quinta-feira, 6 de dezembro de 2012 3 goles

Banquete

Abriu  a noite com uma bela porção de castanhas de caju seguidas de azeitonas, queijo provolone desidratado, salaminho italiano, torradas com patê de presunto, isca de peixe, frango a passarinho, pistache e queijo gorgonzola regado a vinho chileno, francês e argentino, cerveja preta e cachaça mineira de alambique. 

Depois coca-cola hiper gelada, salpicão, cebolas a milanesa, salsichas tipo viena, feijoada enlatada, pato com laranjas, chouriço, pizza de mussarela, macarrão a carbonara, beiju, polenta frita, vaca atolada, sushi, torresmo, lasanha, arroz a grega, tutu de feijão, salada de soja, pernil de javali, alcachofras, beringelas, abóbora menina grelhada, vatapá, galinhada, rocambole de carne, creme de cebola, carne do sol, pão de queijo com calabresa, ovo frito na manteiga, bobó de camarão, bife de fígado acebolado, talharim ao molho branco, pão com linguiça, mandioquinha, canelone, burritos, churrasco grego, pão sírio com ariche, joelho de porco, batata frita, pastel de carne com guariroba, torta de frango e suquinho de groselha.. 

Seguiu-se intervalo de 30 segundos para a sobremesa. Pipoca caramelada, cocada preta, sorvete de flocos com cobertura de brigadeiro, manjar, goiabada em compota, doce de leite com queijo fresco, pudim de leite condensado, atum, maria mole, chocotone, passas cobertas com chocolate, suspiro, biscoitos amanteigados, torta de bombom, amendoim de futebol, bolo de cenoura, quindim, mousse de limão, truffa de maracujá e licor de jenipapo. Cafezinho com chantili para arrematar. 

Para o dia seguinte o aguardava uma cirurgia de redução de estômago. Uma gota de suor desceu pelo rosto cansado. Um sorriso no canto da boca num sono profundo de satisfação. Despedida dos dias de gordice feita com esmero, porém uma ruptura no feliz estômago o levou para banquetes bem mais distantes. Morrer com fome deve ser muito triste.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012 3 goles

Vinte e Cinco Centavos


Crédito: Lewis Hine/Libray of Congress (detalhe)
04:30 da amanhã do segundo dia da primeira semana de férias. O guri levanta sem vontade e já arrependido por ter aceito o convite dos primos. Da cozinha vem o cheiro de café. Pãozinho amanhecido com margarina. Antes de sair ganha um beijo da mãe seguido de um afago na cabeça que também é arrumação no cabelo rebelde. A rua escura é um canivete suíço. Os pardais fazem barulho nos seus poleiros e inundam o vazio derradeiro da madrugada. O guri caminha sozinho até a casa dos primos. De lá seguem os 3 até o centro da cidade. O sol começa a rasgar o horizonte. Faz frio. Entram na porta estreita do prédio antigo. Pegam quantos jornais conseguem carregar e vão cada um para um cruzamento enfrentar os carros e pedestres. São 25 centavos por jornal vendido para no final do dia gastar com sorvete, refrigerante e fichas de fliperama. Eles tinham sorte, a maioria dos garotos eram tristes e entregavam o dinheiro para os pais comprarem cachaça.

Já é quase hora do almoço. De longe avista o primo mais novo chorando. Corre até lá desviando das motos que fazem zigue-zague entre os carros. Um  homem, também vendedor de jornais, havia expulsado o primo da sua esquina a chutes e pontapés. Ele segura os jornais do primo que senta na calçada ainda soluçando, mas logo engole o choro. É preciso vender mais para tentar zerar Street Fighter. Já recuperado da surra, entra na loja chique e se faz de surdo mudo. A dona com pena compra todos os seus jornais. Ele volta com sorriso safado no rosto. O guri condena o primo mas não diz nada, só quer voltar para casa e esquecer todas as crianças tristes que vendem jornais. Seguem os 3 em silêncio e vão passando pelas lojas e botecos do caminho tentando vender os jornais que sobraram. O primo mais novo se gaba de ter vendido todos de uma só vez.

Na casa da tia almoçam costelinha de porco com farinha de milho. Os garotos tristes às vezes não comem nada, apenas esperam pacientes para vender o jornal vespertino. Alguns não tem para onde voltar. Mais tarde o guri volta para casa meio exausto. A noite seu pai folhea o jornal que já é velho e resmunga qualquer coisa sobre políticos. Depois ele lê as tirinhas e cochila tentando resolver as palavras cruzadas. Antes de dormir o menino pensa na surra do primo e nos garotos tristes.

