quarta-feira, 15 de abril de 2015

De volta

Foi numa manhã de abril, de céu nublado e ventinho frio que a vontade de escrever voltou.

Saio da suntuosa e decrépita casa do povo em direção ao calçadão. Sinto um cheiro de coisa velha e vapor de bueiro no ar. Eis o cheiro estimulante da cidade. Desvencilho-me dos andarilhos e ciganas que pedem dinheiro com suas histórias clichês. Cruzo o labirinto de ambulantes. Encontro afinal um banco vazio. São 10h da manhã e me sento ao lado de um velho magro de cabelos desgrenhados e que segura um cigarro apagado entre os dedos. O cheiro de almoço dos restaurantes populares já invade o ar misturando-se ao cheiro da cidade. Observo os ambulantes com suas barracas improvisadas de frutas da estação, bugigangas diversas e DVDs piratas. Um carrinho de cocada infestado de abelhas parece abandonado. Outro velho toca viola no banco ao lado. Usa boina. Perninhas secas cruzadas e olhando para o nada. Sua música é abafada pelos anúncios de lojas populares onde homens gritam como gralhas.


Em tempos outros passei muitas horas ali naqueles mesmos bancos, vendo as pessoas passarem, apressadas. Sempre apressadas. São outras pessoas agora, porém são as mesmas. São como sombras ou reflexos. Abro o livro que trouxe e começo a ler como há muito não fazia. O vento leva as nuvens e o sol surge poderoso. As páginas que antes alimentavam minha alma agora iluminadas ferem meus olhos. Fecho o livro e olho pro alto na tentativa de, ao observar o céu, ser capaz de dizer se a sombra voltará. Acima das fachadas cada vez maiores e coloridas das lojas erguem-se prédios antigos de diferentes escolas. Fecho a cara. Quanto se perde em riqueza arquitetônica com propagandas sem graça. Concluo que as nuvens não voltam mais hoje. Olho para mim mesmo em meio aos hippies e aposentados e vejo o jovem Rodrigo, que naqueles bancos passava a hora do almoço. O jovem Rodrigo perseguindo coisas que não existem. Lembro do livro que escrevi na adolescência e tratava justamente disso, ainda que eu não tivesse consciência. Abro um sorriso discreto. Penso nas coisas que tenho e nas que realmente posso ter e de como as posso realmente ter. A vontade de escrever me invade e me completa. Não há mais tempo. O bom cidadão torna à casa. E das janelas brancas que se erguem apesar dos cupins, vejo as nuvens voltarem poderosas e com elas a chuva que entra molhando o chão de madeira ruidosa. As janelas se fecham, mas aqui dentro tudo está aberto. 

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