sexta-feira, 30 de dezembro de 2011 1 goles

A Espera

Então é aquela vontade de ir marcando um "X" em todos os dias do calendário que se tornaram totalmente dispensáveis. É aquela vontade de, como num desenho animado onde tudo se pode, ir até o relógio e correr as horas com os dedos. É aquela vontade de dormir uma semana inteira, ou duas, três, quantas forem necessárias para que você finalmente acorde no tão esperado dia e quando esse dia chegar... aquela vontade de ter um calendário com um só dia que se repete 365 vezes, aquela vontade de ver todo e qualquer relógio parado para sempre, aquela vontade de não dormir nunca mais a não ser que seja ao lado da pessoa que você sempre esperou. 

Talvez seja só o medo de que essa espera seja como a espera da esfinge, que silenciosamente aguarda ser desvendada, sabendo que jamais será. Medo de que o "se for pra dar certo vai dar certo" acabe se transformando num eterno final de semana sentado no sofá, com a tevê sintonizada num programa chato que anuncia a segunda-feira. É esse medo de ser o impossível de alguém. De ser o quase, o talvez, o "e se".  Medo de um "não era amor, era só espera".

Daí você inventa e fantasia. Seu consciente ou inconsciente (você já nem sabe mais, aliás, tantas são as coisas que você já nem sabe mais) te monta uma cena toda favoravelmente brega e perfeita e feliz, que é pra você aguentar a barra, ou se quebrar em dobro depois. 

Mas é preciso abastecer o carro, pagar as contas, montar planilhas. É preciso se preparar para dar uma desculpa qualquer ao seu chefe para poder fazer aquela entrevista noutra empresa. É preciso dar atenção aos seus amigos, até mesmo para aquele chato que te deixa entediado ou aquele que debocha dos teus planos. É preciso limpar a casa e organizar os livros da estante. É preciso ouvir aquele disco ou ao menos limpar a poeira que grudou nele. É preciso acordar cedo, dormir tarde, fazer sua caminhada e comer só meia fatia do pudim. É preciso levar seu cachorro ao veterinário e marcar o dia de tirar o siso. É preciso aguentar conversa sobre futebol, comentário de novela e os memes que pululam na rede social. É preciso almoçar fora de casa todo dia, resolver pepinos e assumir coisas que nem sempre são suas. É preciso arriscar sem se arriscar. E é preciso... esperar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011 3 goles

Laila


Na porta da escola o sol a pino. A menina está calada. Ela lê qualquer coisa numa apostila volumosa enquanto aguarda pela van sentada na calçada em frente ao colégio. Os amiguinhos em volta fazendo algazarra. Apenas mais uma menina de uniforme branco, vermelho e cinza que se mistura na multidão na hora da saída. Apenas mais uma a não ser pelos óculos de armação grossa e preta. Óculos pesados para os seus sete anos. Assim como o seu velho par de sapatos. Passou tanto tempo com eles que já fazem parte dela. Vivem uma simbiose. Seu sorriso tão doce e ao mesmo tempo tão traquinas.  Ela gosta de correr, de ver desenhos animados e de comer chocolates.  Tem uns poucos amigos. Poucos e bons. São eles sentados na calçada com ela. Sempre vão embora na mesma van e é onde iniciam e encerram as farras do dia. Ela está doente, mas ninguém sabe.

Hoje ela está está mais calada que o normal toda concentrada em sua leitura. Os amiguinhos se achegam para saber o que ela tanto lê. Olham bem para a apostila. Ela desliza os dedos pela página e sorri. Os guris apertam os olhinhos, fazem caretas e se olham sem nada entender. Por fim um deles pergunta:

- Laila, o que você está lendo?

- É uma estória de aventuras.

- Lendo como se não tem letra nenhum aí?

- Tem sim.

- Mas eu só vejo um monte de bolinhas, o que é isso?

- Isso é braille, estou aprendendo.

- E por que você está aprendendo isso?

- É porque logo logo..................eu vou ficar cega.

