quinta-feira, 6 de junho de 2013 4 goles

Sobre o bem

Fecho a porta do carro e saio apressado. Dez passos e volto para pegar o agasalho. O sol das 12 horas queima, mas a sombra gélida do departamento de comunicação me aguarda, coisas desse começo de junho aqui no sudeste. Fecho a porta, respiro fundo, confiro de novo as travas. Balanço a cabeça e saio depressa. Na esquina paro. O sinal se abre e avanço distraído evitando pisar nos intervalos da faixa de pedestres. Num segundo estou de cócoras no meio da rua.

Fito atento e com espanto as gotas de sangue que caem depressa e pintam o chão de vermelho. Fossem vermelhas as lágrimas que num esforço represo em meus olhos, pintado também estaria meu rosto petreficado. Vejo aqueles úmidos olhos aflitos cor de âmbar e cabem tanta história neles que sinto a pequenez dos meus dias. Ali as lágrimas passeiam livres descendo na pele morena retalhada pelo tempo. O que fazer? Seguro as canelas frias e frágeis num misto entre fazer as coisas sem pensar e não saber o que fazer. Conto até três e com ajuda do rapaz com roupa de operário de construção civil colocamos a senhora na calçada, menos de meio metro dali. Podíamos ter feito isso? O atropelador repete irritantemente a ladainha de sempre, 'não a vi','tentei desviar'.

Ela abre a bolsa velha em busca de algo com que se limpar. Noto o pulso já tão inchado, o ralado profundo na testa. As mãos tão trêmulas limpam o sangue com uma blusa de tricô laranja enquanto sussurra nome, idade e tantas outras coisas importantes para que o socorro chegue rapidamente.

Com meu corpo faço sombra para que ela não fique exposta ao sol. Inquietação. Na minha cabeça mil coisas. Guardo bem a idade dela: 79 anos. Que ela faz por aqui? Pra onde ela ia? De onde vem? Alguém a aguarda? Ela tem a quem aguardar? Mentalmente peço que Deus a abençoe e desejo que tudo dê certo. Olho o relógio a todo instante. Estou nervoso com o socorro que nunca chega por conta do sofrimento dela ou porquê estou 15 minutos atrasado? O resgate chega, fazem seus procedimentos, a levam e todos que ali estavam vão embora depressa. Todos atrasados como eu? Sentir vergonha em grupo é menos doloroso, concluo apático. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Não é isso o que está escrito? Quem dera fôssemos todos, a todo instante, compelidos a fazer o bem.
 
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