quarta-feira, 19 de janeiro de 2011 5 goles

EPIFANIA

Ele me liga as quatro da manhã. Eufórico. Está a caminho do hospital. Ele fala um monte de coisas sem nexo. Fala do ar frio entrando em seus pulmões, do silêncio da cidade que dorme sob as luzes das lâmpadas de vapor de mercúrio e se gaba de seu grande feito de coragem. Seu pai dirige o mais rápido que pode enquanto sua mãe  tenta imobilizá-lo com as mangas de sua blusa de lã. Digo que estou a caminho e desligo o telefone.

Chego ao pronto-socorro. Como sempre está lotado. É inverno e as crianças brincam de soltar fumaça pela boca. Velhos com olhos remelentos cochilam esperando por alguém que os socorra. O pai dele está sentado num banco esfregando as mãos, parece nervoso. Pergunto o que houve, digo que o achei muito agitado no telefone. Ele me explica que o imbecil cortou os pulsos. Dá ao filho uma dúzia de adjetivos e se cala com um olhar perdido. Depois a cabeça baixa. Vergonha de encarar as pessoas. Sento-me ao seu lado. Ele diz que não preciso ficar, que estava tudo bem e que um amigo como ele não valia tanto a pena.

Não faço cerimônia. Levanto-me e vou embora. No dia seguinte meu amigo me diz estar muito feliz, apesar dos 10 pontos em cada pulso. Que não importa não ter chegado até o fim, que ele mesmo tinha resolvido parar antes de sua mãe entrar no banheiro. Pergunto então qual o motivo da felicidade. Ele me diz que é porque teve coragem de fazer. Desvencilhou-se de tudo mais uma vez e não seria a última.

- E sabe o que mais -ele me diz - afinal o que é a verdade?

- A verdade é uma casa feita com peças de Lego - respondo.

- Exatamente.

Podíamos ouvir seu pai resmungando na garagem. Os bancos do carro para sempre com manchas de sangue.

 
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