sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 6 goles

TÃO JUSTO

Era filho de catadores de papelão. Ingressou nos negócios da família  aos cinco e já trabalhava feito gente grande. Seu olhar sempre sério e distante era um pesadelo constante para seu pai. A criança roubada da criança. Todos os dias ao final da tarde quando paravam frente ao boteco do Seu Dimas a espera de um pedaço de pão lá vinha ele. As mãozinhas pequenas e sujas trazendo um presente envolvido numa linda folha de jornal. Ora era um brinco sem par para sua mãe, ora uma lata bonita e enferrujada para as moedas de seu pai, uma boneca velha para sua irmã. Fruto do trabalho sem descanso revirando o lixo alheio.

Nessas horas seu pai sempre saia a caminhar, dispensava até mesmo seu pedaço de pão apenas para que seu filho caçula não visse suas lágrimas incontidas e deseperadas. Não podia deixar transparecer o ser frágil e agustiado que era.  Ensinava-lhe o pouco que sabia convencendo-se diariamente de que o mais importante lhe era dado: amor e valores em desuso. Desgastados. Depois era botar a cabeça no travesseiro e sentir o nó na garganta, o gosto amargo de não poder dar um futuro ao filho amado e o sono só vinha com a certeza de ter lhe dado o mais importante.

Era nas horas vagas, longe dos olhos do pai, que João, o chefe da comunidade, ensinava-lhe a segurar a arma com destreza.

Um dia o guri não apareceu mais em casa.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011 7 goles

MARCELO

A paisagem na janela permanece a mesma. Por quatro meses estirado na cama dura e as feridas que começam a surgir por tanto tempo a estar deitado não lhe tiram o sorriso bobo. Nem a cabeça raspada. Nem os braços que de tão picados já começam a ficar disformes. Quase já não come.

Na paisagem congelada uma novidade: uns cinco moleques de uniforme vermelho a caminho da escolinha de futebol que fica ao lado do hospital. Ele respira fundo tentando segurar o choro. Fecha os olhos e tenta em vão imaginar sua perna direita, porém a unica imagem que lhe vem a mente é a do dia em que sofreu o acidente. A dor insuportável. O levam ao hospital onde descobrem o câncer e o mandam para uma cidade há quase mil quilômetros dali para tratamento. Mal chega e lhe cortam a perna. Metade dos irmãos ficam para trás enquanto a outra metade começa a fazer a vida na nova cidade. Seu pai desaparece. Dizem que voltou para trazer os outros filhos. Juntar novamente a família.

- Mãe, quando o meu pai volta?

A mãe engole seco. Reúne a força que só uma mãe tem e diz que ele voltará logo. No corredor ela mastiga um pão duro e esmurra as paredes. O pai não estava longe e não ia voltar. Morava a poucas quadras dali com uma morena. Uma mulher mais nova que conhecera na rodoviária.

O garoto, cansado, fecha os olhos a espera do pai sem saber que na manhã seguinte não mais os abriria.


Marcelo tinha 16 anos e queria ser jogador de futebol.
 
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