domingo, 17 de abril de 2011 5 goles

ELVIRA

Às sete da manhã no pátio do colégio estadual do bairro pobre. Naquele tempo o Hino Nacional era sagrado antes de começarem as aulas. Os guris cantarolavam desafinados, alguns seguindo a "cola" comum nas contracapas dos cadernos daquele tempo. Outros cochilavam em pé enquanto muitos faziam planos para um dia de "Hoje não" bem sucedido. Planos simples. Bastava tentar bater e não apanhar. Alguns chegavam mais cedo que os outros para colher os frutos das árvores que rodeavam os pavilhões. Tinham os que já combinavam os times para jogar futebol no intervalo onde brigas eram comuns, menos com o dono da bola. E os que contavam os minutos para engolir a sopa rala que era servida como lanche, a primeira refeição do dia. Uns poucos que estudavam. 

No meio de tantos havia um menino calado que navegando em sua mente imaginava tudo diferente. Um mundo todo novo. Imaginava, sobretudo os diálogos que teria, do jeito que tinham de ser, as conversas que não teve e as coisas que não podia fazer, por ser proibido, por ser fantasioso, por ser bom ou perfeito demais. Era acima de tudo um observador e o que mais lhe fascinava era Elvira. Alguma sarda, franja e rabo de cavalo. Grandes olhos verdes que o transformavam em pedra. 

Encontrou-a uns 20 anos depois numa manhã de sábado enquanto procurava um presente para um amigo.   A literatura, o cinema e a tevê nos ensinam que momentos assim tão raros são cerimoniais, mágicos, passionais. Carregados daquela alegria ainda crua dos tempos de mocidade, de primeiros amores. Ensinam que reencontros assim são sempre felizes ainda que não mudem absolutamente nada do que foi construído pelo tempo. Notou que afinal muita coisa havia mudado, porém só sorriu ao perceber as muitas outras que haviam permanecido. E mais uma vez ela passou por ele sem notá-lo.
 
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