quinta-feira, 4 de agosto de 2011 4 goles

O SEGREDO

Parado na porta da padaria ele reparou nas roupas das pessoas que por ali passavam. Grandes casacos e botas, cachecóis e toucas. Passavam depressa deixando para trás pequenas nuvens de vapor enquanto falavam. Bolsões de ar quente que demoravam a se misturar ao gélido ar daquele começo de manhã. Fechou o último botão da blusa e caminhou até a praça. Ali cumprimentou os andarilhos e loucos que queimando caixas de madeira e bebendo cachaça barata para espantar o frio espantavam também as pessoas que passavam bem ao largo. Dali viu a igreja e para lá rumou. Estava fechada. Deu uma volta ao redor. Ao pé da cruz do lado de fora o cheiro da parafina. Fotos com pedidos escritos no verso. Olha para o relógio. Está atrasado. Pensa na primeira aula no colégio naquela quinta-feira cinzenta: educação física. Nunca gostou de praticar esportes, ainda mais num dia frio como o que fazia naquela manhã. Estranha ter de estar preocupado com o atraso para algo que não gosta e não pretende fazer, mas se apressa assim mesmo.

Já no colégio senta-se na grama úmida de garoa ao lado da quadra. O magrelo de óculos de aro grosso e sobretudo preto senta-se ao seu lado. Começa a lhe mostrar alguns sketchs enquanto fala de um roteiro que escreveu para uma peça de teatro que pretende montar na escola. Ele o convida para a cenografia. Concorda sem ter certeza. O magrelo todo animado começa falar de várias coisas, umas após as outras, quase sem pausa. Em dado momento diz que pretende contar-lhe um segredo e o faz jurar que não contará nada a ninguém.

Então conta que anos atrás, quando morava num sítio aos arredores de uma pequena cidade do interior, foi de bicicleta até a casa de um sítio vizinho, quase ao final da tarde. Sua mãe preparava quitandas para vender na cidade e comprava ovos do vizinho quando os da casa não davam. Disse que sua mãe sempre cozinhara muito bem e que suas quitandas eram muito conhecidas na região. Lá o vizinho encheu uma grande sacola de algodão cru com ovos caipiras e  então ele partiu de volta. A meio caminho ele se desequilibrou numa ladeira e caiu. Ao bater com a cabeça no chão ele desmaiou. Quando acordou estava deitado numa cama. Um quarto escuro com cheiro de mofo. Logo o vizinho apareceu, perguntou se ele estava bem e explicou que o encontrara desacordado no meio da estrada. Nisso ele notou um curativo em seu pescoço. Levando a mão ao ferimento o vizinho lhe disse o seguinte:

- Não conte a ninguém o que houve, diga que o ferimento você ganhou na queda. Quando você completar 21 anos irá se tornar um vampiro, assim como eu, mas não se preocupe, existem muitas vantagens nisso. Uma delas é que você se tornará um conquistador nato. Terá todas as mulheres que desejar.

Ele permaneceu em silêncio enquanto o magrelo de óculos de aro grosso e sobretudo preto já ia emendando um outro assunto. Não havia acreditado numa só palavra do que ele dissera até aquele momento, mas tinha certeza de que tinha encontrado um verdadeiro amigo.
 
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