- ...........................................

terça-feira, 15 de novembro de 2011 5 goles

Daí ela chegou

O rapaz chegava do trabalho sempre muito cansado. Tirava os sapatos. Subia as escadas. Depois deitava-se na rede lá no alpendre de onde podia ver todo o bairro. As crianças tomando banho de mangueira. A fumaça do churrasquinho da esquina. O burburinho interrompido pela poderosa buzina do trem tentando espantar os moleques que brincavam nos trilhos. Dali via sobretudo as montanhas azuladas ao fundo. Montanhas sempre tão mudas. Uma cerveja preta nos dias de calor. Um mate para as noites mais frias. Se contabilizava seus pecados não podia se esquecer disso: tantas noites bebendo sozinho. Isso não devia ser boa coisa. 

Dali notava a mudança das estações, quando o calendário ainda insistia em dizer que era verão, mas no entardecer, aquele céu manchado de sangue, o vento já soprando bem frio: era o inverno. Às vezes o inverno da alma. Outras vezes era a despedida da chuva deixando as cores mais vibrantes em paisagens quentes e ao mesmo tempo congeladas. Debruçado na janela, como quem espera...

E volta e meia eles apareciam. Todo mundo tem seus fantasmas. Basta ter um coração e ele logo se enche deles. Então dormia só de madrugada e pensava em quem lhe dizia que só valia a pena viver se isso fosse deixar saudade. Do que sinto saudade? Mas para ele não importava sentir saudade do seu passado. Lhe incomodava e muito era a ideia de talvez não sentir saudade do seu presente. Às vezes pensava seriamente no paradeiro de sua fé. 

Estranho é notar que o que acontece bem lentamente ao mesmo tempo acontece de repente. Daí ELA chegou. Sem pedir licença nem mandar aviso essa guria chega e lhe tira todo o azedume. Diz que não quer, que a culpa é toda dele, mas toma conta de tudo. Até do que  achava que não mais tinhaDaí ele tenta, em vão, pensar em outras coisas como abrir mais uma lata de cerveja, escrever de uma vez por todas a sua teoria sobre o por quê dos problemas coletivos serem problemas individuais ou aquele livro sobre os mistérios da luz. Que importa que haja ou não luz se já não existem mais fantasmas? E se não há nem inverno, nem burburinhos, churrasquinhos ou calendários? Ela lhe mostra seus medos. Ele esconde os seus, todo orgulhoso. De tudo, só não  entendia como que ao juntar todos os seus erros, como num maluco quebra-cabeças,  pudesse encontrar lá  o que sempre procurou ali.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011 4 goles

Loucura Essa

Estacionei o carro em frente daquela loja de material esportivo, que fica quase na esquina. Como sempre me admirei com a vitrine. Impecavelmente linda. Lembrei que precisava de um  novo par de tênis para caminhar e que por alguma razão jamais comprara algo ali. Mas não seria hoje. Minha irmã estava com pressa e eu havia prometido lhe dar aquela carona. Ela desceu do carro e atravessou a rua. Já do outro lado ela entrou no banco para fazer um saque no caixa eletrônico. Aumentei um pouco o volume do som quando começou a tocar "Careless Love" de Camera Obscura. Por alguma razão insólita os violinos dessa música não saíam da minha cabeça já fazia mais de uma semana, não me julguem. 

De repente vejo uma luz vermelha piscando freneticamente e não era o led do pendrive. Bem na minha frente, um, dois, três carros da polícia em alta velocidade. O sinal está fechado e a fila de carros não se moveu. Tão absortos quanto eu? "For I don't think that we can really be friends". Ouço a mulher que passa ao lado do meu carro gritar "Meu Deus! O que tá acontecendo?!". A viatura que vinha na frente fecha um carro que estava preso na fila. Um carro branco com uma faixa preta no capô. Os policiais descem. Um deles, olhos arregalados e  arma em punho, aproxima-se do carro gritando para que seu ocupante desça. Ele resiste. O policial enfia a mão por dentro da porta e a abre na tentativa de puxar o motorista para fora. Na minha cabeça, sempre tão criativa fora de hora,  já pipocam os tiros. Minha máquina no banco de trás, mas nem me lembro dela. O sinal abre e os motoristas aceleram o máximo que podem. O carro branco fica livre e acelera quase atropelando ou arrancando o braço do policial. Nem sei. Não consigo processar muito bem o que vejo. As viaturas aceleram, cantam seus pneus e partem em nova perseguição até desaparecer no horizonte. Estou imóvel. Quando enfim me lembro de mim, me dou conta do quanto estou encolhido ali. Coração em disparada? Me envergonho. Minha irmã entra no carro e pergunta o que houve. Nem sei, nem sei...

