Mesmo com os apelos de Marta não ouve maneira de conter José, que num ato de extrema paixão vestiu o filho do casal com a roupinha listrada de verde e branco. Ele era o pai, o homem, o rei, o senhor daquela casa e daquela família. Nada mais justo que sua vontade fosse atendida e que a primeira roupinha do filho fosse o manto sagrado.
Os anos se passaram entre balanços, pescarias e churrascos dominicais. Pai e filho mais pareciam dois irmãos, dois grandes amigos. Verdadeiros parceiros para qualquer roubada. Aos sábados, o dia sagrado, jogavam uma pelada no campinho do bairro. A grama ora queimada do sol, ora frondosa da chuva, ora orvalhada pela noite era o tapete vermelho da realeza. Fizesse chuva ou fizesse sol lá estavam eles para gritar glórias ou chorar mágoas entre as tiriricas teimosas e o gesso branco das faixas.
Foi num sábado de chuvisco incessante que o guri amanheceu diferente. O pai foi logo comentando com a mãe. Havia algo estranho no ar. Ele estava calado. Cabisbaixo. Nervoso. Tomaram o café em silêncio. Por fim o pai não aguentou e perguntou o que acontecia. Então o filho meio sem jeito lhe diz e com uma só frase o velho é derrotado, para sempre derrotado. Jamais podia imaginar que depois de tantos anos de dedicação, de esforço e de paixão pudesse ouvir aquelas palavras do único filho. Marcos sempre fora a alegria da casa e agora com aquelas palavras tão difíceis, intragáveis, indigestas. Difícil aceitar que o filho pudesse sonhar tão diferente. Difícil viver o sonho do outro.
Foi num sábado de chuvisco incessante que o guri amanheceu diferente. O pai foi logo comentando com a mãe. Havia algo estranho no ar. Ele estava calado. Cabisbaixo. Nervoso. Tomaram o café em silêncio. Por fim o pai não aguentou e perguntou o que acontecia. Então o filho meio sem jeito lhe diz e com uma só frase o velho é derrotado, para sempre derrotado. Jamais podia imaginar que depois de tantos anos de dedicação, de esforço e de paixão pudesse ouvir aquelas palavras do único filho. Marcos sempre fora a alegria da casa e agora com aquelas palavras tão difíceis, intragáveis, indigestas. Difícil aceitar que o filho pudesse sonhar tão diferente. Difícil viver o sonho do outro.
Foi num dia de chuvisco teimoso que o guri tomou coragem, levantou a cabeça e disse, voz trêmula mas vontade sólida: não vou mais jogar bola com o senhor, não com essa camisa do Palmeiras, eu sou Corintiano.
Anos se passaram sem que um dirigisse uma palavra ao outro. Nem no casamento do filho o pai disse qualquer coisa. Agora crescido, vida feita, Marcos trabalhava como representante comercial. Era o filho sair de viagem e José logo ia visitar o neto. Ainda havia alguma esperança. Passava as tardes jogando futebol de botão com o pequeno. No tabuleiro o neto com o time verde. O avô com o branco que sempre perdia na tentativa de encorajar a criança. Certo dia o telefone toca. José atende com medo de ser o filho. Emudece e deixa o aparelho cair. As mãos trêmulas. Sangue gela nas veias. O neto pergunta o que houve ao avô. Ele não responde.
Mais tarde o velho José segura o choro enquanto o agente pergunta sobre urnas funerárias. Engole seco e responde firme, afinal tudo é um comércio. Não falava mais com o filho já fazia tantos anos, mas sabia o quanto ele era esforçado e o quanto ele conhecia aquela estrada. Só podia ser culpa daquele carro. Lembrou-se das tantas vezes que aconselhou ao filho que carro se comprava ou ford ou volks, mas o guri era todo diferente. José se culpa por tudo, principalmente pelo tempo perdido sem falar com o filho amado. Sofre calado pelo que podia ter sido e não foi. Se não fosse tão orgulhoso e fanático. Sente-se envergonhado. A noite se estende silenciosa e José finalmente toma coragem e se aproxima do caixão para enfim ver o filho pela última vez. De repente as lágrimas secam e seu semblante muda de tristeza para raiva. Ele resmunga qualquer coisa indecifrável e vai para casa. Conforme vontade de Marcos dita numa mesa de boteco, ele seria enterrado com a camisa do Timão.
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