sexta-feira, 30 de dezembro de 2011 1 goles

A Espera

Então é aquela vontade de ir marcando um "X" em todos os dias do calendário que se tornaram totalmente dispensáveis. É aquela vontade de, como num desenho animado onde tudo se pode, ir até o relógio e correr as horas com os dedos. É aquela vontade de dormir uma semana inteira, ou duas, três, quantas forem necessárias para que você finalmente acorde no tão esperado dia e quando esse dia chegar... aquela vontade de ter um calendário com um só dia que se repete 365 vezes, aquela vontade de ver todo e qualquer relógio parado para sempre, aquela vontade de não dormir nunca mais a não ser que seja ao lado da pessoa que você sempre esperou. 

Talvez seja só o medo de que essa espera seja como a espera da esfinge, que silenciosamente aguarda ser desvendada, sabendo que jamais será. Medo de que o "se for pra dar certo vai dar certo" acabe se transformando num eterno final de semana sentado no sofá, com a tevê sintonizada num programa chato que anuncia a segunda-feira. É esse medo de ser o impossível de alguém. De ser o quase, o talvez, o "e se".  Medo de um "não era amor, era só espera".

Daí você inventa e fantasia. Seu consciente ou inconsciente (você já nem sabe mais, aliás, tantas são as coisas que você já nem sabe mais) te monta uma cena toda favoravelmente brega e perfeita e feliz, que é pra você aguentar a barra, ou se quebrar em dobro depois. 

Mas é preciso abastecer o carro, pagar as contas, montar planilhas. É preciso se preparar para dar uma desculpa qualquer ao seu chefe para poder fazer aquela entrevista noutra empresa. É preciso dar atenção aos seus amigos, até mesmo para aquele chato que te deixa entediado ou aquele que debocha dos teus planos. É preciso limpar a casa e organizar os livros da estante. É preciso ouvir aquele disco ou ao menos limpar a poeira que grudou nele. É preciso acordar cedo, dormir tarde, fazer sua caminhada e comer só meia fatia do pudim. É preciso levar seu cachorro ao veterinário e marcar o dia de tirar o siso. É preciso aguentar conversa sobre futebol, comentário de novela e os memes que pululam na rede social. É preciso almoçar fora de casa todo dia, resolver pepinos e assumir coisas que nem sempre são suas. É preciso arriscar sem se arriscar. E é preciso... esperar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011 3 goles

Laila


Na porta da escola o sol a pino. A menina está calada. Ela lê qualquer coisa numa apostila volumosa enquanto aguarda pela van sentada na calçada em frente ao colégio. Os amiguinhos em volta fazendo algazarra. Apenas mais uma menina de uniforme branco, vermelho e cinza que se mistura na multidão na hora da saída. Apenas mais uma a não ser pelos óculos de armação grossa e preta. Óculos pesados para os seus sete anos. Assim como o seu velho par de sapatos. Passou tanto tempo com eles que já fazem parte dela. Vivem uma simbiose. Seu sorriso tão doce e ao mesmo tempo tão traquinas.  Ela gosta de correr, de ver desenhos animados e de comer chocolates.  Tem uns poucos amigos. Poucos e bons. São eles sentados na calçada com ela. Sempre vão embora na mesma van e é onde iniciam e encerram as farras do dia. Ela está doente, mas ninguém sabe.

Hoje ela está está mais calada que o normal toda concentrada em sua leitura. Os amiguinhos se achegam para saber o que ela tanto lê. Olham bem para a apostila. Ela desliza os dedos pela página e sorri. Os guris apertam os olhinhos, fazem caretas e se olham sem nada entender. Por fim um deles pergunta:

- Laila, o que você está lendo?

- É uma estória de aventuras.

- Lendo como se não tem letra nenhum aí?

- Tem sim.

- Mas eu só vejo um monte de bolinhas, o que é isso?

- Isso é braille, estou aprendendo.

- E por que você está aprendendo isso?

- É porque logo logo..................eu vou ficar cega.

- ...........................................

 
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