Daí penso na cena toda. Eu ali,  me encolhendo todo. Há bem pouco tempo atrás assistiria a cena como quem estivesse no cinema e se o disparo fosse feito seria apenas um disparo. Mas não agora, não hoje. Um bom momento para se pensar em todos, na família, nos amigos, mas é nela que penso, só nela. Sou apenas uma alma vagabunda e desesperançada. É verdade. Mas ela faz eu me sentir melhor, até mais do que sou. Por fim um tímido sorriso. Talvez estejamos apenas complicando a nossa vida buscando conforto  nas coisas que alguém inventou e seja hora de fazer do nosso jeito. Somente aí consigo ouvir novamente a voz da senhorita Tracyanne Campbell "Oh, the love I feel for you it's real". É verdade.

Acelero o carro e me despeço dessa loucura.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011 3 goles

Um Strudel de Maçã

Naquela casa afastada onde a paisagem parece levemente soturna o rapaz vivia sozinho. Isso já fazia mais de um ano. Como em todas as tardes, naquele dia ele saiu para caminhar pelo vale. Lá bebeu da água fresca e cristalina do córrego e depois passou pela Vila do Café. Nada mais que uma dezena de casas bem pequenas. Currais, galinheiros, chiqueiros e galpões. Uma roda d’água e uma capela. Tudo abandonado. O mato já ia dentro das casas. Um urubu morava no alto da capela. Ao redor o canavial, que logo engoliria o que sobrara da vila. De repente o estranho vazio. Sentiu saudade da cidade. Não do barulho, nem da fumaça, tão pouco das pessoas, mas daria tudo por um strudel de maçã e alguns comprimidos. Seus comprimidos. Sentia muita falta deles.


O vento soprou bem forte. Logo o céu ficou coberto de nuvens escuras de um azul turbulento e  ele acabou voltando para casa caminhando sob forte chuva. Ao longe ouviu seus cachorros latindo e apressou seus passos. Ao chegar em casa um susto. Permaneceu imóvel por um tempo. Uma mulher tentava entrar em sua casa. Parecia assustada. Não podia estar se escondendo da chuva ele pensou, pois ela já estava toda molhada. Talvez fossem os cachorros. Reparou na mochila cor de rosa que ela trazia nas costas. Então que ela se virou e ao vê-lo deu um grito que fez calar os cachorros. Olharam-se por um tempo, em silêncio. Então ele caminhou até ela que se afastou da porta. Ele abriu a casa e entrou fazendo sinal para que ela o acompanha-se. Ela o seguiu e ficou de pé na sala enquanto ele acendia várias velas. Ela olhou ao redor. Havia quadros enormes, todos com a mesma assinatura. Ele foi até o quarto, voltou com uma toalha e a cobriu. Perguntou se ela não gostaria de um banho quente. Ela disse que sim com a cabeça. O rapaz foi até a cozinha, aqueceu a água, pegou um sabonete com perfume de maracujá e uma esponja nova. Depois, enquanto ela se banhava, preparou o jantar com o melhor que tinha em casa. Ela voltou do banho toda perfumada. Enquanto jantavam o rapaz começou a falar. Depois ele abriu uma garrafa de vinho e os dois foram para a varanda aos fundos onde se sentaram numa namoradeira e ali o rapaz continuou a falar. Ela nada dizia, apenas o escutava. Ele se divertia ao ver, com aluz das velas que crepitavam, as mudanças de expressão no rosto dela com todas aquelas estórias recheadas de aventura, saudade, anseios e solidão. Dormiram ali mesmo na varanda. Ela encolhida na namoradeira e ele deitado na rede com a garrafa de vinho abraçada junto ao peito. 

