quinta-feira, 18 de julho de 2013 1 goles

Divina

Capítulo 1 

Let's dance 
Put on your red shoes and dance the blues

Divina escondeu seu segredo enquanto pôde. Mania de antecipar casamento por conta de menina de barriga graúda ainda existia por aquelas bandas. Assinado o contrato meteu-se o jovem casal nas aventuras da cidade grande. Longe das riquezas e simplicidade da terra venderam o orgulho, guardaram o respeito na mochila e aguentaram a toda cusparada vinda da sociedade. Divina chorava com a ideia do filho na creche desde sempre, tudo para que ela pudesse se dedicar integralmente ao ofício de empregada doméstica. Tinha lá suas manias e ignorâncias. Chamada de porca pelas patroas engolia a seco o choro  enquanto imaginava cenas de crimes macabros. Cansada dormia em pé como um cavalo. Animava-se com toda e qualquer quermesse da igreja ou aniversário de amigos que fez na lotação. Vestido púrpura de babados esvoaçantes, meia arrastão com sapato vermelho presente de patroa ranheta. Dançava até se acabar. Quando não tinha para onde ir ouvia Cássia Eller no talo cantando junto ainda mais alto. Quando cansada de Cássia botava na vitrola o disco do David Bowie dispensado pela patroa anglicana e dançava sozinha com a vassoura na mão. 

Capítulo 2

Let's sway
Under the moonlight, this serious moonlight

Veio o segundo filho. Enquanto o marido fazia mil horas extras em posto de gasolina e gastava tudo em cachaça ela criava os guris na base do grito e da chinelada. Mesmo assim fez economia. Juntou dinheiro tirando até o que tinha na mesa. Leite passou longe das crianças. Com muito suor e sofrimento tirou CNH, fez cursos e por fim financiou uma van. Logo ela estava trabalhando dia e noite carregando estudantes nos dias úteis e senhorinhas assanhadas nos finais de semana. O marido entrou na dança e comprou sua van tempos depois. Com o tempo outra e mais outra e mais outra e logo já estavam passando raiva com a restituição do IR. Trocaram o carro e os móveis, reformaram a casa e deram presentes aos pequenos no lugar das palmadas. Tinham vencido na vida.

Capítulo 3

I know when to go out
And when to stay in
Get things done

Impossível que algo prospere em todas as áreas ao mesmo tempo. Naquelas bandas de cidade grande não cabiam manias antigas dos tempos de roça, mas sempre cabem manias num coração saudoso. E foi uma mania antiga que pôs fim nas cantorias, viagens de van e surras de cinta. Seguindo as tradições de sua criação Divina jogava o lixo no quintal para depois atear fogo, que nem sempre era queimado pela falta de tempo em detrimento da incessante labuta. Assim ela fazia, apesar de conhecer os serviços de coleta de lixo, tendo inclusive decorado os dias da semana e horários do lixeiro. Saber de algo é sempre diferente de ter consciência de algo, ainda mais quando se fala em manias. Todos sabem, por exemplo, o quão perigoso é dirigir alcoolizado, ainda assim o fazem sem muita cerimônia. É preciso ser o sobrevivente de um acidente, feliz sortudo da loteria da vida, para crer ser verdade os dados de pesquisas e teses de doutorado. Assim o lixo acumula e com ele todas as mazelas, mas há TV digital e gordura saturada à mesa e isso distorce um pouco a vida. E em seu delírio derradeiro de dengue hemorrágica Divina vê no filme de sua vida a patroa relinchando praga antiga: "sua porca, sua porca, sua porca...".

  
 
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