segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Loucura Essa

Estacionei o carro em frente daquela loja de material esportivo, que fica quase na esquina. Como sempre me admirei com a vitrine. Impecavelmente linda. Lembrei que precisava de um  novo par de tênis para caminhar e que por alguma razão jamais comprara algo ali. Mas não seria hoje. Minha irmã estava com pressa e eu havia prometido lhe dar aquela carona. Ela desceu do carro e atravessou a rua. Já do outro lado ela entrou no banco para fazer um saque no caixa eletrônico. Aumentei um pouco o volume do som quando começou a tocar "Careless Love" de Camera Obscura. Por alguma razão insólita os violinos dessa música não saíam da minha cabeça já fazia mais de uma semana, não me julguem. 

De repente vejo uma luz vermelha piscando freneticamente e não era o led do pendrive. Bem na minha frente, um, dois, três carros da polícia em alta velocidade. O sinal está fechado e a fila de carros não se moveu. Tão absortos quanto eu? "For I don't think that we can really be friends". Ouço a mulher que passa ao lado do meu carro gritar "Meu Deus! O que tá acontecendo?!". A viatura que vinha na frente fecha um carro que estava preso na fila. Um carro branco com uma faixa preta no capô. Os policiais descem. Um deles, olhos arregalados e  arma em punho, aproxima-se do carro gritando para que seu ocupante desça. Ele resiste. O policial enfia a mão por dentro da porta e a abre na tentativa de puxar o motorista para fora. Na minha cabeça, sempre tão criativa fora de hora,  já pipocam os tiros. Minha máquina no banco de trás, mas nem me lembro dela. O sinal abre e os motoristas aceleram o máximo que podem. O carro branco fica livre e acelera quase atropelando ou arrancando o braço do policial. Nem sei. Não consigo processar muito bem o que vejo. As viaturas aceleram, cantam seus pneus e partem em nova perseguição até desaparecer no horizonte. Estou imóvel. Quando enfim me lembro de mim, me dou conta do quanto estou encolhido ali. Coração em disparada? Me envergonho. Minha irmã entra no carro e pergunta o que houve. Nem sei, nem sei...

Daí penso na cena toda. Eu ali,  me encolhendo todo. Há bem pouco tempo atrás assistiria a cena como quem estivesse no cinema e se o disparo fosse feito seria apenas um disparo. Mas não agora, não hoje. Um bom momento para se pensar em todos, na família, nos amigos, mas é nela que penso, só nela. Sou apenas uma alma vagabunda e desesperançada. É verdade. Mas ela faz eu me sentir melhor, até mais do que sou. Por fim um tímido sorriso. Talvez estejamos apenas complicando a nossa vida buscando conforto  nas coisas que alguém inventou e seja hora de fazer do nosso jeito. Somente aí consigo ouvir novamente a voz da senhorita Tracyanne Campbell "Oh, the love I feel for you it's real". É verdade.

Acelero o carro e me despeço dessa loucura.


4 goles:

  1. Sem fôlego. Voltando ao ritmo mesmo, hein Mr Leon?

    ResponderExcluir
  2. Que liiiindo, Rodrigo!
    Uma narrativa tensa, esse clima de romance policial... Mas tamanha é a poesia (mal) disfarçada que encanta muito!
    Acho que a coisa mais estranha e incrível do mundo é quando você se dá conta de que deve viver não só por você, mas também por ter alguém com quem quer tanto estar...
    Aposto (digo isso ao eu-poético sobretudo, rs) que essa guria também deve ter se dado conta em algum momento (envolvendo viaturas, armas ou não) que precisa dele desse mesmo tanto, dessa mesma forma.

    ResponderExcluir
  3. Garcia Leon...a outra face de Rodrigo? hahaha
    Mas, sobre o post ainda devo mostrar minha indignação de leitor: você é muito culpado por "alimentar-nos" dos seus textos a doses insuportavelmente a conta-gotas! Escreve mais, cara! Rs

    Abração com gosto de pão mineiro!
    Pê.

    ResponderExcluir
  4. Aos pouquinhos Alice, bem aos pouquinhos

    ---

    Olha, se essa guria não sentir nem ao menos um pouquinho disso aí sim vai ser tenso heim kkkkkk brincadeira. Beijo grande pra ti

    ---
    Rodrigo ou Garcia Leon??? Já nem sei mais

    ResponderExcluir