segunda-feira, 23 de maio de 2011 5 goles

O OURIÇO

Alguns homens jogando truco à luz de velas enquanto outros estendem as redes de pesca ainda molhadas. Tiram delas as folhas e plantas aquáticas. Os peixes já estão na enorme pia onde as mulheres escamam, tiram as vísceras e os jogam no gelo enquanto alguns já estão fritando na enorme panela e preenchem o ar com perfume saboroso. 

Os meninos param para ouvir estórias e comer peixe frito com limão taiti. O real e o imaginário se fundem como os couros de jacaré secando na cerca. São como troféus no meio da escuridão. Nas estórias os peixes são monstruosos, as cores mais vívidas, as piadas mais engraçadas, a saudade muito maior. E que dizer dos perigos? 

A noite avança a base de cachaça adoçada com rapadura e peixe frito. Uma legião de sapos no quintal por conta dos insetos atraídos pela luz das lamparinas. O urutau com seu canto fantasmagórico num rasante sobre a casa. As crianças brincando de pega pega no escuro. Carrapicho na barra da calça. 

De repente gritos. Um bicho numa árvore do quintal. Os homens trocam as redes e o carteado por enxadas, remos e pedaços de pau. Os cães latem eufóricos acompanhados de mais gritos e correria. O animal é cercado. Mais algumas pauladas e está morto. O viram de barriga para cima. Os cães o devoram enquanto os adultos voltam para seu jogo e suas bebidas. Um guri permanece imóvel olhando o animal sem entender direito o que aconteceu, mas com lágrimas nos olhos. Lá no fundo talvez soubesse que um animal inofensivo e lerdo como um ouriço caixeiro não merecia nada daquilo. Vai para cama. É o fim da festa.
 
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