quarta-feira, 19 de outubro de 2011 3 goles

Um Strudel de Maçã

Naquela casa afastada onde a paisagem parece levemente soturna o rapaz vivia sozinho. Isso já fazia mais de um ano. Como em todas as tardes, naquele dia ele saiu para caminhar pelo vale. Lá bebeu da água fresca e cristalina do córrego e depois passou pela Vila do Café. Nada mais que uma dezena de casas bem pequenas. Currais, galinheiros, chiqueiros e galpões. Uma roda d’água e uma capela. Tudo abandonado. O mato já ia dentro das casas. Um urubu morava no alto da capela. Ao redor o canavial, que logo engoliria o que sobrara da vila. De repente o estranho vazio. Sentiu saudade da cidade. Não do barulho, nem da fumaça, tão pouco das pessoas, mas daria tudo por um strudel de maçã e alguns comprimidos. Seus comprimidos. Sentia muita falta deles.


O vento soprou bem forte. Logo o céu ficou coberto de nuvens escuras de um azul turbulento e  ele acabou voltando para casa caminhando sob forte chuva. Ao longe ouviu seus cachorros latindo e apressou seus passos. Ao chegar em casa um susto. Permaneceu imóvel por um tempo. Uma mulher tentava entrar em sua casa. Parecia assustada. Não podia estar se escondendo da chuva ele pensou, pois ela já estava toda molhada. Talvez fossem os cachorros. Reparou na mochila cor de rosa que ela trazia nas costas. Então que ela se virou e ao vê-lo deu um grito que fez calar os cachorros. Olharam-se por um tempo, em silêncio. Então ele caminhou até ela que se afastou da porta. Ele abriu a casa e entrou fazendo sinal para que ela o acompanha-se. Ela o seguiu e ficou de pé na sala enquanto ele acendia várias velas. Ela olhou ao redor. Havia quadros enormes, todos com a mesma assinatura. Ele foi até o quarto, voltou com uma toalha e a cobriu. Perguntou se ela não gostaria de um banho quente. Ela disse que sim com a cabeça. O rapaz foi até a cozinha, aqueceu a água, pegou um sabonete com perfume de maracujá e uma esponja nova. Depois, enquanto ela se banhava, preparou o jantar com o melhor que tinha em casa. Ela voltou do banho toda perfumada. Enquanto jantavam o rapaz começou a falar. Depois ele abriu uma garrafa de vinho e os dois foram para a varanda aos fundos onde se sentaram numa namoradeira e ali o rapaz continuou a falar. Ela nada dizia, apenas o escutava. Ele se divertia ao ver, com aluz das velas que crepitavam, as mudanças de expressão no rosto dela com todas aquelas estórias recheadas de aventura, saudade, anseios e solidão. Dormiram ali mesmo na varanda. Ela encolhida na namoradeira e ele deitado na rede com a garrafa de vinho abraçada junto ao peito. 

Acordou bem antes dela e resolveu fazer-lhe uma surpresa. Pegou sua moto e foi até a cidade. Comprou strudels de maçã e comprimidos. Ao chegar ela ainda dormia, tomou seu remédio e ela nunca mais apareceu.



 
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