quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

DAS CONVENÇÕES

Era uma senhora muito gorda e de pele morena e ar maternal. A caminhar vagarosamente arrastando seus chinelos. O andar desajeitado. Balançava levemente a cabeça. Atravessou o refeitório em seu silêncio habitual e enquanto passava as pessoas cochichavam umas com as outras. Riam baixo. Escondiam a voz, mas não os olhares. Uma das cozinheiras então disse para ela colocar a blusa para fora da calça, que estava muito feio. Ela respondeu que estava tudo bem. A cozinheira insistiu 'gente gordinha como nós não se veste assim, fica muito feio, parece que sua barriga tem o dobro do tamanho'. A senhora ensaiou um sorriso e prosseguiu seu caminho lento dizendo que se sentia bem daquele jeito, que não mudaria nada.

Incompreensível para ela ter de agradar aos outros em algo que ela desconhece totalmente. A calça para dentro ou para fora não mudaria em nada sua condição. Continuaria sendo a mesma pessoa que ela sempre foi. A senhora muito gorda de pele morena e ar maternal que caminha devagar arrastando os chinelos e que foi abandonada pela família desde bebê naquela instituição por ser totalmente cega.  

3 goles:

  1. Surpreendeu-me.
    Eu gosto disso.
    Gosto dos tipos que você cria - já disse isso - ou nem cria, capta (e expressa tão do seu jeito...)
    Eu senti inveja dela: sabe quem é, está bem com isso...

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  2. Sem falar que esse pequeno excerto da vida real encerra em si mesmo uma profunda verdade filosófica...

    Ótima percepção.

    Pê.

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  3. Te surpreender é o máximo Keu!
    Alguns tipos que retrato são mesmo reais, mas apenas alguns. Este é um deles.

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    Praticamente todas as nossas convenções são baseadas naquilo que vemos com os olhos, jamais com o que vemos com o coração.
    Um abraço meu amigo!

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