04:30 da amanhã do terceiro dia da primeira semana de férias. O guri entra pela última vez na porta estreita do prédio antigo. Entrega os jornais que sobraram e o dinheiro. Depois de feitas as contas pega os 25 centavos por jornal vendido. Os primos pegam os jornais do dia, mas ele ao invés disso, foi para casa. Despediu-se dos jornais para sempre.
sábado, 18 de agosto de 2012 4 goles

Fora de casa

Apalpou os bolsos e se deu conta de ter esquecido as chaves de casa. De olho no relógio logo se aborrece com o fato da esposa só chegar daí uma hora e meia. Certifica-se de que nenhum vizinho o viu na cena que considera constrangedora: estar preso do lado de fora. Depois de um dia péssimo no trabalho até não seria de todo ruim rolar na sarjeta, reflete. Resolve dar um volta, assim gasta o tempo e espanta o frio. Segue até o mercado na praça ali perto. De repente vontade de chocolate. É tão averso a doces que acha por bem aproveitar quando lhe vem o desejo. Compra um dos melhores e mais caros. Vai até a praça e resolve sentar num dos poucos bancos que ainda se mantém de pé.

Nisso um carro rebaixado e de vidros escuros para do outro lado. O som vindo dele é ensurdecedor. Nada de errado para o começo duma noite de sexta, não fossem as letras das músicas contendo sexo explícito e violência. Na praça tem um pula-pula as moscas. Crianças não são mais crianças? Os jardins são puro mato. Observa um grupo de garotos parado na esquina. Todos de capote com capuz, bermudas surfista e tênis de marca falsificado. Fumam ou cheiram alguma coisa. Ele resolve desviar o olhar e comer seu chocolate. Aparece uma senhora que arrasta uma das pernas e trás numa das mãos uma grande sacola cheia de alguma coisa e na outra um potinho vazio de margarina. Mal ela chega e logo uma legião de cães e gatos se aglomera ao seu redor. Ela se senta com certa dificuldade e com a ajuda do potinho vai distribuindo porções do que trás na sacola para os bichos esfomeados: arroz com muchiba. Um morador de rua se aproxima e sem que haja diálogo entre os dois ela lhe dá uma porção.

Um grupo de meninas vestindo micro-shorts dançam ao som que vem do carro. O grupo de moleques de capote se aproxima delas. Ele morde o chocolate pensando se deve ou não ir esperar na porta de casa. Enquanto isso vê um dos garotos oferecer um cigarro para uma menina que não aceita e vem na sua direção. Ela chega olhando para ele com cara safada e se oferece em troca de uns trocados. Quantos anos tem? Talvez nem 12 e vale menos que aquele chocolate, reflete espantado. Ele agradece e diz não. Ela cospe no chão meio raivosa e vai embora. A música do carro rebaixado se mistura a paródia de campanha eleitoral vinda dum carro plotado que passa devagar espalhando santinhos pelo chão. 

Ele resolve se levantar e ir embora. Só quer um banho, comida caseira e os abraços de sua mulher. Já não suporta mais nada do que vê fora de sua casa, aliás, motivo esse o de quase nunca ligar a televisão. De repente é paralisado por um instante com a risada gostosa de um gurizinho que ainda ensaia as primeiras palavras se divertindo no pula-pula. O carro rebaixado se vai e do plotado só resta a rua suja. Com o silêncio ele consegue ouvir o som de um aluno de flauta doce vindo de alguma janela ali perto. Um dia sem sorrir é um dia perdido, então ele finalmente sorri enquanto um dos garotos de capote com capuz saca o 38 e lhe anuncia o assalto. 
quarta-feira, 11 de julho de 2012 2 goles

Sobre os sonhos

Quando criança João estudava na única escola rural do município. Muito pobre, botava com cuidado as poucas coisas que tinha num bornal amarelo que seu pai ganhara na última eleição. Chegando lá amarrava sua mula no campinho frente à escola e ia todo feliz pra sala. Um dia num recreio, enquanto brincava com seus amiguinhos, alguém perguntou o que eles gostariam de ter. Entre tantos sonhos de brinquedos e dias melhores todos riram ao que João respondeu:

- Eu quero ter uma caminhonete, uma D20 igual à do patrão do meu pai.

