segunda-feira, 25 de junho de 2012 4 goles

Pequenas Eternidades

Ele já sai do banho de olho no relógio. Uma hora e meia. É o tempo que o separa dela. Enquanto se veste sente algo na barriga. Serão as malditas borboletas de que tanto se fala? Na cozinha bebe uma xícara de café amargo de um só trago, porém elas continuam lá. De volta ao quarto de frente ao espelho faz caretas, não gosta do que vê. Troca de roupas, gel no cabelo, renova o perfume e se sente melhor. Olha mais uma vez o relógio. Já se foram 30 minutos apesar do tempo estar congelado. Ele coloca o telefone celular para despertar daí mais 30, pois calcula que meia hora serão suficientes para ir até o aeroporto com calma. Nessa mesma hora ouve vibrar o telefone sobre a mesa. Num SMS ela confirma que logo chegará apesar dos inevitáveis atrasos. Já se acostumara aos aeroportos, mas aos atrasos é tarefa impossível. Ele entra no banheiro e se desespera. Não pode recebê-la com o banheiro naquele estado. Ignora o frio e arranca o casaco. Lava todo o banheiro. Aproveita e varre toda a casa. Bota o casaco apesar de já estar com calor. O celular desperta, vem o friozinho gostoso na barriga, as mãos suando, o sorriso abestalhado, sente o coração apertado e acelerado. Lava o rosto. Confere o trajeto mais uma vez. Não pode errar. Um erro e perde a hora. A eterna sensação de que jamais pode errar. Respira fundo, entra no carro e vai.

Liga o som do carro, as mãos suam sem parar. Será que está no caminho certo? Desliga o som porque o barulho lhe incomoda. Havia escolhido as músicas um dia antes, uma por uma para ouvir com ela, mas enquanto ela não está com ele, por mais que ame aquelas músicas elas só conseguem irritá-lo, só conseguem lhe tirar a concentração. Acha engraçado concluir que as vezes a música pode cegá-lo. Sente-se incomodado como se tivesse um espinho cravado na pele. Vê um placa, duas, três. O caminho está certo mas a ansiedade é perturbadora. A visão da estrada é cortada por flashes de lembraças quentes, cores vivas e sabores maravilhosos. Lembra-se dela e do quanto ela o faz feliz, do quanto precisa dela. Lembra-se dos beijos ao fim da tarde enquanto o sol se pôe no campus, do girar com ela sob árvore frondosa em noite fria, lembra-se de mingau na caneca e dos censores da praça de alimentação. Um sorriso lhe escapa. Estaciona o carro e vai para o desembarque.

O olhar vidrado no painel eletrônico que anuncia pousos e decolagens. Previsto, atrasado, confirmado, aeronave no pátio... Cabem 2 horas em 20 minutos, cabem meses dentro de semanas, cabem anos dentro de meses. Caminha de um lado para o outro. Conversa com o cara ao seu lado e tira dúvidas que não existem. Às vezes funciona tirar e trocar dúvidas que não exitem de verdade, dá pra partilhar neuras e anseios de forma segura. Dali começa a ver os passageiros indo pegar as bagagens.  Uma primeira leva de pasageiros e uma pausa. Onde ela está que não aparece? Surge um senhor do nada e segura no seu ombro "Calma, ela já vem" e em seguida se perde na multidão. Antes que ele pudesse tentar compreender aquilo ela aparece ao longe, mas passa direto em busca da bagagem e some da sua vista. Como ela pode ter desaparecido assim? Em 5 minutos cabem meia hora ou mais. Enfim ela aparece com mala cor de rosa, jeans e sorriso no rosto. De repente tudo fica pra trás, nada mais faz sentido. Então o abraço tão esperado, apertado, demorado, cheio de perfumes guardados na alma. Ele está com uma felicidade que não conseguirá descrever pelas próximas semanas até desistir de tentar explicar. Ele está completo. Ele sou eu.
 
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