Acordou bem antes dela e resolveu fazer-lhe uma surpresa. Pegou sua moto e foi até a cidade. Comprou strudels de maçã e comprimidos. Ao chegar ela ainda dormia, tomou seu remédio e ela nunca mais apareceu.



quinta-feira, 4 de agosto de 2011 4 goles

O SEGREDO

Parado na porta da padaria ele reparou nas roupas das pessoas que por ali passavam. Grandes casacos e botas, cachecóis e toucas. Passavam depressa deixando para trás pequenas nuvens de vapor enquanto falavam. Bolsões de ar quente que demoravam a se misturar ao gélido ar daquele começo de manhã. Fechou o último botão da blusa e caminhou até a praça. Ali cumprimentou os andarilhos e loucos que queimando caixas de madeira e bebendo cachaça barata para espantar o frio espantavam também as pessoas que passavam bem ao largo. Dali viu a igreja e para lá rumou. Estava fechada. Deu uma volta ao redor. Ao pé da cruz do lado de fora o cheiro da parafina. Fotos com pedidos escritos no verso. Olha para o relógio. Está atrasado. Pensa na primeira aula no colégio naquela quinta-feira cinzenta: educação física. Nunca gostou de praticar esportes, ainda mais num dia frio como o que fazia naquela manhã. Estranha ter de estar preocupado com o atraso para algo que não gosta e não pretende fazer, mas se apressa assim mesmo.

Já no colégio senta-se na grama úmida de garoa ao lado da quadra. O magrelo de óculos de aro grosso e sobretudo preto senta-se ao seu lado. Começa a lhe mostrar alguns sketchs enquanto fala de um roteiro que escreveu para uma peça de teatro que pretende montar na escola. Ele o convida para a cenografia. Concorda sem ter certeza. O magrelo todo animado começa falar de várias coisas, umas após as outras, quase sem pausa. Em dado momento diz que pretende contar-lhe um segredo e o faz jurar que não contará nada a ninguém.

Então conta que anos atrás, quando morava num sítio aos arredores de uma pequena cidade do interior, foi de bicicleta até a casa de um sítio vizinho, quase ao final da tarde. Sua mãe preparava quitandas para vender na cidade e comprava ovos do vizinho quando os da casa não davam. Disse que sua mãe sempre cozinhara muito bem e que suas quitandas eram muito conhecidas na região. Lá o vizinho encheu uma grande sacola de algodão cru com ovos caipiras e  então ele partiu de volta. A meio caminho ele se desequilibrou numa ladeira e caiu. Ao bater com a cabeça no chão ele desmaiou. Quando acordou estava deitado numa cama. Um quarto escuro com cheiro de mofo. Logo o vizinho apareceu, perguntou se ele estava bem e explicou que o encontrara desacordado no meio da estrada. Nisso ele notou um curativo em seu pescoço. Levando a mão ao ferimento o vizinho lhe disse o seguinte:

- Não conte a ninguém o que houve, diga que o ferimento você ganhou na queda. Quando você completar 21 anos irá se tornar um vampiro, assim como eu, mas não se preocupe, existem muitas vantagens nisso. Uma delas é que você se tornará um conquistador nato. Terá todas as mulheres que desejar.

Ele permaneceu em silêncio enquanto o magrelo de óculos de aro grosso e sobretudo preto já ia emendando um outro assunto. Não havia acreditado numa só palavra do que ele dissera até aquele momento, mas tinha certeza de que tinha encontrado um verdadeiro amigo.
quarta-feira, 1 de junho de 2011 3 goles

A FILHA DE FRANCISCO

Ela engoliu um copo de café com leite. Depois, com algum esforço retocou a maquiagem ali mesmo no banheiro da padaria. Aquela sombra escura, as bochechas vermelhas, aquele gloss com cheiro de morango. Não entendia nada de maquiagem, nem porque estava vestida de cowgilr. Achou-se mais velha, bem mais velha.  Sabe-se lá o que poderia acontecer. Por isso era preciso viver o sonho, ainda que não fosse o seu. Dirigiu-se calada e de cabeça baixa para o centro da praça. A caixa de som e o microfone a aguardavam. Seu pai era o maestro. Com os primeiros acordes ela começa a cantar e sua voz suave preenche o largo da matriz.

