sexta-feira, 14 de setembro de 2012 3 goles

Vinte e Cinco Centavos


Crédito: Lewis Hine/Libray of Congress (detalhe)
04:30 da amanhã do segundo dia da primeira semana de férias. O guri levanta sem vontade e já arrependido por ter aceito o convite dos primos. Da cozinha vem o cheiro de café. Pãozinho amanhecido com margarina. Antes de sair ganha um beijo da mãe seguido de um afago na cabeça que também é arrumação no cabelo rebelde. A rua escura é um canivete suíço. Os pardais fazem barulho nos seus poleiros e inundam o vazio derradeiro da madrugada. O guri caminha sozinho até a casa dos primos. De lá seguem os 3 até o centro da cidade. O sol começa a rasgar o horizonte. Faz frio. Entram na porta estreita do prédio antigo. Pegam quantos jornais conseguem carregar e vão cada um para um cruzamento enfrentar os carros e pedestres. São 25 centavos por jornal vendido para no final do dia gastar com sorvete, refrigerante e fichas de fliperama. Eles tinham sorte, a maioria dos garotos eram tristes e entregavam o dinheiro para os pais comprarem cachaça.

Já é quase hora do almoço. De longe avista o primo mais novo chorando. Corre até lá desviando das motos que fazem zigue-zague entre os carros. Um  homem, também vendedor de jornais, havia expulsado o primo da sua esquina a chutes e pontapés. Ele segura os jornais do primo que senta na calçada ainda soluçando, mas logo engole o choro. É preciso vender mais para tentar zerar Street Fighter. Já recuperado da surra, entra na loja chique e se faz de surdo mudo. A dona com pena compra todos os seus jornais. Ele volta com sorriso safado no rosto. O guri condena o primo mas não diz nada, só quer voltar para casa e esquecer todas as crianças tristes que vendem jornais. Seguem os 3 em silêncio e vão passando pelas lojas e botecos do caminho tentando vender os jornais que sobraram. O primo mais novo se gaba de ter vendido todos de uma só vez.

Na casa da tia almoçam costelinha de porco com farinha de milho. Os garotos tristes às vezes não comem nada, apenas esperam pacientes para vender o jornal vespertino. Alguns não tem para onde voltar. Mais tarde o guri volta para casa meio exausto. A noite seu pai folhea o jornal que já é velho e resmunga qualquer coisa sobre políticos. Depois ele lê as tirinhas e cochila tentando resolver as palavras cruzadas. Antes de dormir o menino pensa na surra do primo e nos garotos tristes.

04:30 da amanhã do terceiro dia da primeira semana de férias. O guri entra pela última vez na porta estreita do prédio antigo. Entrega os jornais que sobraram e o dinheiro. Depois de feitas as contas pega os 25 centavos por jornal vendido. Os primos pegam os jornais do dia, mas ele ao invés disso, foi para casa. Despediu-se dos jornais para sempre.
 
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