quinta-feira, 7 de maio de 2015 0 goles

Odor de Rosas

     
Quando penso no Rodrigo dos tempos de escola não consigo deixar de pensar num guri meio autista. Sempre me escondi do mundo criando um mundinho só para mim. Eu brincando com minha caneta técnica de nanquim, lendo alguma tirinha do Garfield ou tentando adivinhar que passarinho cantava lá fora. E se deixei de viver muita coisa, também me protegi ali de muitas outras. Ainda assim vez ou outra, como sempre acontece, fui alvo de brincadeiras dos colegas. Algumas maldosas. E de todo bullying que possa ter sofrido, esse foi o que mais me marcou. Não foi a dor do chute que levei entre as pernas. Nem a vergonha de ter o short arriado numa aula de educação física. Ou mesmo a raiva de, ao atender um pedido de fazer um desenho, a pessoa ao invés de usá-lo para ilustrar o trabalho escolar como me dissera, inscrevê-lo num concurso como se fosse seu e vencer. Mas foi ao entrar na sala de aula naquela sexta-feira, logo após o recreio, encontrar o presente que havia feito todo amassado e grudado no teto que me levou às lágrimas de imediato. Logo eu que não chorei ao comer pimenta quando ainda nem sabia que aquilo era pimenta, ao cortar acidentalmente a coxa com uma lâmina velha ou queimar o braço no fogão. Porque desde sempre aprendi que, assim como cozinhar para quem amamos, presentes que demandam tempo e dedicação tem muito mais valor. 
      A professora limpou minhas lágrimas e pediu para que eu voltasse a tarde. "Compre um sabonete phebo, qualquer um menos o odor de rosas que é preto" ela me orientou. Para minha tristeza foi o único que encontrei. Chegando na escola a procurei e dando uma escapadinha da sala de aula, ela levou-me até a biblioteca e ali fizemos, com um descascador de legumes e muita paciência, as finas lascas de sabonete se transformarem numa perfumada rosa. E ficou linda. O sabonete glicerinado ao ser cortado em fatias tão finas ficou translucido cor de âmbar. Tantos anos depois, fazendo compras numa manhã de maio, olho para a parte mais baixa das prateleiras e lá vejo a clássica embalagem amarela. Não tenho dúvidas e levo um. O perfume se espalha pela casa na hora do banho e então me lembrei disso tudo. Logo vai ser mais um dia das mães. Mais um dia para gastar algumas horas preparando algo muito especial para ela. Minha mãe.
quarta-feira, 15 de abril de 2015 0 goles

De volta

Foi numa manhã de abril, de céu nublado e ventinho frio que a vontade de escrever voltou.

Saio da suntuosa e decrépita casa do povo em direção ao calçadão. Sinto um cheiro de coisa velha e vapor de bueiro no ar. Eis o cheiro estimulante da cidade. Desvencilho-me dos andarilhos e ciganas que pedem dinheiro com suas histórias clichês. Cruzo o labirinto de ambulantes. Encontro afinal um banco vazio. São 10h da manhã e me sento ao lado de um velho magro de cabelos desgrenhados e que segura um cigarro apagado entre os dedos. O cheiro de almoço dos restaurantes populares já invade o ar misturando-se ao cheiro da cidade. Observo os ambulantes com suas barracas improvisadas de frutas da estação, bugigangas diversas e DVDs piratas. Um carrinho de cocada infestado de abelhas parece abandonado. Outro velho toca viola no banco ao lado. Usa boina. Perninhas secas cruzadas e olhando para o nada. Sua música é abafada pelos anúncios de lojas populares onde homens gritam como gralhas.


Em tempos outros passei muitas horas ali naqueles mesmos bancos, vendo as pessoas passarem, apressadas. Sempre apressadas. São outras pessoas agora, porém são as mesmas. São como sombras ou reflexos. Abro o livro que trouxe e começo a ler como há muito não fazia. O vento leva as nuvens e o sol surge poderoso. As páginas que antes alimentavam minha alma agora iluminadas ferem meus olhos. Fecho o livro e olho pro alto na tentativa de, ao observar o céu, ser capaz de dizer se a sombra voltará. Acima das fachadas cada vez maiores e coloridas das lojas erguem-se prédios antigos de diferentes escolas. Fecho a cara. Quanto se perde em riqueza arquitetônica com propagandas sem graça. Concluo que as nuvens não voltam mais hoje. Olho para mim mesmo em meio aos hippies e aposentados e vejo o jovem Rodrigo, que naqueles bancos passava a hora do almoço. O jovem Rodrigo perseguindo coisas que não existem. Lembro do livro que escrevi na adolescência e tratava justamente disso, ainda que eu não tivesse consciência. Abro um sorriso discreto. Penso nas coisas que tenho e nas que realmente posso ter e de como as posso realmente ter. A vontade de escrever me invade e me completa. Não há mais tempo. O bom cidadão torna à casa. E das janelas brancas que se erguem apesar dos cupins, vejo as nuvens voltarem poderosas e com elas a chuva que entra molhando o chão de madeira ruidosa. As janelas se fecham, mas aqui dentro tudo está aberto. 
 
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