quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013 3 goles

Um para-brisa no caminho

Hoje matei um passarinho. Hoje caminhei descalço pelas margens do rio. Balancei na longa ponte de concreto que paira no ar acima das águas. Hoje fotografei lindas paisagens e imaginei como seria a cachoeira no meio da mata e da qual só conseguia ouvir o longínquo lamurio. Hoje comi boa comida feita no fogão a lenha. Mordisquei frutas frescas e bolo com cobertura de chocolate. Hoje eu pesquei tucunarés e colhi conchinhas brancas e amarelas. Hoje dormi sossegado com minha linda numa rede preguiçosa. Hoje eu sonhei com um refrescante salto no abismo. Hoje vi e ouvi canários, coleirinhas, socós, maritacas e rolinhas fogo-apagou. A liberdade dos que voam pode até ser superestimada mesmo. E eu estaria tranquilo com tudo isso. Mas hoje... Hoje eu matei um passarinho.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013 0 goles

Chuva de verão

Foto: Rodrigo Garcia
As longas janelas brancas infestadas de cupins são abertas ao meio dia e o barulho do tráfego inunda a saleta escura. Fumaça diesel mistura-se à do churrasco servido no restaurante do outro lado da rua estreita.

Por um minuto silencia-se o agudo sinal sonoro do semáforo de pedestres. De repente o cantar de pneus seguido de uma batida seca. Mãe e filha corriam desesperadas atrás do ônibus que não as levará a lugar algum. Carrinhos de vendedores de pequi e goiaba disputam espaço com os pedestres curiosos que se aglomeram. Burburinho. Da janela se vê o corpo da menina estirado no asfalto molhado. Enquanto uns erguem a moto outros abrem seus guarda-chuvas e cobrem o corpo imóvel.  Sem polícia militar, sem guardas municipais, sem bombeiros ou ambulâncias de resgate. Longos minutos. Frio.

Sem perceber a menina lançada ao chão um carro avança e freia bruscamente. Buzinas e gritos entrecortados pelo choro desesperado da mãe que afasta inutilmente a cabeça da filha protegendo-a da enxurrada que sobe depressa enquanto espera pelo socorro que não vem. As gotas finas logo se tornam espessas e ao som dos trovões caem quase na horizontal, embaladas pelos fortes ventos que uivam nos fios. As longas janelas brancas são fechadas. As gotas d'água mancham o assoalho.
 
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