Todos disseram que ele jamais conseguiria, que mal tinha roupas para ir pra escola. As coisas pioraram muito depois que os pais dele perderam o emprego e não não tendo encontrado nada melhor foram tentar a vida na cidade. Sem reservas financeiras nem espirituais...

Passam-se os anos. João entra pela primeira vez numa concessionária afim de realizar o sonho de menino. Sorri satisfeito com as chaves da sua Hilux. Por um instante lembra do sonho antigo e sai dali tranquilo ao pensar que ao menos continuou sendo uma caminhote e que afinal, os sonhos tem de evoluir com a gente.
sexta-feira, 6 de julho de 2012 5 goles

O nome disso...


Um, dois, três cliques no botão. Se ele sente saudades de quando era preciso girar o botão para se encontrar alguma rádio? Sim, com certeza, porém sente muito mais saudade de conseguir encontrar músicas que lhe agradem. Desliga o som e segue conversando com sua mãe sentada no carona. Ele esconde o estresse que sente com o trânsito enquanto ela desabafa qualquer coisa sobre financiamentos e aluguéis. Aproveita para trocar ideias com ela sobre a compra dum imóvel. Planos para o ano que vem que gostaria de resolver hoje.

Na próxima esquina o sinal vermelho. Ela aproveita o carro parado e se despede. Desce ali mesmo porque dali caminhará menos. Enquanto ele espera o sinal abrir observa sua mãe se distanciar lentamente. Lembra-se com ternura de quando ela enfrentava o trânsito numa bicicleta velha para levar sua irmã mais nova até a escola, das longas caminhadas que ela fazia ao final das tardes, do quanto ela corria para arrumar tudo, pra dar conta de tudo. Hoje os passos lentos apesar de ainda tão jovem. Um leve aperto no coração.

Ele guarda o carro, pega suas coisas e segue a pé os quase 3 quarteirões que o separam do seu destino final. Olha o relógio e aperta o passo a fim de diminuir o atraso e aperta tanto que alcança sua mãe. Ele de um lado da avenida, ela do outro. Então fica deslumbrado com o que vê. Pensa em cessar a caminhada ou ao menos fazê-la mais devagar, pois queria ter certeza de que a cena ficaria guardada em sua memória. Grande bobagem. O que nos marca quase sempre acontece nos diminutos momentos. Continua o seu caminho permanecendo o ritmo e o olhar que não consegue se desviar dela, até que inevitavelmente a perde de vista.

Durante todo o dia sorri sozinho e muito provavelmente com cara de bobo ao se lembrar. E quem não ficaria assim ao presenciar, no silêncio barulhento da cidade, sua mãe admirando uma vitrine de livraria. Jovem leitora que a falta de passos mais ágeis trouxe a tona. Ali tão concentrada, possivelmente visitando o universo paralelo que cada leitor cria enquanto lê. Deslumbrada com os lançamentos ali expostos. Talvez um pouco abestalhada ao lembrar-se de quando não lhe sobrava tempo pra leitura. Com certeza com o desejo nada secreto de todo grande leitor de morar numa biblioteca, ou ao menos tê-la dentro de casa.

O coração se aquece e ele não sabe o que pensar. Talvez o nome disso seja amor. Talvez o nome disso seja felicidade boba. Talvez o nome disso seja orgulho.

segunda-feira, 25 de junho de 2012 4 goles

Pequenas Eternidades

Ele já sai do banho de olho no relógio. Uma hora e meia. É o tempo que o separa dela. Enquanto se veste sente algo na barriga. Serão as malditas borboletas de que tanto se fala? Na cozinha bebe uma xícara de café amargo de um só trago, porém elas continuam lá. De volta ao quarto de frente ao espelho faz caretas, não gosta do que vê. Troca de roupas, gel no cabelo, renova o perfume e se sente melhor. Olha mais uma vez o relógio. Já se foram 30 minutos apesar do tempo estar congelado. Ele coloca o telefone celular para despertar daí mais 30, pois calcula que meia hora serão suficientes para ir até o aeroporto com calma. Nessa mesma hora ouve vibrar o telefone sobre a mesa. Num SMS ela confirma que logo chegará apesar dos inevitáveis atrasos. Já se acostumara aos aeroportos, mas aos atrasos é tarefa impossível. Ele entra no banheiro e se desespera. Não pode recebê-la com o banheiro naquele estado. Ignora o frio e arranca o casaco. Lava todo o banheiro. Aproveita e varre toda a casa. Bota o casaco apesar de já estar com calor. O celular desperta, vem o friozinho gostoso na barriga, as mãos suando, o sorriso abestalhado, sente o coração apertado e acelerado. Lava o rosto. Confere o trajeto mais uma vez. Não pode errar. Um erro e perde a hora. A eterna sensação de que jamais pode errar. Respira fundo, entra no carro e vai.

