terça-feira, 23 de novembro de 2010

NUM BOTECO SUJO

O suor fez seus pés deslizarem sobre os chinelos empoeirados. E agora grudentos. Sua carteira tinha ficado no banco do carro uns 10 Km dali. Sentou-se na sarjeta e contou as moedas no seu bolso. Descobriu um buraco. Sorte os cobres ainda estarem ali. Com o que tinha podia comprar uma garrafa de água ou refrigerante. O telefone celular fora de área o obrigara a pegar carona com um desconhecido até ali. Deu uma conferida, ainda sem sinal. Talvez fosse melhor perder o rumo de casa que perder-se de si mesmo ele pensou. Sempre tão certo. Tão cheio dessas certezas poderosas como cristais.  Dali ele pode ver um enorme cão malhado e de estranhos olhos claros. Um estranho vigilante sentado aos pés de uma porta enferrujada. Uma gota de suor desceu pelo seu rosto. Salgada. Levantou-se e foi na direção dele que o acompanhou com os olhos. Atravessou a porta.

Lugar apertado. Todas as mesas ocupadas. Cheiro de mofo e cerveja. Velhos de olhos amarelos como os de quem tem os rins doentes. Olhou rapidamente para o teto. Luz amarela e teias de aranha. Ninho de morcegos no forro. O senhor careca de bermuda e sandálias veio atender-lhe. Canelas brancas. Pés rachados. Pediu um refrigerante. Antes de abrir o freezer ele se serviu do tira gosto de uma mesa próxima do balcão. Reparou no vidro de salsichas em conserva. Há quanto tempo estariam ali?

Atrás do balcão havia uma porta que dava para o interior da casa. Móveis torneados. Antigos. Sofá coberto com uma capa feita de fuxicos coloridos. Uma televisão fora do ar. Uma mulher muito gorda e coberta de tatuagens dormia um sono agitado, talvez cheio de fantasmas. Os velhos olhavam o rapaz em silêncio. O homem careca abriu o frezzer, pegou primeiro uma cerveja para outro cliente e só depois o refrigerante. Pagou e saiu. O refrigerante estava quente e suas mãos ficaram com cheiro de cigarro só de tocar o balcão. Do lado de fora o guincho com o carro havia chegado e ele já podia sonhar em nunca mais voltar naquele lugar. Mas foi aí que as coisas começaram a mudar.

4 goles:

  1. Hum...
    O que será que vem depois?
    Adoro a forma descritiva com que você escreve, me faz mergulhar nos amibientes que vc cria...
    Eu visualizo perfeitamente!
    Vejo as cores, formatos, se vacilar ainda sinto os cheiros...
    E os tipos que você retrata são tão comuns, e por isso mesmo fascinantes... Zilhões desses por aí e eu aqui a ler sobre eles.

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  2. Rodrigão... sempre mestre na arte de captar os imperceptíveis detalhes da vida! Sempre admirando seu estilo.

    Ab.
    Pê.

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  3. Calma meninas, tem final logo logo

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    Obrigado Pê, a admiração é reciproca!

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