terça-feira, 15 de novembro de 2011 5 goles

Daí ela chegou

O rapaz chegava do trabalho sempre muito cansado. Tirava os sapatos. Subia as escadas. Depois deitava-se na rede lá no alpendre de onde podia ver todo o bairro. As crianças tomando banho de mangueira. A fumaça do churrasquinho da esquina. O burburinho interrompido pela poderosa buzina do trem tentando espantar os moleques que brincavam nos trilhos. Dali via sobretudo as montanhas azuladas ao fundo. Montanhas sempre tão mudas. Uma cerveja preta nos dias de calor. Um mate para as noites mais frias. Se contabilizava seus pecados não podia se esquecer disso: tantas noites bebendo sozinho. Isso não devia ser boa coisa. 

Dali notava a mudança das estações, quando o calendário ainda insistia em dizer que era verão, mas no entardecer, aquele céu manchado de sangue, o vento já soprando bem frio: era o inverno. Às vezes o inverno da alma. Outras vezes era a despedida da chuva deixando as cores mais vibrantes em paisagens quentes e ao mesmo tempo congeladas. Debruçado na janela, como quem espera...

E volta e meia eles apareciam. Todo mundo tem seus fantasmas. Basta ter um coração e ele logo se enche deles. Então dormia só de madrugada e pensava em quem lhe dizia que só valia a pena viver se isso fosse deixar saudade. Do que sinto saudade? Mas para ele não importava sentir saudade do seu passado. Lhe incomodava e muito era a ideia de talvez não sentir saudade do seu presente. Às vezes pensava seriamente no paradeiro de sua fé. 

Estranho é notar que o que acontece bem lentamente ao mesmo tempo acontece de repente. Daí ELA chegou. Sem pedir licença nem mandar aviso essa guria chega e lhe tira todo o azedume. Diz que não quer, que a culpa é toda dele, mas toma conta de tudo. Até do que  achava que não mais tinhaDaí ele tenta, em vão, pensar em outras coisas como abrir mais uma lata de cerveja, escrever de uma vez por todas a sua teoria sobre o por quê dos problemas coletivos serem problemas individuais ou aquele livro sobre os mistérios da luz. Que importa que haja ou não luz se já não existem mais fantasmas? E se não há nem inverno, nem burburinhos, churrasquinhos ou calendários? Ela lhe mostra seus medos. Ele esconde os seus, todo orgulhoso. De tudo, só não  entendia como que ao juntar todos os seus erros, como num maluco quebra-cabeças,  pudesse encontrar lá  o que sempre procurou ali.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011 4 goles

Loucura Essa

Estacionei o carro em frente daquela loja de material esportivo, que fica quase na esquina. Como sempre me admirei com a vitrine. Impecavelmente linda. Lembrei que precisava de um  novo par de tênis para caminhar e que por alguma razão jamais comprara algo ali. Mas não seria hoje. Minha irmã estava com pressa e eu havia prometido lhe dar aquela carona. Ela desceu do carro e atravessou a rua. Já do outro lado ela entrou no banco para fazer um saque no caixa eletrônico. Aumentei um pouco o volume do som quando começou a tocar "Careless Love" de Camera Obscura. Por alguma razão insólita os violinos dessa música não saíam da minha cabeça já fazia mais de uma semana, não me julguem. 

De repente vejo uma luz vermelha piscando freneticamente e não era o led do pendrive. Bem na minha frente, um, dois, três carros da polícia em alta velocidade. O sinal está fechado e a fila de carros não se moveu. Tão absortos quanto eu? "For I don't think that we can really be friends". Ouço a mulher que passa ao lado do meu carro gritar "Meu Deus! O que tá acontecendo?!". A viatura que vinha na frente fecha um carro que estava preso na fila. Um carro branco com uma faixa preta no capô. Os policiais descem. Um deles, olhos arregalados e  arma em punho, aproxima-se do carro gritando para que seu ocupante desça. Ele resiste. O policial enfia a mão por dentro da porta e a abre na tentativa de puxar o motorista para fora. Na minha cabeça, sempre tão criativa fora de hora,  já pipocam os tiros. Minha máquina no banco de trás, mas nem me lembro dela. O sinal abre e os motoristas aceleram o máximo que podem. O carro branco fica livre e acelera quase atropelando ou arrancando o braço do policial. Nem sei. Não consigo processar muito bem o que vejo. As viaturas aceleram, cantam seus pneus e partem em nova perseguição até desaparecer no horizonte. Estou imóvel. Quando enfim me lembro de mim, me dou conta do quanto estou encolhido ali. Coração em disparada? Me envergonho. Minha irmã entra no carro e pergunta o que houve. Nem sei, nem sei...

Daí penso na cena toda. Eu ali,  me encolhendo todo. Há bem pouco tempo atrás assistiria a cena como quem estivesse no cinema e se o disparo fosse feito seria apenas um disparo. Mas não agora, não hoje. Um bom momento para se pensar em todos, na família, nos amigos, mas é nela que penso, só nela. Sou apenas uma alma vagabunda e desesperançada. É verdade. Mas ela faz eu me sentir melhor, até mais do que sou. Por fim um tímido sorriso. Talvez estejamos apenas complicando a nossa vida buscando conforto  nas coisas que alguém inventou e seja hora de fazer do nosso jeito. Somente aí consigo ouvir novamente a voz da senhorita Tracyanne Campbell "Oh, the love I feel for you it's real". É verdade.

Acelero o carro e me despeço dessa loucura.


 
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