais nem tantos blogs e o mais importante: não havia foto no perfil do msn. Mas por outro lado a internet tinha certo romantismo que já não existe e nem voltará a existir.

5 goles:

  1. Putz... Boa!!! Nem eu me lembrava de que a internet foi romantica em algum momento!
    =D

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  2. Eu mesmo vivo me esquecendo disso!

    Bjos

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  3. Tô aqui pensando, será que era eu?
    ahahahhaah

    E o barulhinho da internet discada? delicia!

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  4. HAHAHA
    Eu vivi a época do mirc, da internet discada...
    Mas nunca acreditei em coisas reais e duradouras através dela. Estranho isso vindo de mim. Essa falta de crença romântica nem combina comigo.
    Amor, amizade...Através de uma tela... Sou tão antiquada que acho meio surreal. Até já fiz um amigo que morava em outra cidade, nos encontramos... Boas lembranças... Mas a internet adora pregar peças como a dessa história! kkkkk'(ou piores, até!) =P
    Estou esperando ser convencida do contrário: que a internet pode nos dar mesmo pessoas queridas, unir almas amigas, ligar duas ou mais vidas... Até agora o destino tem trabalhado bem pra isso, vamos ver se ele me convence.
    =]

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  5. O Barulhinho! Como eu pude me esquecer!!

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    Pode deixar que vou dar uma ajudinha pro destino!
    Bjos

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