Naquela casa afastada onde a paisagem parece levemente soturna
o rapaz vivia sozinho. Isso já fazia mais de um ano. Como em todas
as tardes, naquele dia ele saiu para caminhar pelo vale. Lá bebeu da água
fresca e cristalina do córrego e depois passou pela Vila do Café. Nada mais que
uma dezena de casas bem pequenas. Currais, galinheiros, chiqueiros e galpões.
Uma roda d’água e uma capela. Tudo abandonado. O mato já ia dentro das
casas. Um urubu morava no alto da capela. Ao redor o canavial, que logo
engoliria o que sobrara da vila. De repente o estranho vazio. Sentiu saudade da
cidade. Não do barulho, nem da fumaça, tão pouco das pessoas, mas daria tudo
por um strudel de maçã e alguns comprimidos. Seus comprimidos. Sentia muita
falta deles.
O vento soprou bem forte. Logo o céu ficou coberto de nuvens
escuras de um azul turbulento e ele acabou voltando para casa caminhando sob forte
chuva. Ao longe ouviu seus cachorros latindo e apressou seus passos. Ao chegar em
casa um susto. Permaneceu imóvel por um tempo. Uma mulher tentava entrar em sua
casa. Parecia assustada. Não podia estar se escondendo da chuva ele pensou,
pois ela já estava toda molhada. Talvez fossem os cachorros. Reparou na mochila
cor de rosa que ela trazia nas costas. Então que ela se virou e ao vê-lo
deu um grito que fez calar os cachorros. Olharam-se por um tempo, em silêncio. Então
ele caminhou até ela que se afastou da porta. Ele abriu a casa e entrou fazendo
sinal para que ela o acompanha-se. Ela o seguiu e ficou de pé na sala enquanto
ele acendia várias velas. Ela olhou ao redor. Havia quadros enormes, todos com
a mesma assinatura. Ele foi até o quarto, voltou com uma toalha e a cobriu.
Perguntou se ela não gostaria de um banho quente. Ela disse que sim com a
cabeça. O rapaz foi até a cozinha, aqueceu a água, pegou um sabonete com perfume de
maracujá e uma esponja nova. Depois, enquanto ela se banhava, preparou o jantar
com o melhor que tinha em casa. Ela voltou do banho toda perfumada. Enquanto jantavam
o rapaz começou a falar. Depois ele abriu uma garrafa de vinho e os dois foram
para a varanda aos fundos onde se sentaram numa namoradeira e ali o rapaz
continuou a falar. Ela nada dizia, apenas o escutava. Ele se divertia ao ver, com aluz das velas que crepitavam, as
mudanças de expressão no rosto dela com todas aquelas estórias recheadas de aventura,
saudade, anseios e solidão. Dormiram ali mesmo na varanda. Ela encolhida na
namoradeira e ele deitado na rede com a garrafa de vinho abraçada junto ao
peito.
Acordou bem antes dela e resolveu fazer-lhe uma surpresa. Pegou
sua moto e foi até a cidade. Comprou strudels de maçã e comprimidos. Ao chegar ela ainda dormia, tomou seu remédio e ela nunca mais apareceu.
Nossa, que conto meio soturno...
ResponderExcluirBonito, entretanto...
Adorei o cenário construído, você é sempre muito bom nisso!
Eu me senti meio ele, depois tão ela...
Mas ela nem existe, né? Hum.
Vou achar uma cabaninha e chegar toda molhada esses dias que tão chovendo por aqui, será que encontro um moço (esquizofrênico? Whatever!) que me acolha, me prepare um banho e um jantar?
Sendo eu, periga nunca mais ir embora...
...Ok, destruí a poesia da coisa. HAHAHA
Mas ótimo conto, querido. Senti falta de lê-lo. Essa tua forma sóbria e ao mesmo tempo profunda de escrever é um encanto.
Beijos.
Rodrigo, por que faz-nos esperar tanto pelo próximo post que, como este, traz reflexões tão profundas do "ser" humano frágil, ignoto, perdido em suas próprias ilusões?...
ResponderExcluirPê Sousa
Keu, esquizofrênico eu não sei, mas louco te garanto que eu sou! rsrsssrs obrigado, suas palavras sempre me fazem bem, acho que vc sabe disso né...
ResponderExcluir---
Valeu pela bronca Pê!