Liga o som do carro, as mãos suam sem parar. Será que está no caminho certo? Desliga o som porque o barulho lhe incomoda. Havia escolhido as músicas um dia antes, uma por uma para ouvir com ela, mas enquanto ela não está com ele, por mais que ame aquelas músicas elas só conseguem irritá-lo, só conseguem lhe tirar a concentração. Acha engraçado concluir que as vezes a música pode cegá-lo. Sente-se incomodado como se tivesse um espinho cravado na pele. Vê um placa, duas, três. O caminho está certo mas a ansiedade é perturbadora. A visão da estrada é cortada por flashes de lembraças quentes, cores vivas e sabores maravilhosos. Lembra-se dela e do quanto ela o faz feliz, do quanto precisa dela. Lembra-se dos beijos ao fim da tarde enquanto o sol se pôe no campus, do girar com ela sob árvore frondosa em noite fria, lembra-se de mingau na caneca e dos censores da praça de alimentação. Um sorriso lhe escapa. Estaciona o carro e vai para o desembarque.

O olhar vidrado no painel eletrônico que anuncia pousos e decolagens. Previsto, atrasado, confirmado, aeronave no pátio... Cabem 2 horas em 20 minutos, cabem meses dentro de semanas, cabem anos dentro de meses. Caminha de um lado para o outro. Conversa com o cara ao seu lado e tira dúvidas que não existem. Às vezes funciona tirar e trocar dúvidas que não exitem de verdade, dá pra partilhar neuras e anseios de forma segura. Dali começa a ver os passageiros indo pegar as bagagens.  Uma primeira leva de pasageiros e uma pausa. Onde ela está que não aparece? Surge um senhor do nada e segura no seu ombro "Calma, ela já vem" e em seguida se perde na multidão. Antes que ele pudesse tentar compreender aquilo ela aparece ao longe, mas passa direto em busca da bagagem e some da sua vista. Como ela pode ter desaparecido assim? Em 5 minutos cabem meia hora ou mais. Enfim ela aparece com mala cor de rosa, jeans e sorriso no rosto. De repente tudo fica pra trás, nada mais faz sentido. Então o abraço tão esperado, apertado, demorado, cheio de perfumes guardados na alma. Ele está com uma felicidade que não conseguirá descrever pelas próximas semanas até desistir de tentar explicar. Ele está completo. Ele sou eu.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012 5 goles

Euclides


Euclides tomava café naquela padaria já fazia quase 3 anos. Todo esse tempo tomando o café servido por Amanda e ainda sem coragem para convidá-la para sair. Chegava pontualmente as 07:30 da manhã.  Calça de pregas, camisa de tencel abotoada até desde o primeiro botão e cabelo duro de gel. Achegava-se junto ao balcão e retirava do bolso um bloquinho de capa puída. Tudo o que pedia era precisamente a mesma coisa todos os dias e minuciosamente anotado. Um pão que devia ter exatamente 50 gramas, duas fatias de mortadela defumada e um copo de leite quente sem espuma com café e açúcar. Enquanto aguardava o leite Euclides  preparava o pão. As fatias de mortadela vinham num prato à parte. Cortava o pão lentamente e depois retirava a borda e todo o toucinho da mortadela transformando-a numa renda. Muitas vezes a tarefa demorava tanto que o leite esfriava e ele era obrigado a pedir para que o esquentassem novamente. Depois verificava se não havia espuma no leite e se tivesse pedia que Amanda fizesse outro ou retirasse a espuma rapidamente. Ao terminar de comer escrevia o nome dela no prato usando os disquinhos brancos de gordura.

