quarta-feira, 11 de julho de 2012 2 goles

Sobre os sonhos

Quando criança João estudava na única escola rural do município. Muito pobre, botava com cuidado as poucas coisas que tinha num bornal amarelo que seu pai ganhara na última eleição. Chegando lá amarrava sua mula no campinho frente à escola e ia todo feliz pra sala. Um dia num recreio, enquanto brincava com seus amiguinhos, alguém perguntou o que eles gostariam de ter. Entre tantos sonhos de brinquedos e dias melhores todos riram ao que João respondeu:

- Eu quero ter uma caminhonete, uma D20 igual à do patrão do meu pai.

Todos disseram que ele jamais conseguiria, que mal tinha roupas para ir pra escola. As coisas pioraram muito depois que os pais dele perderam o emprego e não não tendo encontrado nada melhor foram tentar a vida na cidade. Sem reservas financeiras nem espirituais...

Passam-se os anos. João entra pela primeira vez numa concessionária afim de realizar o sonho de menino. Sorri satisfeito com as chaves da sua Hilux. Por um instante lembra do sonho antigo e sai dali tranquilo ao pensar que ao menos continuou sendo uma caminhote e que afinal, os sonhos tem de evoluir com a gente.
sexta-feira, 6 de julho de 2012 5 goles

O nome disso...


Um, dois, três cliques no botão. Se ele sente saudades de quando era preciso girar o botão para se encontrar alguma rádio? Sim, com certeza, porém sente muito mais saudade de conseguir encontrar músicas que lhe agradem. Desliga o som e segue conversando com sua mãe sentada no carona. Ele esconde o estresse que sente com o trânsito enquanto ela desabafa qualquer coisa sobre financiamentos e aluguéis. Aproveita para trocar ideias com ela sobre a compra dum imóvel. Planos para o ano que vem que gostaria de resolver hoje.

Na próxima esquina o sinal vermelho. Ela aproveita o carro parado e se despede. Desce ali mesmo porque dali caminhará menos. Enquanto ele espera o sinal abrir observa sua mãe se distanciar lentamente. Lembra-se com ternura de quando ela enfrentava o trânsito numa bicicleta velha para levar sua irmã mais nova até a escola, das longas caminhadas que ela fazia ao final das tardes, do quanto ela corria para arrumar tudo, pra dar conta de tudo. Hoje os passos lentos apesar de ainda tão jovem. Um leve aperto no coração.

Ele guarda o carro, pega suas coisas e segue a pé os quase 3 quarteirões que o separam do seu destino final. Olha o relógio e aperta o passo a fim de diminuir o atraso e aperta tanto que alcança sua mãe. Ele de um lado da avenida, ela do outro. Então fica deslumbrado com o que vê. Pensa em cessar a caminhada ou ao menos fazê-la mais devagar, pois queria ter certeza de que a cena ficaria guardada em sua memória. Grande bobagem. O que nos marca quase sempre acontece nos diminutos momentos. Continua o seu caminho permanecendo o ritmo e o olhar que não consegue se desviar dela, até que inevitavelmente a perde de vista.

Durante todo o dia sorri sozinho e muito provavelmente com cara de bobo ao se lembrar. E quem não ficaria assim ao presenciar, no silêncio barulhento da cidade, sua mãe admirando uma vitrine de livraria. Jovem leitora que a falta de passos mais ágeis trouxe a tona. Ali tão concentrada, possivelmente visitando o universo paralelo que cada leitor cria enquanto lê. Deslumbrada com os lançamentos ali expostos. Talvez um pouco abestalhada ao lembrar-se de quando não lhe sobrava tempo pra leitura. Com certeza com o desejo nada secreto de todo grande leitor de morar numa biblioteca, ou ao menos tê-la dentro de casa.

O coração se aquece e ele não sabe o que pensar. Talvez o nome disso seja amor. Talvez o nome disso seja felicidade boba. Talvez o nome disso seja orgulho.

 
;