O suor escorrendo pelo rosto enquanto o pai recolhe dinheiro do povo que passa. Agradece com um sorriso desdentado e diz estar juntando dinheiro para o primeiro CD da filha prodígio. De domingo a domingo pelas praças, calçadões e feiras livres da cidade. Enfrentando fome, calor, frio, sol e chuva. No fim da tarde o pai guarda o dinheiro na carteira e separa as moedas para comprar um salgado frio para a filha e um maço de cigarros. Ele sempre sonhou em ter uma filha famosa e sobretudo ganhar dinheiro com isso e ela, com seus 8 anos, só pensava em um dia poder ir para a escola.
segunda-feira, 23 de maio de 2011 5 goles

O OURIÇO

Alguns homens jogando truco à luz de velas enquanto outros estendem as redes de pesca ainda molhadas. Tiram delas as folhas e plantas aquáticas. Os peixes já estão na enorme pia onde as mulheres escamam, tiram as vísceras e os jogam no gelo enquanto alguns já estão fritando na enorme panela e preenchem o ar com perfume saboroso. 

Os meninos param para ouvir estórias e comer peixe frito com limão taiti. O real e o imaginário se fundem como os couros de jacaré secando na cerca. São como troféus no meio da escuridão. Nas estórias os peixes são monstruosos, as cores mais vívidas, as piadas mais engraçadas, a saudade muito maior. E que dizer dos perigos? 

A noite avança a base de cachaça adoçada com rapadura e peixe frito. Uma legião de sapos no quintal por conta dos insetos atraídos pela luz das lamparinas. O urutau com seu canto fantasmagórico num rasante sobre a casa. As crianças brincando de pega pega no escuro. Carrapicho na barra da calça. 

De repente gritos. Um bicho numa árvore do quintal. Os homens trocam as redes e o carteado por enxadas, remos e pedaços de pau. Os cães latem eufóricos acompanhados de mais gritos e correria. O animal é cercado. Mais algumas pauladas e está morto. O viram de barriga para cima. Os cães o devoram enquanto os adultos voltam para seu jogo e suas bebidas. Um guri permanece imóvel olhando o animal sem entender direito o que aconteceu, mas com lágrimas nos olhos. Lá no fundo talvez soubesse que um animal inofensivo e lerdo como um ouriço caixeiro não merecia nada daquilo. Vai para cama. É o fim da festa.
domingo, 17 de abril de 2011 5 goles

ELVIRA

Às sete da manhã no pátio do colégio estadual do bairro pobre. Naquele tempo o Hino Nacional era sagrado antes de começarem as aulas. Os guris cantarolavam desafinados, alguns seguindo a "cola" comum nas contracapas dos cadernos daquele tempo. Outros cochilavam em pé enquanto muitos faziam planos para um dia de "Hoje não" bem sucedido. Planos simples. Bastava tentar bater e não apanhar. Alguns chegavam mais cedo que os outros para colher os frutos das árvores que rodeavam os pavilhões. Tinham os que já combinavam os times para jogar futebol no intervalo onde brigas eram comuns, menos com o dono da bola. E os que contavam os minutos para engolir a sopa rala que era servida como lanche, a primeira refeição do dia. Uns poucos que estudavam. 

No meio de tantos havia um menino calado que navegando em sua mente imaginava tudo diferente. Um mundo todo novo. Imaginava, sobretudo os diálogos que teria, do jeito que tinham de ser, as conversas que não teve e as coisas que não podia fazer, por ser proibido, por ser fantasioso, por ser bom ou perfeito demais. Era acima de tudo um observador e o que mais lhe fascinava era Elvira. Alguma sarda, franja e rabo de cavalo. Grandes olhos verdes que o transformavam em pedra. 

Encontrou-a uns 20 anos depois numa manhã de sábado enquanto procurava um presente para um amigo.   A literatura, o cinema e a tevê nos ensinam que momentos assim tão raros são cerimoniais, mágicos, passionais. Carregados daquela alegria ainda crua dos tempos de mocidade, de primeiros amores. Ensinam que reencontros assim são sempre felizes ainda que não mudem absolutamente nada do que foi construído pelo tempo. Notou que afinal muita coisa havia mudado, porém só sorriu ao perceber as muitas outras que haviam permanecido. E mais uma vez ela passou por ele sem notá-lo.
sábado, 19 de março de 2011 1 goles

SONHO

O motorista recusara-se a continuar. Dali eu deveria seguir a pé. Todos tem um limite, só não esperava que o dele fosse logo na esquina seguinte. Não me admira que a covardia seja tão difundida. Coragem é vendida a preço de ouro. 

