sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O silêncio

Estaciono o carro sujo. Quando terei tempo de limpá-lo? Sorte ninguém ter escrito nele com a ponta do dedo "Lava-me por favor!". Antes de abrir a porta de casa rego os lírios, a primavera, o coqueiro que esta num vaso e nunca tenho tempo de plantar no chão. Dou bom dia ao senhor cego que nunca me responde. Depois boto o lixo pra fora, lavo a louça do café e procuro outras coisas pra fazer, mas elas me acham antes. Estico o varal, coloco a cortina, faço prateleiras e lixo as paredes. Depois tem a cabeceira da cama, a textura da parede e o projeto das luminárias de barbante que nunca começo. Não ouço carros, nem burburinho, nem música brega vinda da vizinhança... só ouço o vento cantando como em filme americano, só ouço o bando de pássaros pretos entrecortados pelos gritos eufóricos das maritacas, só ouço o ruído longínquo de furadeiras e marteladas noutras obras de dar personalidade onde se mora, só ouço o silêncio.

De repente lembro que quando bebo, de preferência vinho ou cerveja preta, vou gradativamente baixando o som do rádio ou da TV. Meus amigos nunca comentam mas já devem ter notado. A bebida me deixa sensível ao barulho. Talvez eu devesse beber um cálice de vinho para ouvir melhor? Para espantar de vez o silêncio? Mas ainda é tão cedo e o sol rasga as janelas e portas incendiando tudo que toca. Afinal pra quê tanto vidro? Quando estou sozinho o processo é inverso e vou aumentando o volume do som e a cada vez que giro o botão para cada vez mais alto tudo parece cada vez mais longe. O silêncio me deixa triste e não raro ele vence o rádio, a tevê e o trabalho.

A mania de falar sozinho aparece quase sempre. Depois do almoço sozinho e em silêncio, vem o trabalho quase todo em silêncio nesses dias tão arrastados. E a noite é chegar em casa, fazer o jantar, ouvir toda história, reclamação e risadas suas e perceber ao deitar ao seu lado, no aconchego do seu abraço e imerso no cheiro gostoso que só você tem o porque é tão bom ter nosso canto, o porque é tão bom trabalhar, mesmo com todo o silêncio do meu dia, para que tudo fique como imaginamos. O presente de todos os dias é ouvir seu constatar de que aquela é a melhor hora do dia. 

3 goles:

João Paulo Bispo disse...

Outra dose, garçom! Por favor!

Alice Barros disse...

Menino... DIVINO!

Pê Sousa disse...

O silêncio tem lá suas vantagens; principalmente quando é transformado em arte... Boa, amigo!

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