Era filho de catadores de papelão. Ingressou nos negócios da família aos cinco e já trabalhava feito gente grande. Seu olhar sempre sério e distante era um pesadelo constante para seu pai. A criança roubada da criança. Todos os dias ao final da tarde quando paravam frente ao boteco do Seu Dimas a espera de um pedaço de pão lá vinha ele. As mãozinhas pequenas e sujas trazendo um presente envolvido numa linda folha de jornal. Ora era um brinco sem par para sua mãe, ora uma lata bonita e enferrujada para as moedas de seu pai, uma boneca velha para sua irmã. Fruto do trabalho sem descanso revirando o lixo alheio.
Nessas horas seu pai sempre saia a caminhar, dispensava até mesmo seu pedaço de pão apenas para que seu filho caçula não visse suas lágrimas incontidas e deseperadas. Não podia deixar transparecer o ser frágil e agustiado que era. Ensinava-lhe o pouco que sabia convencendo-se diariamente de que o mais importante lhe era dado: amor e valores em desuso. Desgastados. Depois era botar a cabeça no travesseiro e sentir o nó na garganta, o gosto amargo de não poder dar um futuro ao filho amado e o sono só vinha com a certeza de ter lhe dado o mais importante.
Era nas horas vagas, longe dos olhos do pai, que João, o chefe da comunidade, ensinava-lhe a segurar a arma com destreza.
Um dia o guri não apareceu mais em casa.
Nessas horas seu pai sempre saia a caminhar, dispensava até mesmo seu pedaço de pão apenas para que seu filho caçula não visse suas lágrimas incontidas e deseperadas. Não podia deixar transparecer o ser frágil e agustiado que era. Ensinava-lhe o pouco que sabia convencendo-se diariamente de que o mais importante lhe era dado: amor e valores em desuso. Desgastados. Depois era botar a cabeça no travesseiro e sentir o nó na garganta, o gosto amargo de não poder dar um futuro ao filho amado e o sono só vinha com a certeza de ter lhe dado o mais importante.
Era nas horas vagas, longe dos olhos do pai, que João, o chefe da comunidade, ensinava-lhe a segurar a arma com destreza.
Um dia o guri não apareceu mais em casa.
Triste. Mas uma tristeza bonita.
ResponderExcluirBem bonita.
Beijo!
Vc tá ficando excelente em nos dar um choque de realidade! Amei...
ResponderExcluirTão trágico, mas com certeza, verídico... Prosa de boa qualidade entremeada a doses cavalares de realidade...
ResponderExcluirObrigado amigos.
ResponderExcluireu fico te lendo e imaginando vc escrevendo...
ResponderExcluirSei lá...
O que te motiva, o que vc pensou...
Uma coisa meio NelsonRodriguesana, meio o belo do trágico mesmo.
Seus textos me 'desconfortam'.
O que me motiva é justamente o desconforto que sinto quando confrontado com certas coisas e fico feliz em te desconfortar também rsrss
ResponderExcluirBjos.