Comecei a caminhar pelo bairro pobre. O céu coberto de nuvens. Muitas crianças descalças brincavam pelas ruas cheias de lama. Algumas delas dentro das grotas que a chuva havia escavado. Minha cabeça doía. Caminhei sem rumo e por horas pelas vielas e ruas, vez por outra eu entrava num beco sem saída e era obrigado a voltar. Quanto mais eu andava, mais crianças eu encontrava pelo caminho. Nenhum adulto. Encontrei uma feira abandonada. As verduras ainda frescas, cereais e animais vivos em gaiolas. Silêncio rompido pelo chilreio das andorinhas e cacarejar das galinhas vermelhas. Ao final da feira encontrei num muro uma porta. A porta dava para o interior de um porão úmido e a escada dava numa mansão abandonada. O silêncio estava de volta. Caminhei pelos cômodos escuros, imundos e fétidos. Morada de morcegos e baratas. No segundo andar encontrei um quarto onde havia uma cama de princesa, muito limpa e cheirosa. Lençóis brancos. Uma guriazinha de uns 4 nos dormia amarrada. Eu desatei os nós e a carreguei no braços para fora da casa. Continuei caminhando sem rumo pela cidade sem fim, mas já não via nenhuma criança. De repente levei um susto. Por detrás de um monte de entulhos um bando de pombas brancas levantou vôo e desapareceu no horizonte. A menina acordou com o barulho e me abraçou o pescoço com medo. Uma mulher me gritou de uma janela. Fui até lá. Me convidou a entrar. Sentei-me num sofá ao lado dela ainda com a menina nos braços. Não nos dissemos mais nada. A mulher me afagou os cabelos e depois foi até a cozinha. Fiquei ali até ela retornar com sua face pálida e cheia de indulgência, com um copo de leite morno adoçado com mel numa das mãos e na outra um comprimido.

- Tome, logo a dor passa.
sexta-feira, 4 de março de 2011 5 goles

O AQUÁRIO

Um aquário, se bem montando, com as espécies corretas, estando assim em perfeita harmonia pode ser lacrado e estando inviolável assim permanece. A vida renova-se por si mesma. Assim dizia João aos seus alunos. Professor de ciências. Óculos de aro grosso. Camisa xadrez. Sapatos velhos. Sua alegria: um aquário que ocupava metade da sala miúda, da casa miúda que pagava com o salário miúdo que recebia. Nos dias de  grande tempestade chuva miúda dentro de casa.

Dormir havia se tornado algo impossível por causa do calor. Numa dessas noites ele se levantou e saiu do quarto, pois o ar corria melhor pela janela da sala. Sem sono e sem paciência para televisão acendeu a luz do aquário. Observar os peixes era o que o acalmava. Sentou-se na poltrona, charuto apagado no canto da boca, samba-canção, pés descalços. Ali adormeceu. Acordou com as costas molhadas. Encharcado de suor. Os raios de sol no seu rosto. Levantou-se. Tomou um banho rápido e frio para despertar. Vestiu-se, penteou os ralos fios de cabelo. Engoliu o café e escovou os dentes. Antes de sair lembrou-se de dar uma olhada no aquário e só então notou que havia ligado o aquecedor por engano junto com a luz. Ele se ajoelhou no chão com os olhos cheios de lágrimas. Os peixes estavam cozidos.

Passou um dia terrível. Culpando-se pelo que aconteceu. Só à  tarde, quando chegou em casa pôde limpar tudo e então descobriu que em meio à "sopa" havia dezenas de peixinhos. Nascidos em condições extremas e talvez por isso ainda vivos. Estranhou, mas pareciam bem à vontade. Resolveu acender o charuto. Sentou-se na poltrona com uma cerveja gelada e uma pergunta: desligava ou não o aquecedor? 
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 6 goles

TÃO JUSTO

Era filho de catadores de papelão. Ingressou nos negócios da família  aos cinco e já trabalhava feito gente grande. Seu olhar sempre sério e distante era um pesadelo constante para seu pai. A criança roubada da criança. Todos os dias ao final da tarde quando paravam frente ao boteco do Seu Dimas a espera de um pedaço de pão lá vinha ele. As mãozinhas pequenas e sujas trazendo um presente envolvido numa linda folha de jornal. Ora era um brinco sem par para sua mãe, ora uma lata bonita e enferrujada para as moedas de seu pai, uma boneca velha para sua irmã. Fruto do trabalho sem descanso revirando o lixo alheio.

