sábado, 18 de agosto de 2012 4 goles

Fora de casa

Apalpou os bolsos e se deu conta de ter esquecido as chaves de casa. De olho no relógio logo se aborrece com o fato da esposa só chegar daí uma hora e meia. Certifica-se de que nenhum vizinho o viu na cena que considera constrangedora: estar preso do lado de fora. Depois de um dia péssimo no trabalho até não seria de todo ruim rolar na sarjeta, reflete. Resolve dar um volta, assim gasta o tempo e espanta o frio. Segue até o mercado na praça ali perto. De repente vontade de chocolate. É tão averso a doces que acha por bem aproveitar quando lhe vem o desejo. Compra um dos melhores e mais caros. Vai até a praça e resolve sentar num dos poucos bancos que ainda se mantém de pé.

Nisso um carro rebaixado e de vidros escuros para do outro lado. O som vindo dele é ensurdecedor. Nada de errado para o começo duma noite de sexta, não fossem as letras das músicas contendo sexo explícito e violência. Na praça tem um pula-pula as moscas. Crianças não são mais crianças? Os jardins são puro mato. Observa um grupo de garotos parado na esquina. Todos de capote com capuz, bermudas surfista e tênis de marca falsificado. Fumam ou cheiram alguma coisa. Ele resolve desviar o olhar e comer seu chocolate. Aparece uma senhora que arrasta uma das pernas e trás numa das mãos uma grande sacola cheia de alguma coisa e na outra um potinho vazio de margarina. Mal ela chega e logo uma legião de cães e gatos se aglomera ao seu redor. Ela se senta com certa dificuldade e com a ajuda do potinho vai distribuindo porções do que trás na sacola para os bichos esfomeados: arroz com muchiba. Um morador de rua se aproxima e sem que haja diálogo entre os dois ela lhe dá uma porção.

Um grupo de meninas vestindo micro-shorts dançam ao som que vem do carro. O grupo de moleques de capote se aproxima delas. Ele morde o chocolate pensando se deve ou não ir esperar na porta de casa. Enquanto isso vê um dos garotos oferecer um cigarro para uma menina que não aceita e vem na sua direção. Ela chega olhando para ele com cara safada e se oferece em troca de uns trocados. Quantos anos tem? Talvez nem 12 e vale menos que aquele chocolate, reflete espantado. Ele agradece e diz não. Ela cospe no chão meio raivosa e vai embora. A música do carro rebaixado se mistura a paródia de campanha eleitoral vinda dum carro plotado que passa devagar espalhando santinhos pelo chão. 

Ele resolve se levantar e ir embora. Só quer um banho, comida caseira e os abraços de sua mulher. Já não suporta mais nada do que vê fora de sua casa, aliás, motivo esse o de quase nunca ligar a televisão. De repente é paralisado por um instante com a risada gostosa de um gurizinho que ainda ensaia as primeiras palavras se divertindo no pula-pula. O carro rebaixado se vai e do plotado só resta a rua suja. Com o silêncio ele consegue ouvir o som de um aluno de flauta doce vindo de alguma janela ali perto. Um dia sem sorrir é um dia perdido, então ele finalmente sorri enquanto um dos garotos de capote com capuz saca o 38 e lhe anuncia o assalto. 
 
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