quarta-feira, 1 de junho de 2011 3 goles

A FILHA DE FRANCISCO

Ela engoliu um copo de café com leite. Depois, com algum esforço retocou a maquiagem ali mesmo no banheiro da padaria. Aquela sombra escura, as bochechas vermelhas, aquele gloss com cheiro de morango. Não entendia nada de maquiagem, nem porque estava vestida de cowgilr. Achou-se mais velha, bem mais velha.  Sabe-se lá o que poderia acontecer. Por isso era preciso viver o sonho, ainda que não fosse o seu. Dirigiu-se calada e de cabeça baixa para o centro da praça. A caixa de som e o microfone a aguardavam. Seu pai era o maestro. Com os primeiros acordes ela começa a cantar e sua voz suave preenche o largo da matriz.

O suor escorrendo pelo rosto enquanto o pai recolhe dinheiro do povo que passa. Agradece com um sorriso desdentado e diz estar juntando dinheiro para o primeiro CD da filha prodígio. De domingo a domingo pelas praças, calçadões e feiras livres da cidade. Enfrentando fome, calor, frio, sol e chuva. No fim da tarde o pai guarda o dinheiro na carteira e separa as moedas para comprar um salgado frio para a filha e um maço de cigarros. Ele sempre sonhou em ter uma filha famosa e sobretudo ganhar dinheiro com isso e ela, com seus 8 anos, só pensava em um dia poder ir para a escola.
 
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