Nessas horas seu pai sempre saia a caminhar, dispensava até mesmo seu pedaço de pão apenas para que seu filho caçula não visse suas lágrimas incontidas e deseperadas. Não podia deixar transparecer o ser frágil e agustiado que era.  Ensinava-lhe o pouco que sabia convencendo-se diariamente de que o mais importante lhe era dado: amor e valores em desuso. Desgastados. Depois era botar a cabeça no travesseiro e sentir o nó na garganta, o gosto amargo de não poder dar um futuro ao filho amado e o sono só vinha com a certeza de ter lhe dado o mais importante.

Era nas horas vagas, longe dos olhos do pai, que João, o chefe da comunidade, ensinava-lhe a segurar a arma com destreza.

Um dia o guri não apareceu mais em casa.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011 7 goles

MARCELO

A paisagem na janela permanece a mesma. Por quatro meses estirado na cama dura e as feridas que começam a surgir por tanto tempo a estar deitado não lhe tiram o sorriso bobo. Nem a cabeça raspada. Nem os braços que de tão picados já começam a ficar disformes. Quase já não come.

Na paisagem congelada uma novidade: uns cinco moleques de uniforme vermelho a caminho da escolinha de futebol que fica ao lado do hospital. Ele respira fundo tentando segurar o choro. Fecha os olhos e tenta em vão imaginar sua perna direita, porém a unica imagem que lhe vem a mente é a do dia em que sofreu o acidente. A dor insuportável. O levam ao hospital onde descobrem o câncer e o mandam para uma cidade há quase mil quilômetros dali para tratamento. Mal chega e lhe cortam a perna. Metade dos irmãos ficam para trás enquanto a outra metade começa a fazer a vida na nova cidade. Seu pai desaparece. Dizem que voltou para trazer os outros filhos. Juntar novamente a família.

- Mãe, quando o meu pai volta?

A mãe engole seco. Reúne a força que só uma mãe tem e diz que ele voltará logo. No corredor ela mastiga um pão duro e esmurra as paredes. O pai não estava longe e não ia voltar. Morava a poucas quadras dali com uma morena. Uma mulher mais nova que conhecera na rodoviária.

O garoto, cansado, fecha os olhos a espera do pai sem saber que na manhã seguinte não mais os abriria.


Marcelo tinha 16 anos e queria ser jogador de futebol.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011 5 goles

EPIFANIA

Ele me liga as quatro da manhã. Eufórico. Está a caminho do hospital. Ele fala um monte de coisas sem nexo. Fala do ar frio entrando em seus pulmões, do silêncio da cidade que dorme sob as luzes das lâmpadas de vapor de mercúrio e se gaba de seu grande feito de coragem. Seu pai dirige o mais rápido que pode enquanto sua mãe  tenta imobilizá-lo com as mangas de sua blusa de lã. Digo que estou a caminho e desligo o telefone.

Chego ao pronto-socorro. Como sempre está lotado. É inverno e as crianças brincam de soltar fumaça pela boca. Velhos com olhos remelentos cochilam esperando por alguém que os socorra. O pai dele está sentado num banco esfregando as mãos, parece nervoso. Pergunto o que houve, digo que o achei muito agitado no telefone. Ele me explica que o imbecil cortou os pulsos. Dá ao filho uma dúzia de adjetivos e se cala com um olhar perdido. Depois a cabeça baixa. Vergonha de encarar as pessoas. Sento-me ao seu lado. Ele diz que não preciso ficar, que estava tudo bem e que um amigo como ele não valia tanto a pena.

Não faço cerimônia. Levanto-me e vou embora. No dia seguinte meu amigo me diz estar muito feliz, apesar dos 10 pontos em cada pulso. Que não importa não ter chegado até o fim, que ele mesmo tinha resolvido parar antes de sua mãe entrar no banheiro. Pergunto então qual o motivo da felicidade. Ele me diz que é porque teve coragem de fazer. Desvencilhou-se de tudo mais uma vez e não seria a última.

- E sabe o que mais -ele me diz - afinal o que é a verdade?

- A verdade é uma casa feita com peças de Lego - respondo.

- Exatamente.

Podíamos ouvir seu pai resmungando na garagem. Os bancos do carro para sempre com manchas de sangue.

 
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