sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Primavera

A planta, um bougainville, conhecida por primavera por essas bandas, não passava de um velho tronco retorcido e fraturado. Desprezada agonizava num canto do jardim em reforma. O guri viu nele o que ninguém mais viu. Então o recolheu e plantou em vaso raso de cerâmica pintada de dourado. Esterco de curral, água, sol e os grãos tão brancos de salitre. Não tão logo a planta brota e toma forma com podas e aramações. De tempos em tempos o ciclo se repete: caem as folhas e cobre-se de flores. Depois as flores se vão e os desnudos galhos aguardam as folhas e ramos que tão viçosos dão trabalho à condução ao tilintar das tesouradas. 

Sem estilo definido críticos diriam não ser bonsai de verdade. Diriam ser apenas cópia barata que se vende em mercado de bairro e morre em menos de mês. Mas que importa se o bonsai está ou não num guia de revista especializada se os olhos e o coração se comovem ao vê-lo? Coisa que sinto mais falta no mundo é a tal da contemplação... 

Passam-se um, dois, três... oito anos. E a cada florada uma chuva de elogios de quem os visitava. Como recompensa a enche de mimos: farinha de ossos e torta de mamona. 

Dia desses o guri, agora homem feito a leva para um novo lar. Agora casado, olha orgulhoso as pequenas conquistas mundanas: um carro velho, um emprego mal remunerado que adora e uma linda casa. Seguro por muros altos, guarita e vigias a pequena árvore descansa serena aos pés da janela do quarto do casal. 

Certa manhã, regressando de viagem, o guri é tomado por raiva imensa. Anda de cá para lá resmungando todos os palavrões que sabia. Vai ao síndico e retorna com a amarga certeza de que nada será feito. A cada manhã e a cada fim de tarde uma pausa defronte a janela agora de pés vazios. A marca do vaso no chão parece tão fresca. No gramado encontra uma flor, resquício único do roubo e que é guardada com carinho dentro de uma Bíblia. Respira fundo. Resta a indignação por pagar caro para que episódios assim não acontecessem e no coração uma única certeza: para quem teima e luta para que as coisas permaneçam, todo adeus é um parto.

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