Como fazia sempre o mesmo pedido e levava a mesma quantidade de dinheiro a moça do caixa já separava os 20 centavos de troco, sempre duas moedas de 10 centavos amarelas, nunca das prateadas pois ele tinha horror a elas e discutia por causa disso. Acaso não houvessem moedas douradas preferia não levar o troco ou ficava de voltar mais tarde, nunca no outro dia, sempre mais tarde. O ritual do café da manhã durava em torno de 3 longas horas de aborrecimentos e se arrastava há quase 3 anos de apatias.

Tantas foram as brigas por contra do peso do pão, do toucinho da mortadela, da espuma no leite e das moedas douradas, que ninguém achou estranho quando Amanda atirou leite fervente em Euclides queimando-lhe gravemente o rosto. Naquele dia serviram leite de graça para todos, com bastante espuma.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012 0 goles

O Dono da Bola

Mesmo com os apelos de Marta não ouve maneira de conter José, que num ato de extrema paixão vestiu o filho do casal com a roupinha listrada de verde e branco. Ele era o pai, o homem, o rei, o senhor daquela casa e daquela família. Nada mais justo que sua vontade fosse atendida e que a primeira roupinha do filho fosse o manto sagrado. 

Passaram-se os anos entre balanços, pescarias e churrascos dominicais. Pai e filho mais pareciam dois irmãos, dois grandes amigos. Eram verdadeiros parceiros para qualquer roubada. Aos sábados, o dia sagrado, jogavam uma pelada no campinho do bairro. A grama ora queimada do sol, ora frondosa da chuva, ora orvalhada pela noite era o tapete vermelho da realeza. Fizesse chuva ou fizesse sol lá estavam eles para gritar glórias ou chorar mágoas entre as tiriricas teimosas e o branco gesso das faixas. 


Foi num sábado de chuvisco incessante que o guri amanheceu diferente. O pai foi logo comentando com a mãe. Havia algo estranho no ar. Ele estava calado. Cabisbaixo. Tomaram o café em silêncio. Por fim o pai não aguentou e perguntou o que acontecia. Então o filho, após longo silêncio, meio sem jeito lhe diz o que houve e com uma só frase o velho é derrotado, para sempre derrotado. Jamais podia imaginar que depois de tantos anos de dedicação, de esforço e de paixão pudesse ouvir aquelas palavras vindo do único filho. Marcos sempre fora a alegria da casa e agora com aquelas palavras tão difíceis, intragáveis, indigestas. Difícil aceitar que o filho pudesse sonhar tão diferente. Difícil viver o sonho do outro. 

Foi num dia de chuvisco teimoso que o guri tomou coragem, levantou a cabeça e disse, voz trêmula mas vontade sólida: não vou mais jogar bola com o senhor, não com essa camisa do Palmeiras, eu sou Corintiano.

Anos se passaram sem que um dirigisse uma palavra ao outro. Nem no casamento do filho o pai disse qualquer coisa. Agora crescido, vida feita, Marcos trabalhava como representante comercial. Era o filho sair de viagem e José logo ia visitar o neto. Ainda havia alguma esperança. Passava as tardes jogando futebol de botão com o pequeno. No tabuleiro o neto com o time verde. O avô com o branco que sempre perdia na tentativa de encorajar a criança. Certo dia o telefone toca. José atende com medo de ser o filho. Emudece e deixa o aparelho cair. As mãos trêmulas. Sangue gela nas veias. O neto pergunta o que houve ao avô. Ele não responde. 

Mais tarde o velho José segura o choro enquanto o agente pergunta sobre urnas funerárias. Engole seco e responde firme, afinal tudo é um comércio. Não falava mais com o filho já fazia tantos anos, mas sabia o quanto ele era esforçado e o quanto ele conhecia aquela estrada. Só podia ser culpa daquele carro. Lembrou-se das tantas vezes que aconselhou ao filho que carro se comprava ou ford ou volks, mas o guri era todo diferente. José se culpa por tudo, principalmente pelo tempo perdido sem falar com o filho amado. Sofre calado pelo que podia ter sido e não foi. Se não fosse tão orgulhoso e fanático. Sente-se envergonhado. A noite se estende silenciosa e José finalmente toma coragem e se aproxima do caixão para enfim ver o filho pela última vez. De repente as lágrimas secam e seu semblante muda de tristeza para raiva. Ele resmunga qualquer coisa indecifrável e vai para casa. Conforme vontade de Marcos dita numa mesa de boteco, ele seria enterrado com a camisa do Timão.


 
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