terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MARCELO

A paisagem na janela permanece a mesma. Por quatro meses estirado na cama dura e as feridas que começam a surgir por tanto tempo a estar deitado não lhe tiram o sorriso bobo. Nem a cabeça raspada. Nem os braços que de tão picados já começam a ficar disformes. Quase já não come.

Na paisagem congelada uma novidade: uns cinco moleques de uniforme vermelho a caminho da escolinha de futebol que fica ao lado do hospital. Ele respira fundo tentando segurar o choro. Fecha os olhos e tenta em vão imaginar sua perna direita, porém a unica imagem que lhe vem a mente é a do dia em que sofreu o acidente. A dor insuportável. O levam ao hospital onde descobrem o câncer e o mandam para uma cidade há quase mil quilômetros dali para tratamento. Mal chega e lhe cortam a perna. Metade dos irmãos ficam para trás enquanto a outra metade começa a fazer a vida na nova cidade. Seu pai desaparece. Dizem que voltou para trazer os outros filhos. Juntar novamente a família.

- Mãe, quando o meu pai volta?

A mãe engole seco. Reúne a força que só uma mãe tem e diz que ele voltará logo. No corredor ela mastiga um pão duro e esmurra as paredes. O pai não estava longe e não ia voltar. Morava a poucas quadras dali com uma morena. Uma mulher mais nova que conhecera na rodoviária.

O garoto, cansado, fecha os olhos a espera do pai sem saber que na manhã seguinte não mais os abriria.


Marcelo tinha 16 anos e queria ser jogador de futebol.

7 goles:

  1. Oi Rodrigo... Escrevendo lindamente ... como sempre!

    Beijo grande pra você!!

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  2. Putz, Rodrigão,
    a vida como ela é, certamente...

    Curta esse aqui: http://abuscademimmesmo.wordpress.com/2011/02/15/em-busca-de-si-mesmo/

    Ab.
    Pê.

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  3. Muito legal... emocionante e realista... como a vida!

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  4. Eu que agradeço pela visita Kelly, senti sua falta!

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    Vale Pê! Visitei teu blog e simplesmente adorei!

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    Seja bem vinda May! Thanks!

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    Obrigado Alice! Um beijo pra ti.

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  5. afff que cruel!
    E que real...
    Não gosto dessas coisas que incomodam... essas verdades ásperas que esfregam na minha cara.
    Mas o texto é muito bom. Sobretudo por isso.

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  6. Um tapa na cara às vezes faz bem Keu rsrsrsrs

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