segunda-feira, 30 de janeiro de 2012 5 goles

Euclides


Euclides tomava café naquela padaria já fazia quase 3 anos. Todo esse tempo tomando o café servido por Amanda e ainda sem coragem para convidá-la para sair. Chegava pontualmente as 07:30 da manhã.  Calça de pregas, camisa de tencel abotoada até desde o primeiro botão e cabelo duro de gel. Achegava-se junto ao balcão e retirava do bolso um bloquinho de capa puída. Tudo o que pedia era precisamente a mesma coisa todos os dias e minuciosamente anotado. Um pão que devia ter exatamente 50 gramas, duas fatias de mortadela defumada e um copo de leite quente sem espuma com café e açúcar. Enquanto aguardava o leite Euclides  preparava o pão. As fatias de mortadela vinham num prato à parte. Cortava o pão lentamente e depois retirava a borda e todo o toucinho da mortadela transformando-a numa renda. Muitas vezes a tarefa demorava tanto que o leite esfriava e ele era obrigado a pedir para que o esquentassem novamente. Depois verificava se não havia espuma no leite e se tivesse pedia que Amanda fizesse outro ou retirasse a espuma rapidamente. Ao terminar de comer escrevia o nome dela no prato usando os disquinhos brancos de gordura.

Como fazia sempre o mesmo pedido e levava a mesma quantidade de dinheiro a moça do caixa já separava os 20 centavos de troco, sempre duas moedas de 10 centavos amarelas, nunca das prateadas pois ele tinha horror a elas e discutia por causa disso. Acaso não houvessem moedas douradas preferia não levar o troco ou ficava de voltar mais tarde, nunca no outro dia, sempre mais tarde. O ritual do café da manhã durava em torno de 3 longas horas de aborrecimentos e se arrastava há quase 3 anos de apatias.

Tantas foram as brigas por contra do peso do pão, do toucinho da mortadela, da espuma no leite e das moedas douradas, que ninguém achou estranho quando Amanda atirou leite fervente em Euclides queimando-lhe gravemente o rosto. Naquele dia serviram leite de graça para todos, com bastante espuma.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012 0 goles

O Dono da Bola

Mesmo com os apelos de Marta não ouve maneira de conter José, que num ato de extrema paixão vestiu o filho do casal com a roupinha listrada de verde e branco. Ele era o pai, o homem, o rei, o senhor daquela casa e daquela família. Nada mais justo que sua vontade fosse atendida e que a primeira roupinha do filho fosse o manto sagrado. 

Passaram-se os anos entre balanços, pescarias e churrascos dominicais. Pai e filho mais pareciam dois irmãos, dois grandes amigos. Eram verdadeiros parceiros para qualquer roubada. Aos sábados, o dia sagrado, jogavam uma pelada no campinho do bairro. A grama ora queimada do sol, ora frondosa da chuva, ora orvalhada pela noite era o tapete vermelho da realeza. Fizesse chuva ou fizesse sol lá estavam eles para gritar glórias ou chorar mágoas entre as tiriricas teimosas e o branco gesso das faixas. 


Foi num sábado de chuvisco incessante que o guri amanheceu diferente. O pai foi logo comentando com a mãe. Havia algo estranho no ar. Ele estava calado. Cabisbaixo. Tomaram o café em silêncio. Por fim o pai não aguentou e perguntou o que acontecia. Então o filho, após longo silêncio, meio sem jeito lhe diz o que houve e com uma só frase o velho é derrotado, para sempre derrotado. Jamais podia imaginar que depois de tantos anos de dedicação, de esforço e de paixão pudesse ouvir aquelas palavras vindo do único filho. Marcos sempre fora a alegria da casa e agora com aquelas palavras tão difíceis, intragáveis, indigestas. Difícil aceitar que o filho pudesse sonhar tão diferente. Difícil viver o sonho do outro. 

Foi num dia de chuvisco teimoso que o guri tomou coragem, levantou a cabeça e disse, voz trêmula mas vontade sólida: não vou mais jogar bola com o senhor, não com essa camisa do Palmeiras, eu sou Corintiano.

Anos se passaram sem que um dirigisse uma palavra ao outro. Nem no casamento do filho o pai disse qualquer coisa. Agora crescido, vida feita, Marcos trabalhava como representante comercial. Era o filho sair de viagem e José logo ia visitar o neto. Ainda havia alguma esperança. Passava as tardes jogando futebol de botão com o pequeno. No tabuleiro o neto com o time verde. O avô com o branco que sempre perdia na tentativa de encorajar a criança. Certo dia o telefone toca. José atende com medo de ser o filho. Emudece e deixa o aparelho cair. As mãos trêmulas. Sangue gela nas veias. O neto pergunta o que houve ao avô. Ele não responde. 

Mais tarde o velho José segura o choro enquanto o agente pergunta sobre urnas funerárias. Engole seco e responde firme, afinal tudo é um comércio. Não falava mais com o filho já fazia tantos anos, mas sabia o quanto ele era esforçado e o quanto ele conhecia aquela estrada. Só podia ser culpa daquele carro. Lembrou-se das tantas vezes que aconselhou ao filho que carro se comprava ou ford ou volks, mas o guri era todo diferente. José se culpa por tudo, principalmente pelo tempo perdido sem falar com o filho amado. Sofre calado pelo que podia ter sido e não foi. Se não fosse tão orgulhoso e fanático. Sente-se envergonhado. A noite se estende silenciosa e José finalmente toma coragem e se aproxima do caixão para enfim ver o filho pela última vez. De repente as lágrimas secam e seu semblante muda de tristeza para raiva. Ele resmunga qualquer coisa indecifrável e vai para casa. Conforme vontade de Marcos dita numa mesa de boteco, ele seria enterrado com a camisa do Timão.


 
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