sábado, 19 de março de 2011 1 goles

SONHO

O motorista recusara-se a continuar. Dali eu deveria seguir a pé. Todos tem um limite, só não esperava que o dele fosse logo na esquina seguinte. Não me admira que a covardia seja tão difundida. Coragem é vendida a preço de ouro. 

Comecei a caminhar pelo bairro pobre. O céu coberto de nuvens. Muitas crianças descalças brincavam pelas ruas cheias de lama. Algumas delas dentro das grotas que a chuva havia escavado. Minha cabeça doía. Caminhei sem rumo e por horas pelas vielas e ruas, vez por outra eu entrava num beco sem saída e era obrigado a voltar. Quanto mais eu andava, mais crianças eu encontrava pelo caminho. Nenhum adulto. Encontrei uma feira abandonada. As verduras ainda frescas, cereais e animais vivos em gaiolas. Silêncio rompido pelo chilreio das andorinhas e cacarejar das galinhas vermelhas. Ao final da feira encontrei num muro uma porta. A porta dava para o interior de um porão úmido e a escada dava numa mansão abandonada. O silêncio estava de volta. Caminhei pelos cômodos escuros, imundos e fétidos. Morada de morcegos e baratas. No segundo andar encontrei um quarto onde havia uma cama de princesa, muito limpa e cheirosa. Lençóis brancos. Uma guriazinha de uns 4 nos dormia amarrada. Eu desatei os nós e a carreguei no braços para fora da casa. Continuei caminhando sem rumo pela cidade sem fim, mas já não via nenhuma criança. De repente levei um susto. Por detrás de um monte de entulhos um bando de pombas brancas levantou vôo e desapareceu no horizonte. A menina acordou com o barulho e me abraçou o pescoço com medo. Uma mulher me gritou de uma janela. Fui até lá. Me convidou a entrar. Sentei-me num sofá ao lado dela ainda com a menina nos braços. Não nos dissemos mais nada. A mulher me afagou os cabelos e depois foi até a cozinha. Fiquei ali até ela retornar com sua face pálida e cheia de indulgência, com um copo de leite morno adoçado com mel numa das mãos e na outra um comprimido.

- Tome, logo a dor passa.
sexta-feira, 4 de março de 2011 5 goles

O AQUÁRIO

Um aquário, se bem montando, com as espécies corretas, estando assim em perfeita harmonia pode ser lacrado e estando inviolável assim permanece. A vida renova-se por si mesma. Assim dizia João aos seus alunos. Professor de ciências. Óculos de aro grosso. Camisa xadrez. Sapatos velhos. Sua alegria: um aquário que ocupava metade da sala miúda, da casa miúda que pagava com o salário miúdo que recebia. Nos dias de  grande tempestade chuva miúda dentro de casa.

Dormir havia se tornado algo impossível por causa do calor. Numa dessas noites ele se levantou e saiu do quarto, pois o ar corria melhor pela janela da sala. Sem sono e sem paciência para televisão acendeu a luz do aquário. Observar os peixes era o que o acalmava. Sentou-se na poltrona, charuto apagado no canto da boca, samba-canção, pés descalços. Ali adormeceu. Acordou com as costas molhadas. Encharcado de suor. Os raios de sol no seu rosto. Levantou-se. Tomou um banho rápido e frio para despertar. Vestiu-se, penteou os ralos fios de cabelo. Engoliu o café e escovou os dentes. Antes de sair lembrou-se de dar uma olhada no aquário e só então notou que havia ligado o aquecedor por engano junto com a luz. Ele se ajoelhou no chão com os olhos cheios de lágrimas. Os peixes estavam cozidos.

Passou um dia terrível. Culpando-se pelo que aconteceu. Só à  tarde, quando chegou em casa pôde limpar tudo e então descobriu que em meio à "sopa" havia dezenas de peixinhos. Nascidos em condições extremas e talvez por isso ainda vivos. Estranhou, mas pareciam bem à vontade. Resolveu acender o charuto. Sentou-se na poltrona com uma cerveja gelada e uma pergunta: desligava ou não o aquecedor? 
 
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